Amadeo de Souza-Cardoso volta ao Porto, 100 anos depois

O Museu Nacional Soares dos Reis celebra a polémica exposição do pintor português de 1916, um século depois. Inaugura amanhã no Porto e a 12 de janeiro em Lisboa

Cem anos depois, Amadeo de Souza-Cardoso volta ao Porto. As mesmas obras - 81 de 114 - que mostrou no salão de festas do jardim Passos Manuel vão estar, a partir de amanhã, na galeria de exposições do Museu Nacional Soares dos Reis. "O que quisemos fazer não foi revelar Amadeo, mas mostrar estas obras, celebrar o centenário" diz Raquel Henriques da Silva, curadora da exposição com a investigadora Marta Soares.

Quando tudo estiver pronto para a abertura ao público, os visitantes de 2016 podem tentar imaginar o ambiente do Jardim Passos Manuel há 100 anos. Verão as páginas de um álbum de reproduções das obras de Amadeo passar num ecrã lembrando o popular Cinematógrafo que ali estava instalado. Verão a programação do local (ao lado dos nomes das obras de Amadeo), uma fotografia do local na época e outra do salão de festas onde há 100 anos exatos Souza-Cardoso mostrou a sua obra no Porto, pela primeira vez. Era, então, um local muito frequentado pela burguesia da cidade. É, hoje, o Coliseu.

Há três anos, antes mesmo de se saber que Amadeo de Souza-Cardoso seria alvo de uma retrospetiva no Grand Palais, em Paris, ganhou vida a ideia de evocar as exposições do pintor no Porto e em Lisboa, onde também expôs, no Palácio do Calhariz-Palmela, então sede da Liga Naval. Marta Soares, licenciada em Estudos Portugueses, cruzou-se com o artista estudando Orpheu no seu mestrado. A exposição sobressaiu de um conjunto de iniciativas planeadas para celebrar os artistas desta época.

Das 114 obras que foram mostradas há 100 anos, foram trazidas 81 para o Soares dos Reis, estão identificadas 91. Desconhecem-se imagens da exposição exatamente como Amadeo a montou (e ele esteve envolvido em todos os momentos), na exposição de hoje os quadros são mostrados pela ordem que o artista usou no catálogo que foi publicado para a ocasião e que também se pode ver no Soares dos Reis ao lado daquele caderno de 12 reproduções e do pouchoir que usa como assinatura.

O modo de exibir as obras de arte será estranho aos olhos do visitante de hoje. As curadoras trouxeram o espírito da época para a galeria dos Soares dos Reis. "Se fosse hoje, a montagem não seria assim", explica Raquel Henriques da Silva, justificando a proximidade entre os quadros, já pouco usual. "Nessa época estavam próximos, havia sobreposições", nota Marta Soares. "Foi um desafio que achámos muito interessante", diz a professora, entregando as honras da visita à aluna.

Comunicação, cuspidelas e polémica

Marta Soares trabalhou o que foi publicado na imprensa sobre a exposição. "O meu artigo no catálogo é quase só sobre isso", sublinha. Encontrou quase meia centena de recortes (95% dos quais reunidos no espólio do pintor à guarda da Fundação Gulbenkian), alguns com textos semelhantes publicados em jornais apoiantes da causa monárquica, como Amadeo, ou republicanos. A curadora deixa claro que a linha editorial não é garantia de defesa ou repúdio. "Na entrevista a um jornal de Coimbra, monárquico, há uma grande empatia entre o jornalista, um jovem de 17 anos, e Amadeo. Maior do que na do jornal O Dia". Houve más reações à exposição do jovem de Manhufe que tinha vivido em Paris, mas não tantas como o que ficou da exposição possa levar a concluir, considera a investigadora. "Encontrei mais críticas positivas e neutras do que negativas e apenas duas violentas".

"Verificamos que esta exposição abriu um debate concreto", afirma a historiadora Raquel Henriques da Silva. "Era a primeira vez que se mostravam obras tão ligadas às vanguardas parisienses", acentua.

Amadeo tinha já "uma grande preocupação com a comunicação. Não é inédito na época, mas está presente em Amadeo", frisa a historiadora de arte e antiga diretora do Museu do Chiado. "É feito com muita sistematicidade". Relembre-se que edita um caderno de reproduções e o catálogo.

O grafismo "é muito moderno", diz a professora, mostrando esse detalhe até numa tarja que acompanha a informação da exposição e que põe em destaque o facto de já ter mostrado o seu trabalho em Nova Iorque, Paris (Salon d" Automne, no Grand Palais, em 1912) e em Berlim (Galeria Der Sturm).

Em França, o número de estrangeiros que se apresenta no Salon d" Automne é alvo de debate no parlamento, "um debate de fundo xenófobo", recorda Marta Soares. Em Berlim, a exposição tão-pouco é acolhida entre aplausos. A má receção da arte moderna nestas cidades é lembrada pela curadora para contrariar uma leitura dos acontecimentos que atribuía ao atraso de Portugal as críticas que Amadeo recebeu.

Da exposição de 1916 diz-se que cuspiram nos quadros, diz-se que Amadeo foi agredido. Marta Soares explica que a primeira carece de confirmação científica. "Não se sabe se não é metáfora e passou como memória familiar". O mesmo não se pode dizer da agressão. Está documentada (e foi alvo de estudo por parte do investigador Luís Damásio). O jovem Souza-Cardoso, 27 anos na época, foi atacado na rua, onde estava com o irmão, e assistido no hospital. Sabe-se ainda que ele viveu a exposição de forma tão intensa que foi quase todos os dias ao salão de festas nos 12 dias em que os quadros estiveram patentes. Se vendeu algum não é claro. Nenhum registo o indica, mas é facto que mostrou menos uma obra em Lisboa.

Numa carta enviada ao crítico de arte americano Walter Pach, responsável pela sua presença no Armory Show, a primeira exposição de arte moderna em Nova Iorque ao lado de Kandinski, Matisse, Brancusi, Picasso ou Duchamp, fala de 30 mil visitantes. "Escreveu ao tio que no último dia teve de fechar as portas à multidão", conta Marta Soares.

Sobre os números de visitantes, Marta Soares explica que o cinematógrafo do Jardim Passos Manuel, inaugurado em 1908, era muito popular nesta época. "Atraía multidões", considera. A burguesia do Porto, e um número de pessoas mais vasto do que aquele que pode ter visto as mesmas obras em Lisboa, onde a exposição é organizada nas instalações da seleta, elitista e monárquica Liga Naval.

O salão de festas do Passos Manuel ficava próximo da camisaria Confiança, uma loja que pertencia a um familiar de Amadeo e onde, de resto, ele trabalhou em 1903. Foi aqui que Amadeo guardou as suas obras de arte enquanto preparava a exposição. E, de novo, se estabelece uma relação com o cinema, nota Marta Soares. É na fábrica da camisaria Confiança que Aurélio Paz dos Reis faz o primeiro filme português (A Saída do Pessoal Operário da Fábrica Confiança), no final do século XIX, "em diálogo com os irmãos Lumière", que registam a saída dos operários da fábrica da família em Lyon. O diálogo entre cinema e arte continua. Marta Soares lembra que a sede da Invicta Filmes, a maior produtora de filmes mudos da época, tinha sede nos Jardins Passos Manuel.

Lisboa, ainda em 1916

A exposição do Porto, a que chama abstracionista sem o ser, acontece quando Amadeo de Souza Cardoso já está em Portugal há dois anos. O eclodir da I Guerra Mundial, leva o artista a refugiar-se na casa da família, em Manhufe, com a mulher, Lúcia. É dispensado de apresentação militar semanas antes da exposição do Porto, lembra Marta Soares.

A intenção de voltar a Paris em janeiro de 1917 é clara nas suas missivas, e, acredita-se, explica o desejo de expor "a toda a força, ainda em 1916", em Lisboa. Quando chega a Lisboa ainda não sabe onde o vai fazer. Recorre, de novo, à camisaria Confiança, que tinha uma sucursal na Baixa, para guardar as obras. Propõe expor os seus quadros a José Pacheko, autor do primeiro número da revista Orpheu e dono da galeria das artes do Salão Bobone. Não se conhece resposta; sabe-se que não foi lá que expôs.

Através de um amigo do tio, o comandante Polycarpo de Azevedo consegue uma sala, mais pequena do que o salão do Porto, para mostrar as obras: a Liga Naval, um local associado aos monárquicos, onde o rei D. Carlos havia depositado uma coleção de História Natural marítima hoje à guarda do Aquário Vasco da Gama. A exposição inaugura a 4 de dezembro de 1916, a troco de um aluguer pago por Amadeo.

Em sinal de agradecimento, a 12 de dezembro desse ano, Amadeo dedica um álbum de Vingt Dessins a Polycarpo de Azevedo. É mais um dos objetos que se pode ver na exposição no Museu Soares dos Reis.

Na Liga Naval, vende uma das obras, facto que é noticiado pelo Diário de Notícias. O comprador é Mário Dartagão, proprietário de um palacete nas avenidas novas, e a obra está entre aquelas que têm vindo a ser identificadas. Está de novo em exposição. O DN adianta, numa última notícia em que dá conta do encerramento, após prolongamento, da exposição da venda de "numerosos quadros".

Se no Porto, a comunidade artística é parcimoniosa nos elogios, em Lisboa, é, claramente, acolhido pelo grupo de Orpheu, com Almada Negreiros à cabeça, como autor do manifesto de defesa da exposição. Do pintor, dirá que é a maior novidade de Portugal na Europa, mas também que a sua exposição é mais importante do que a descoberta do caminho marítimo para a Índia. "Isto, para mim, está em diálogo com a programação da escola naval que tinha feito colóquios sobre Vasco da Gama", aponta Marta Soares. Como há cem anos, depois do Porto a exposição viaja até Lisboa.

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