A Operação Condor fotografada por João Pina

João Pina com algumas das suas fotografias

Cem fotos sobre as vítimas da operação conjunta de repressão de seis ditaduras sul-americanas, num dos lugares do 25 de Abril, o Terreiro do Paço.

À entrada há um túnel onde se perfilam fotografias de um metro e oitenta, menores do que as que, com 4,5 metros, vão ocupar o exterior das janelas do Torreão Poente da Praça do Comércio. Cada pessoa tem um número que o identifica: são brasileiros que foram para o Chile no tempo de Allende e fugiram para a Argentina depois do golpe de Pinochet. Foram perseguidos na Argentina. É assim que começa a exposição Operação Condor, do fotógrafo João Pina, com curadoria do brasileiro Diógenes Moura.

Logo na primeira sala estão 26 retratos de pessoas cujas histórias João Pina, 36 anos, conhece de cor, e com quem se mantém em contacto. Apenas perdeu uma das amigas: "A Mirta morreu de cancro no ano passado, foi quase minha mãe em Buenos Aires, vivíamos a 50 metros um do outro". Entrevistou todas estas pessoas, e mais muitas outras mas foi estas 26 que escolheu para mostrar em Lisboa. Todas elas foram vítimas da Operação Condor.

Noutra sala estão fac-similes dos documentos iniciais desta operação repressiva que juntou nos anos 1970 as polícias políticas de seis países com ditaduras militares: Chile, Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia. Está mesmo a carta que o general Contreras [Juan Manuel Guillermo Contreras Sepúlveda,1929-2015] o chefe da DNA do Chile no tempo de Pinochet, enviou ao homólogo Francisco Brites, do Paraguai, convidando-o para a primeira reunião em 1975. E até a ata dessa reunião inicial está exposta.

Foram nove anos de trabalho que João Pina iniciou em 2005. A primeira sobrevivente que entrevistou foi D. Elzita, em Porto Galinhas, no Recife. Aponta cada um deles e vai dizendo: "mãe, desaparecido, vítima civil de um conflito armado, avó e mãe, presa torturada, filho que viu os pais serem sequestrados, presa torturada a quem queimaram o filho vivo, guerrilheiro que depois foi preso e torturadíssimo, vítima direta da Operação Condor, preso político em Portugal e no Brasil (António Louro, vive no Rio desde 1961, uma figura mística), um camponês que não tinha nada a ver e foi torturadíssimo". Enfim, "uma mistura entre sobreviventes, familiares e pessoas que tiveram familiares presos e foram presas também".

Noutra zona da exposição, dedicada à justiça, está um retrato icónico: militares argentinos em pleno julgamento - a Argentina foi o único país a julgar os torturadores. "São crimes de lesa-humanidade, não prescrevem", sublinha o fotógrafo. Os militares escondem as caras com as mãos, depois de terem gritado com o fotógrafo "e chamado muitos nomes à minha pobre mãe", diz João Pina com um sorriso. Tem outras fotos desse julgamento mas escolheu esta, pensa que a atitude de tapar a cara tem um enorme significado.

Ao lado, uma imagem da única reportagem que João Pina fez em toda a vida sem trocar uma palavra com os fotografados: "Os apoiantes dos militares ainda hoje se manifestam no dia 5 de outubro de cada ano, é o dia nacional da luta contra a subversão. Fui para lá, esperei que chegassem. Não troquei uma palavra com ninguém, estive duas horas e meia a fotografar."

O contrário aconteceu com Curió [major Sebastião Curió Rodrigues de Moura], torturador conhecido em todo o Brasil, que lhe deu uma entrevista e que está fotografado na exposição: "Contou muitas coisas, obviamente não confessou que matou, mas explicou que capturou pessoas, que foi ao Chile fazer isto e à Argentina fazer aquilo. Vive no Brasil, foi ele que tirou Stroessner do Paraguai, e vive no Lago Sul, o bairro nobre de Brasília, na sua casinha de dois mil metros quadrados, com alguns problemas de consciência. Estive largas horas com ele e fiquei com a sensação de que é um homem muito sozinho. Foi isso que o fez querer falar, e é criticado dentro das Forças Armadas, mas acha que estas coisas têm de ser faladas."

E de repente surge, ao fundo, uma imagem que parece fora do contexto e afinal é a mais contextualizada: um centro de tortura do Estádio Nacional do Chile, um espaço rigorosamente igual ao lugar onde está - a casa de banho masculina do Torreão, tal como era quando ali funcionava o Ministério do Exército. Uma porta para os sargentos, outra para os praças, outra para os oficiais. É a única foto produzida especialmente para a exposição de - a Operação Condor já passou pelos países que sofreram estas ditaduras.

Voltamos ao Estádio Nacional do Chile na secção do "Absurdo", que mostra as bancadas hoje tornadas um memorial do que aconteceu em setembro de 1973, quando milhares de pessoas foram presas naquele espaço desportivo na sequência do golpe de Augusto Pinochet que derrubou Salvador Allende. Ainda hoje estas bancadas de madeira se mantêm e nunca são ocupadas - percebe-se na imagem que no resto do estádio os bancos são em plástico, mas neste topo são antigas, feitas mensagem da memória. Outros "absurdos": o avião que o dono de uma loja comprou para recordar a Guerra das Malvinas e que depois se soube que foi usado para atirar presos políticos para o Rio de La Plata, na Argentina. "Ele comprou o avião numa atitude patriótica, de independência, e lá está bem visível a indicar a localização da loja., Mas hoje não pode mexer nem num parafuso do avião porque é uma prova judicial."

Novo "absurdo". O eucalipto gigante num descampado, rodeado de estacas que assinalam a escavação arqueológica, também na Argentina. O edifício do centro de tortura Bahía Blanca, também na Argentiinauma antiga escola, foi demolido, não deixaram vestígios, mas os sobreviventes reconheceram a árvore enorme que ficava ao lado. As buscas arqueológicas têm permitido encontrar muitas ossadas, muitos sinais do que ali se passou. E aqui está um tema essencial: identificar os restos mortais é importante para o processo judicial mas é sobretudo essencial para as famílias:

"Os desaparecidos são a tragédia grega, a Antígona do nosso tempo", diz João Pina. "D. Elzita morou 40 anos na mesma casa e dizia "se o Fernando voltar ele sabe que eu vivo aqui". É de partir o coração. Estive em dois funerais na Argentina, incluindo um que está aqui fotografado, e percebi que aquele é um momento de festa, o momento de poder finalmente prestar homenagem."

Daí a importância do trabalho dos antropólogos forenses. João Pina destaca o papel de Clyde Snow, que no início dos anos 1980 formou uma equipa de jovens na Argentina, precisamente para esta função. "Hoje eles são as grandes cabeças da antropologia forense, estão avançadíssimos na identificação de ADN, e felizmente o governo argentino investiu muito neste projeto".

Continuando na exposição, chegamos a quatro fotografias de paisagens que parecem tranquilas e que, lidas as legendas, são terríveis. São lugares de morte. João Pina prepara um vídeo com imagens do Tejo, captadas do Torreão, como uma evocação daquele preciso lugar de Lisboa. "Cada um tire as suas conclusões". O vídeo será projetado nesta mesma sala, ao lado das paisagens do Rio de La Plata (Argentina), da Serra das Andorinhas, na Amazónia, onde desapareceram os elementos da Guerrilha Araguaia, do deserto de Atacama por onde passou a "Caravana da Morte", com centenas de desaparecidos.

E sim, este lugar é muito significativo para o fotógrafo, nascido e criado em Lisboa, que muito jovem fez um trabalho sobre presos políticos portugueses. "Estou muito contente por poder expor a Operação Condor no Terreiro do Paço, nas vésperas do 25 de Abril, num edifício que foi do Ministério do Exército. Fazer esta exposição em Lisboa era uma das minhas contas pendentes, mostrar na minha cidade este trabalho que foi o maior que fiz até hoje. Há 43 anos, estava no rio uma fragata apontada para aqui, na rua de trás estavam os tanques, os militares andavam por estas ruas, os fotógrafos corriam por aí. E ao mesmo tempo que isto acontecia, o que aqui está na exposição passava-se do outro lado do oceano."

O último momento da exposição é um labirinto sombrio. As poucas luzes estão focadas de cima para baixo sobre fotos de prisões e centros de tortura. A intenção é "criar a claustrofobia de quem está confinado num espaço fechado", diz João Pina, e isso mesmo confirma o curador brasileiro, que reforça outra vez a ideia da tragédia grega.

Diógenes Moura, é ele quem fala agora, é o curador da exposição, responsável pelos textos. Ele e João conheceram-se há dois anos, quando o fotógrafo procurava um curador e lhe indicaram o nome dele, "o único louco disposto a uma coisa destas". Sabia da Operação Condor por ter ouvido conversas entre o pai e os amigos, tinha um tio que era do exército "e teve de ficar interno quando estourou o golpe".

Sabia pouco sobre o assunto:"Foi uma operação muito perversa, ninguém sabia de muita coisa que estava a acontecer, dos desaparecimentos". Agora com 60 anos, Diógenes era muito novo na época, tinha nascido no Recife onde vivia "numa casa enorme". Para a sua geração, os anos 1970 representavam uma "desbunda de drogas, rock & roll e sexo" e a ditadura era "a grande noite"o pano de fundo de tudo isso. "Muitos músicos desse tempo têm canções em que falam nisso".

João Pina apareceu lá em casa, contou-lhe ao que ia, e ele aceitou, apesar de estar cheio de trabalho. "Foi tudo muito afetuoso, natural, mas eu tive de estudar bastante". É escritor, curador de fotografia e editor, e a violência urbana no Brasil tem sido um dos seus grandes temas de trabalho.

Habituado a preparar exposições - foi inclusivamente curador de fotografia da Pinacoteca de S. Paulo durante 15 anos - percebeu a particularidade desta: "Uma exposição como esta não existe sem as legendas. Na exposição inteira está a história da fotografia ligada à história da legenda. A imagem não vence a palavra, é uma coisa só. É como se você visse a formação de uma identidade, que leva até um atestado de óbito que muitas vezes não existe."

E de repente a ditadura tornou-se um tema para Diógenes, não apenas por causa da Operação Condor. Por coincidência, organizou em 2016 uma exposição da fotógrafa Nair Benedicto, que foi presa política e torturada, chamada Por debaixo do pano. E já em 2017, foi o curador de Visões de um Poema Sujo no Museu Afro-Brasil, em São Paulo, que vai agora começar a itinerar por Goiânia, Rio de Janeiro, Recife e que gostaria de trazer a Portugal. "O Poema Sujo foi escrito pelo Ferreira Gullar (1930-2016) quando esteve exilado, começou na Rússia, depois no Chile e terminou em Buenos Aires. Agora, o fotógrafo Márcio Vasconcellos, que vive em S. Luís, onde Ferreira Gullar nasceu, inspirou-se neste texto para fazer uma série de imagens. Não é a ilustração do Poema Sujo, é uma visão do Márcio sobre o texto", explica. E conclui: "Esta é a minha "trilogia da ditadura", só me apercebi disso quando vinha para Lisboa no avião".

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