"A história está mal contada. Inês de Castro não era assim"

As historiadoras Ana Leal de Faria (esquerda), Manuela Santos Silva e Ana Maria Rodrigues

Três historiadoras coordenam dois volumes com olhar mais atual sobre relações entre reis e rainhas portuguesas

Os portugueses gostam de ler romances históricos e os autores respondem em conformidade, lançando dezenas de volumes sobre todas as princesas e rainhas que desde D. Afonso Henriques povoam o nosso imaginário. Já quanto a livros que resultam da investigação histórica, a situação é outra e o leitor torce o nariz. Daí que quando três historiadoras - Ana Maria Rodrigues, Manuela Santos Silva e Ana Leal de Faria - lançam Casamentos da Família Real Portuguesa se queira saber o que esperam em termos de adesão do público. A resposta surpreende pois estão confiantes de que não lhes faltará leitores, tanto assim que dentro de poucas semanas sairá mais um volume desta coleção, e até admitem um terceiro.

Qual é o segredo para tanta crença? Primeiro, o olhar histórico, porque optaram por ver à lupa os casamentos da família real sob novas leituras científicas. Um assunto que sempre desperta atenção junto dos leitores devido à temática emocional que envolve, mesmo que os bastidores dos casamentos dos nossos reis e rainhas, príncipes e princesas, nem sempre tenham tido um final feliz. Nada que o leitor não perdoe, muito pelo contrário, um desfecho trágico atrai sempre leitores e alunos.

Mas não é este ângulo populista ou romântico que as historiadoras privilegiam, até porque consideram que a história necessita de reinterpretações e é preciso acompanhar as novas correntes. Como a da recente que se preocupa com os afetos. Como refere Ana Maria Rodrigues, o facto de os casamentos reais não acontecerem por amor não quer dizer que o sentimento não se possa desenvolver depois: "A questão dos afetos não tem sido muito acarinhada pelo estudo histórico por ser um tema delicado." Salienta que um dos textos deste volume já adota esta nova visão da história.

Segundo, consideram que a edição de tantos romances históricos em pouco facilitou a investigação feita nas universidades. Manuela Santos Silva é direta: "Pelo contrário, o facto de o mercado estar inundado deles afasta as pessoas da verdadeira história pois esperam por um encadeamento fictício devido à liberdade da ficção para inventar nas lacunas, que não serve uma metodologia científica."

Ou seja, acrescentam as historiadoras, os leitores habituados à ilusão não fundamentada em factos dos romances históricos têm dificuldade em passar para a história. Talvez o caso mais significativo do prolongar de certos mitos do passado por ausência de leitura da história , constantemente repetidos até entre alunos universitários, é o de Inês de Castro. Como esclarece Manuela Santos Silva: "Apesar de já se ter provado que os acontecimentos foram diferentes, continua-se a dizer que veio para Portugal como aia a acompanhar a mulher do rei. Ora já foi demonstrado que ela vivia no país e não tinha qualquer relação com D. Constança, bem como o encontro com D. Pedro verificou-se noutra circunstância. A história está mal contada, Inês de Castro não era assim."

Terceiro, acreditam que a divulgação da história deve ser feita noutros moldes, como confirma Ana Leal de Faria: "Somos investigadoras mas também professoras, daí que o problema da comunicação seja muito importante para nós na relação com os alunos. Mesmo nos textos para a comunidade científica devemos ter sempre essa preocupação. A época em que aquilo que se faz nas universidades não sai delas e o nosso interesse é que o novo na história seja também do conhecimento do leitor, pois só assim se atrai gente nova para o estudo da disciplina e se colabora na formação dos cidadãos."

Não será por acaso que Manuela Santos Silva inicia um dos seus textos com uma afirmação de Churchill; é antes uma forma de ligar a história mais recente ao passado real e de a tornar mais percetível ao cidadão: "Ele revela no Parlamento durante a II Guerra Mundial que tinha firmado um acordo com Portugal para utilizar o Aeroporto das Lajes e justifica que a autorização fora dada pelo rei D. Fernando e a rainha D. Leonor Teles no Tratado de Windsor em 1373. Foi a forma de não responsabilizar Salazar à época."

E há um desinteresse nacional pela nossa própria história? Ana Maria Rodrigues confirma: "Ainda estamos muito influenciados pela história do Estado Novo, pois os reis e rainhas de que mais se gosta ainda são os mesmos que se elogiavam na instrução primária há 50 anos."

Quanto à temática deste livro - os casamentos reais -, a historiadora valoriza a sua importância: "Estão no centro das relações internacionais e diplomáticas e eram fundamentais para cimentar as alianças."

Há outra perspetiva fundamental no livro, que é a intenção de desmistificar que em cada casamento só há o rei, bem como a própria visão masculina de interpretação do processo histórico. Se Ana Leal de Faria diz que o "olhar político não pode ser nem masculino nem feminino"; se Manuela Santos Silva considera que "ambos os cônjuges contribuem para a imagem da monarquia, nas suas funções e representação", Ana Maria Rodrigues faz questão de afirmar: "Há sempre um rei e uma rainha, mas o hábito de pensar os casamentos sempre do ponto de vista do masculino faz que pareça estranho a preocupação de se observar do ponto de vista da mulher."

Afinal, apesar de não ser esse o propósito do livro, dizem as historiadoras, é preciso um olhar diferente: "Até a um certo momento pensava-se que era só o rei que tinha o poder e interessava-se pelo casamento na medida em que permitia uma aliança com outro reino, mas a mulher que personificava essa aliança não era tema, enquanto hoje é muito mais considerada."

Informação útil:

Título: Casamentos da Família Real Portuguesa

Autoras: Ana Maria Rodrigues, Manuela Santos Silva e Ana Leal de Faria

Editora: Ed. Círculo dos Leitores

Preço: 18 euros

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