William Rankin, o homem que cavalgou 40 minutos o coração de uma trovoada

Quarenta minutos na fita cronológica de uma vida não é muito tempo. Quarenta minutos no âmago destrutivo de uma nuvem cumulonimbus é-o. Há 61 anos um piloto norte-americano tornou-se o único ser humano a sobreviver à travessia de uma destas nuvens de tempestade, desde os 14 mil metros de altitude. Uma experiência de quase morte que tornou William Rankin "o homem que montou o trovão".

Na tarde de 26 de julho de 1959 quando iniciou um voo de rotina, a partir da base naval de South Weymouth, no estado do Massachusetts (EUA), o tenente coronel William Rankin não imaginaria estar a escrever um episódio nos livros de história meteorológica. Os três anos de combate na Guerra da Coreia, entre 1950 e 1953, não prepararam este cidadão norte-americano, nascido em 1920, para os 40 minutos de provação nos céus do estado da Virgínia.

Há 61 anos, o aviador do corpo de fuzileiros navais, tornou-se o primeiro - e único - homem a sobreviver auma queda de 14 mil metros no âmago do soberano enfurecido do reino das nuvens, o Cumulonimbus e a sua singular forma de bigorna.

Empilhe-se duas vezes e meia os 8.848 metros do monte Evereste, para se alcançar a altura máxima de um cumulonimbus. Um imenso aglomerado de nuvens que, na base, chega a roçar o solo para, nas altitudes mais elevadas, tocar nos limites inferiores da estratosfera. Um monstro etéreo que, estima-se, possa pesar até um milhão de toneladas.

"Quando se depara com tempo extremo e destrutivo, pode ter como certo que um cumulonimbus estará em ação", refere Gavin Pretor-Pinney, no The Cloudspotter´s Guide (sem edição portuguesa). Foi com este morador arruaceirodo firmamento que William Rankin lutou no céu, próximo à cidade de Norfolk. "Uma molécula capturada nas correntes térmicas da engenharia natural", referiria mais tarde o oficial americano no livro de 1960 que narrou a experiência de quase morte: The Man Who Rode theThunder [O Homem que Montou o Trovão].

Remontemos a 1959: pouco passa das 18h00 quando Rankin informa a base sobre a formação belicosa de nuvens que se estende no horizonte. O cumulonimbusergue-se até aos 13 mil metros de altitude. O piloto eleva o seu F-8 Crusader aos 14 mil metros para sobrevoar o topo da nuvem. Aqui, o céu está limpo. Sob os seus pés, William tem o sistema complexo de tempestades que se desenvolveu com o calor da tarde.

William Rankin ficou conhecido como "O homem que montou o trovão"

No painel de instrumentos o oficial lê a temperatura no exterior da cabina. O ponteiro indica 50 ºC abaixo de zero. Rankin ainda não o sabe, mas em breve, suportará esta temperatura envergando o seu leve fato de voo de verão.

Segundos antes do ponteiro do relógio apontar às 18h00, o motor da aeronave colapsa. A Rankin só lhe resta um caminho: abandonar o avião, enfrentar a temperatura exterior extrema e mergulhar na massa de nuvens, um poço negro e violento.

O piloto da marinha ejeta-se. Carrega um paraquedas e uma máscara de oxigénio com autonomia para cinco minutos. O impacto é brutal. No coração da nuvem a visibilidade é zero.

William viaja como uma bala rumo ao núcleo da tempestade. Não despoleta o paraquedas. Teme que este lhe abrande a descida o que significa prolongar a sua provação no interior da nuvem. Em segundos, oabdómen de Rankin incha e duplica de tamanho, a pressão nas órbitas é tremenda, os olhos, o nariz, a boca, os ouvidos sangram, as extremidades dos membros gelam. O norte-americano sente os efeitos da grande altitude.

Súbito, o paraquedas abre. O piloto estima que levará dez minutos a alcançar o solo. Terá, contudo, de multiplicaresta estimativa por quatro.

"Fui sacudido violentamente, como se um gato monstruoso me mordesse o pescoço", relatou William no seu livro

No interior do cumulonimbus operam poderosas forças ascendentes e descendentes que carregam dezenas de milhões de pedras de granizo. Rankin entra no carrocel destas forças e é empurrado rumo ao topo da nuvem. O granizo fustiga o piloto e toneladas de água provocam-lhe um quase afogamento. William é um naufrago no céu, num breu quase absoluto. Assim continuará por mais 30 minutos.

"Fui sacudido violentamente, como se um gato monstruoso me mordesse o pescoço. Descobri que a tempestade tinha aliados com quem lutava fisicamente e mentalmente: trovões, raios, granizo e chuva. Pareceu-meuma eternidade", relataria William no seu livro.

Finalmente, a provação abranda. O piloto desce agora numa região apaziguada da nuvem. A chuva já não o afoga, antes cai-lhe sobre o corpo. Rankin sabe que está a alcançar o solo e prepara a abordagem ao mesmo. Cai num bosque a cerca de um quilómetro de uma estrada e acaba resgatado por um automobilista.

William Rankin permaneceria dois meses no hospital. Sofreu de hemorragias internas, fraturas múltiplas e os efeitos do frio extremo. Para a história ficaria conhecido como "O homem que montou o trovão".

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