"Viver com a covid-19 como foi com a Sida. Erradicação não será imediata"

Peter Plot, especialista em vírus e conselheiro da Comissão Europeia, foi infetado com covid-19 e diz que essa experiência permite um melhor combate à doença. "Como aconteceu com a Sida, é preciso envolver os afetados no combate", aponta, convicto que a vacina será um processo longo.

A covid-19 irá permanecer ativa durante um longo período e devemos estar preparados para essa realidade, sendo necessário, "como se tornou comum na luta contra a Sida, envolver os afetados na resposta a esta a nova doença", disse o microbiologista Peter Plot que é diretor da London School of Hygiene and Tropical Medicine, numa entrevista do jornal Le Monde.

O belga de 71 anos é médico e investigador especializado em microbiologia, tendo sido um cientista destacado na luta contra o HIV. Foi presidente da Sociedade Internacional de Sida de 1992 a 1994. Além disso, descobriu o vírus do Ebola em 1976.

O especialista, que é agora conselheiro de Ursula van Leyen, presidente da Comissão Europeia, na investigação sobre o novo coronavírus, foi um dos infetados com covid-19, depois de ter trabalhado anos a combater diversos vírus. Apontando que o novo coronavírus deixa consequências crónicas em muitos dos afetados, Peter Plot diz que a experiência da doença é importante: "Ironicamente, passei a maior parte da minha vida adulta a combater vírus. Agora, um vírus vingou-se! É diferente quando se experimenta pessoalmente, gosto de usar uma expressão holandesa - a pessoa fica um "especialista experiente". Por isso, defende que "como se tornou comum na luta contra a Sida, é necessário envolver os afetados na resposta a essa doença".

Plot aponta que a covid-19 "mostrou a importância da liderança e de um bom sistema de saúde pública. Com exceção de Singapura, Taiwan e Hong Kong, todos subestimaram a extensão e a velocidade com que o vírus poderia espalhar-se", realça, admitindo que "os países que implantaram imediatamente os sistemas de triagem tiveram menos mortes. A Alemanha mostrou o caminho".

O especialista reconhece que está a ser feito um trabalho "impressionante" a nível da descoberta de uma vacina mas não espera vê-la a ser utilizada rapidamente, Aponta quatro condições a ter em conta. A primeira impõe que "a vacina deve demonstrar que protege contra infeções ou, pelo menos, diminui os efeitos da doença e reduz o número de mortes". Para tal é preciso fazer "ensaios clínicos numa população onde a incidência de covid-19 é suficiente. Está diminuir a Europa. Talvez no Brasil".

Depois, uma vacina "não deve ter efeitos colaterais", já que numa "administração em larga escala, efeitos colaterais raros afetariam um número significativo de pessoas". A terceira condição implica a produção de biliões de doses da vacina covid-19, "uma capacidade de produção que não existe atualmente. Será preciso investir para adquirir e construir unidades de produção que atendam aos padrões, antes de saber se a vacina funcionará".

Por último "tudo deve ser feito para que todos aqueles que precisam da vacina tenham acesso". Plot cita Donald Trump como um mau exemplo mas admite que haverá necessidade de fazer escolhas: "Donald Trump diz que as vacinas produzidas nos Estados Unidos serão reservadas para os americanos. Isso deve ser evitado a todo custo. No entanto, serão necessárias escolhas quanto às prioridades. Isso dará origem a um debate muito difícil, se houver escassez de vacinas."

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