Uma pequena revolução nasce nas escolas em Portugal. É o novo projeto da família Soares dos Santos

O projeto Iniciativa Educação é a nova aposta da fundação da família Soares dos Santos, dirigida pelo ex-ministro da educação Nuno Crato, e um dos últimos desejos em vida de Alexandre Soares dos Santos, antigo líder do grupo Jerónimo Martins. Pretende não só apoiar jovens com dificuldade na aprendizagem da leitura, como impulsionar o ensino profissional em Portugal.

O que nos diz um longo raio-x ao país, de norte a sul? Entre outras coisas, que o abandono escolar tem diminuído ao longo dos anos, mas Portugal ainda alberga zonas problemáticas, e quase 20% dos alunos tem dificuldade na leitura - a base de toda a aprendizagem. Foi exatamente tendo em conta estas conclusões que a família Soares dos Santos, a título pessoal, decidiu financiar a criação de um projeto que não só apoiasse e potenciasse o início e o fim da linha educativa de crianças e jovens, mas também funcionasse como uma plataforma de informação para todos os interessados em educação. Chama-se Iniciativa Educação e é presidido pelo antigo ministro da educação Nuno Crato. Foi oficialmente apresentado esta terça-feira, numa cerimónia que decorreu na Nova School of Business and Economics, em Carcavelos.

"O que vos estamos a apresentar não é uma intenção de futuro", alertou o presidente do conselho diretivo. O programa já "está a ser feito no terreno" e contou com um investimento inicial de 20 milhões de euros.

Ensino profissional mais abrangente e qualificado

A iniciativa rege-se por três principais projetos. O primeiro chama-se "Ser Pro" e pretende ser um impulso tanto para o ensino profissional em Portugal como para o futuro de jovens na passagem do ensino básico para o secundário. "Queremos dar esperança a estes jovens", começou por explicar Nuno Crato, através da criação de mais cursos profissionais, adaptados ao mercado de trabalho. O presidente desta iniciativa conta que o projeto já está a ser implementado com uma "articulação forte entre as escolas, empresas e autarquias". Contabiliza exatamente oito escolas, 11 cursos, 24 câmaras e 27 empresas.

Mas "não é só um desenho inicial" que esta equipa pretende fazer. "Vamos fazer o acompanhamento permanente destes cursos", acrescentou a coordenadora deste programa, Isabel Hormigo. Quer a nível especializado, "com a ajuda de especialistas de educação" quer a nível técnico, de forma a "ajudar cada escola a garantir a qualidade". "E não dispensamos uma avaliação externa, para verificar se estamos no caminho certo", esclarece.

O ensino profissional continua a ser um 'calcanhar de Aquiles' da educação portuguesa. Apesar de 40,6% dos alunos do ensino secundário que procurarem seguir esta vertente (em 2005 eram apenas 12%), ainda está alicerçada a um conjunto de preconceitos. Existem desde que "foi inserido de forma abrupta" nas escolas secundárias, disse Joaquim Azevedo, investigador da Universidade Católica e membro do Conselho Nacional de Educação, em entrevista ao DN, em julho.

O investigador da Católica lembra que "antes do 25 de Abril, todo o ensino técnico e profissional era criado no pressuposto de ser para os alunos com piores resultados ou menos capacidade de aprendizagem e para os economicamente mais desfavorecidos [sem hipótese de enveredarem pela faculdade]". Mas, após o 25 de Abril, o ensino técnico-profissional desapareceu. Voltaria com a lei de bases dos anos de 1980, sob "uma grande preocupação em criar um ensino profissional de grande qualidade", de forma a ser uma alternativa para os alunos escolherem por vocação e não pelos seus resultados escolares. "Criaram-se campanhas incisivas nas escolas, no final dos anos 1980, com o objetivo de explicar às famílias e aos jovens o que estava em jogo. O ensino profissional nasceu aqui", lembra.

Já no início do milénio, quando se decidiu que o modelo de ensino profissional (que existia em escolas profissionais) também passaria a integrar as escolas secundárias, "tudo voltou a mudar". "Porque o que impera nas escolas é o modelo liceal, que chegou antes do 25 Abril. As escolas disseram 'OK, aqui está uma boa saída para os alunos com negativas no 9.º ano e menos capazes'. Voltou o preconceito e com muito mais força do que anteriormente já tínhamos assistido. As pessoas começaram a aconselhar 'fazes o 9.º ano, podes passar com umas negativas e depois vais para o ensino profissional'", conta Joaquim Azevedo. O preconceito renasceu na "forma abrupta e sem cuidado" com que se inseriu este modelo nas secundárias.

O presidente da Associação Nacional de Escolas Profissionais (Anespo), José Luís Presa, acrescenta que esta é uma questão cultural. Na Suécia, Noruega e Alemanha, por exemplo, "70% dos alunos do secundário estão em percursos qualificados, porque estar num curso geral não interessa a ninguém nem gera emprego", diz. "Aqui, algumas empresas com políticas de recursos humanos bem sustentadas naturalmente preferem os alunos com qualificação profissional, porque sabem bem o seu valor. Até porque o que a maior parte das empresas precisa é de quadros intermédios e não superiores."

A nível nacional, o objetivo é que de 40,6% se passe para 50% dos alunos do secundário em ofertas profissionalizantes.

Ajudar crianças com dificuldade de leitura

A Iniciativa Educação conta ainda com um projeto dedicado à importância da leitura, feito junto dos alunos de 1.º e 2.º ano de escolaridade que tenham dificuldade em aprender a ler. O presidente Nuno Crato explica porquê: "segundo a Unesco, é cada vez maior a percentagem de jovens com dificuldades de leitura e também são cada vez mais aqueles que apresentam fraca fluência aritmética. Trata-se de níveis básicos que não são atingidos nem por metade da população mundial - e nem a Europa, nem Portugal em particular, têm uma situação tão feliz como gostaríamos. São ainda 19% os jovens europeus com 15 anos que revelam dificuldades na leitura ao nível mais básico. Em Portugal, são 17,2%".

E "se não conseguirmos intervir neste momento (nos primeiros anos de escolaridades), temos muita dificuldade em fazê-lo posteriormente", disse João Lopes, o coordenador do programa "De A a Z - Ler Melhor, Saber Mais". "A leitura ajuda a aprendizagem de tudo o resto" e "depois de aprender a ler, lê-se para aprender tudo o resto", lembra o psicólogo.

Por isso, a equipa pediu a professores das escolas onde irão intervir (cinco agrupamentos, nos Açores, em Gondomar e no Alentejo) que identificassem as crianças que considerassem ter mais dificuldades na aprendizagem da leitura, com os quais vão trabalhar ao longo do ano para minimizar as suas barreiras pedagógicas. Estes alunos serão "avaliados de três em três semanas", bem como as suas turmas. "Podemos comparar o aluno consigo próprio, com a turma e com a norma", explica João Lopes.

O coordenador acrescenta que o projeto está desenhado sobre o pressuposto de que "aprender a ler não é natural" e "resulta de uma interação social".

Questionada sobre a possibilidade de a iniciativa ter nos horizontes outras escolas nas quais intervir, Inês Soares dos Santos Canas, filha do falecido empresário Alexandre Soares dos Santos e membro do conselho executivo da Iniciativa Educação, responde que "neste momento, a prioridade é consolidar os projetos para este ano" e, só depois, avaliar a integração de mais escolas no plano.

Além destes dois projetos, a iniciativa integra ainda um terceiro: um site, designado Ed On, que reúne informação científica sobre ensino e educação - dados e estudos -, "para pais, professores, estudantes e todos os interessados em educação", esclarece o presidente Nuno Crato. Trata-se de "informação rigorosa e científica" e "dados úteis para quem quer pensar na educação de forma moderna".

Está lançado o desafio. E o presidente não tem dúvidas de que pode ser o início de uma pequena revolução. "Às vezes basta um rastilho...", disse Nuno Crato, sobre uma iniciativa que, afinal, foi um dos últimos desejos em vida de Alexandre Soares dos Santos, antigo líder do grupo Jerónimo Martins.

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