"É preciso agir agora!" Temperatura média do planeta pode subir 3,2º C, alerta ONU

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"É preciso agir agora!" Temperatura média do planeta pode subir 3,2º C, alerta ONU

As atuais metas para reduzir as emissões de gases, mesmo cumpridas à risca, serão insuficientes para travar o aumento da temperatura média do planeta. Em 2020, os níveis serão revistos e os valores terão de ser, no mínimo, cinco vezes mais exigentes.

A temperatura do planeta pode subir 3,2 graus centígrados neste século se as metas das emissões globais de gases não se tornarem mais ambiciosas. Mesmo cumprindo a promessa do Acordo de Paris (2015), assinado por mais de 190 países, o objetivo de atingir 1,5º C ficaria aquém. A conclusão está expressa no Relatório sobre a Lacuna de Emissões de 2019, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), divulgado nesta terça-feira, a uma semana da 25.ª Cimeira do Clima, em Madrid.

É preciso reduzir mais de cinco vezes a quantidade de emissões lançadas na atmosfera, sob pena de as ondas de calor e de as tempestades atingirem a Terra de forma irreversível. O conhecimento e a tecnologia para fazer face às alterações climáticas já existem e ainda há tempo, desde que se comece a trabalhar agora, defende o documento, mas é preciso calendarizar a mudança rapidamente e de forma concertada entre todas as nações. Este é o principal desafio lançado aos decisores políticos que, de 2 a 13 de dezembro, se reúnem em Madrid para começar as negociações com vista à revisão das metas do Acordo de Paris, que têm de estar concluídas na cimeira do clima de 2020, na cidade inglesa de Glasgow. É a última oportunidade para intensificar os compromissos climáticos e limitar o aumento da temperatura.

"Precisamos de vitórias rápidas para reduzir as emissões ao máximo possível em 2020, além de contribuições nacionalmente determinadas mais fortes para iniciar as principais transformações em economias e sociedades. Precisamos de compensar os anos em que procrastinámos", defende, em comunicado, Inger Andersen, a diretora executiva do PNUMA. "Se não fizermos isso, a meta de 1,5° C estará fora de alcance antes de 2030. Isto mostra que os países simplesmente não podem esperar até o final de 2020, quando precisaremos de novos compromissos climáticos, para intensificar as suas ações. Países e todas as cidades, regiões, empresas e indivíduos precisam de agir agora", sentencia.

Todos os anos, o relatório do PNUMA avalia a diferença entre as emissões previstas para 2030 e os limites traçados de 1,5º C e de 2º C para a temperatura do planeta no Acordo de Paris.

Neutralidade carbónica até 2050

"Estamos como que numa linha vertical a atingir níveis como nunca aconteceu nos últimos 800 mil anos", diz, ao DN, Francisco Ferreira, presidente da associação ambientalista Zero. "E a origem do dióxido de carbono está principalmente nas atividades humanas. O ponto de situação é mau, é revelador de não estarmos com a urgência necessária para o cumprimento do Acordo de Paris. À escala global, continuamos a aumentar emissões. Não estamos a inverter a tendência, pelo contrário, estamos a agravar. Em Portugal, no pós-crise, principalmente com a situação de seca de 2013, temos vindo a aumentar as emissões. Devemos começar a melhorar em 2019, porque estamos a usar muito menos carvão, mas os resultados não são bons."

O objetivo não é diminuir, é acabar com o uso de carbono e substituir por energias renováveis; uma mudança de paradigma nos setores de energia, construção e transportes. De acordo com o relatório, a utilização de fontes renováveis pode, até 2050, reduzir as emissões de dióxido de carbono em 78% na energia, 83% na construção e 72% nos transportes. Redução que os investigadores do PNUMA acreditam ser possível fazer.

Há espaço para uma nota de esperança, com os autores a defender que ainda dá para delinear novas metas e cumpri-las, numa época em que há mais "pressão do que nunca" para agir a pensar no ambiente. "Existe uma maior compreensão dos múltiplos benefícios da ação climática, como a purificação do ar e o impulso dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, além de muitos exemplos de esforços ambiciosos de governos, empresas e investidores a níveis nacionais e subnacionais", escrevem.

A Comissão Europeia propõe neutralidade carbónica até 2050, "uma meta ambiciosa", segundo Francisco Ferreira, que deve pressupor níveis de redução maiores se a União Europeia quiser cumprir os objetivos a tempo. A proposta em cima da mesa prevê uma redução de 40% nas emissões europeias até 2030, quando as associações ambientalistas defendem 65%.

Menos 7,6% das emissões por ano para atingir a meta

Em 2018, foram produzidas 55,7 gigatoneladas de dióxido de carbono no mundo. Para viabilizar o Acordo de Paris, seria preciso que a taxa de emissões começasse "imediatamente" a decrescer 7,6% por ano, entre 2020 e 2030, quando na última década esta taxa tem estado a subir 1,5% ao ano.

Os 20 países mais ricos do mundo (G20) juntos são responsáveis por três quartos de todas as emissões produzidas (78%). Sete destas nações não têm sequer políticas para atingir as metas ecológicas atuais, nem outros planos estratégicos de combate às alterações climáticas. E 15 países não se comprometem com uma calendarização para a neutralidade carbónica, quando são estes que devem apresentar maior redução nas emissões.

"Como os países em desenvolvimento ainda têm o direito de aumentar as suas emissões no âmbito do Acordo de Paris, os países desenvolvidos terão de reduzir as suas emissões mais rapidamente. No entanto, é recomendável que os países em desenvolvimento também procurem fortalecer os seus compromissos", é aconselhado no documento da ONU.

Novo recorde na concentração de gases de efeito estufa

Em vésperas da cimeira, os alertas multiplicam-se, como é já habitual, e nesta segunda-feira a Organização Meteorológica Mundial (OMM) publicou também o seu relatório anual. O estudo revela que os gases responsáveis pelo efeito estufa e pelas alterações climáticas atingiram em 2018 concentrações recorde.

A concentração média de dióxido de carbono atingiu 407,8 partes por milhão em 2018, mais 0,56% do que em 2017 e mais 146% em relação à época pré-industrial (1750). A agência das Nações Unidas avançou ainda que o metano - outro dos gases que provocam efeito estufa - atingiu uma concentração na atmosfera de 1,86 partes por milhão, também um máximo histórico que chega a 259% dos níveis da era pré-industrial.

"As gerações futuras terão de enfrentar consequências cada vez mais graves das alterações climáticas", mencionou o secretário-geral da OMM, Petteri Taalas. Resta saber o que os decisores políticos, reunidos na 25.ª Cimeira do Clima, estão dispostos a fazer para contornar estes números.

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