Sabe quantos professores do 1º ciclo têm menos de 30 anos? Dezasseis

Em 107 mil professores nas escolas públicas, apenas 424 têm menos de 30 anos, o que não chega sequer a 1% do total​​​​​. No país todo, há apenas 16 professores sub-30 nas cerca de 3700 escolas públicas do 1º ciclo

"Muito preocupante para planeamento futuro é o facto de apenas 1% dos professores portugueses do 1º ciclo ao secundário terem menos de 30 anos". O alerta foi feito esta quinta-feira pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), que recorre a dados de 2015/16 para ilustrar o envelhecimento da classe docente em Portugal. Estatísticas atualizadas já este outono, no Perfil do Docente 2016/17, mas que mostram a mesma realidade: em 107 mil professores nas escolas públicas, apenas 424 têm menos de 30 anos, o que não chega sequer a 1% do total (0,4%). Absolutamente ilustrativo deste fenómeno é o facto de o país ter apenas 16 professores sub-30 nas cerca de 3700 escolas públicas do 1º ciclo, ainda menos do que os já ultra residuais 21 do ano letivo anterior.

Mas não se pense que o problema se coloca apenas nos anos iniciais da carreira, porque a percentagem de professores com menos de 40 anos também era muito baixa no ano passado, 15% do total. Ainda menos do que os 18% em 2015/16, publicados pela OCDE no seu relatório Reviews of School Resources, onde aponta várias causas para este problema: o próprio envelhecimento da população, o aumento da idade de reforma, pouco interesse de gerações mais novas em entrar na profissão, critérios de colocação nas escolas que favorecem os professores que já estão no sistema.

"É uma tempestade perfeita", resume César Israel Paulo, porta-voz da Associação Nacional dos Professores Contratados. "Há um vazio de formação, temos menos pessoas interessadas em entrar na carreira, muitos professores a abandonar as escolas para se dedicarem a outros setores - todos os dias recebemos pedidos de agências imobiliárias -, muitos professores em idades mais avançadas, e até os contratados já estão, na sua maioria, na casa dos 40 anos".

"Há um vazio de formação, muitos professores a abandonar as escolas para se dedicarem a outros setores, muitos professores em idades mais avançadas, e até os contratados já estão, na sua maioria, na casa dos 40 anos"

Para se ter a noção mais exata do inverno demográfico nesta área, a média de idades dos professores do 1º ciclo público é de 47 anos, que passa para os 50 no 2º ciclo. No 3º ciclo e secundário públicos, a média é sensivelmente a mesma, 49 anos, enquanto no privado, em especial o chamado "privado independente", as idades são consideravelmente mais baixas em todos os ciclos (ver gráficos). Só no 1º ciclo, há perto de 300 professores com menos de 30 anos no ensino particular, que contrastam com os 16 abaixo dos 30 anos - que serão professores a contrato e não dos quadros - em mais de 24 mil profissionais que estão colocados nas antigas primárias públicas.

"Principalmente no 1º ciclo, a décalage entre as idades dos alunos e as dos professores é abissal", ilustra Manuel António Pereira, presidente da Associação Nacional de Diretores Escolares e diretor do Agrupamento de Escolas de Cinfães.

"Tomemos o exemplo do meu agrupamento, e até há outros com médias de idades mais altas. Os professores do 1º ciclo têm, em média, 50 anos, ou seja, as crianças estão a trabalhar com pessoas que têm idades para serem avós delas. É óbvio que isto cria problemas de desadequação pedagógica ". Mas que problemas trazem, na prática, essas diferenças geracionais? "No pré-escolar, por exemplo, temos pessoas com mais de 50 anos que têm de andar de gatas a brincar com crianças. Depois, no 1º ciclo, são professores que já estão cansados, mesmo fisicamente, com alguma carga de desmotivação que isso traz. E mesmo para os alunos, tendem a olhar para os professores quase como avós, o que instintivamente leva a maior indisciplina, os professores são mais desautorizados", responde Manuel António Pereira.

Infografia DN

Incentivos mais cedo na carreira

Outros dos desafios colocado pelo envelhecimento da classe, avisa a OCDE, é o do absentismo. Professores mais velhos tendem a faltar mais por doença e a recorrer mais a baixas prolongadas, fenómeno que aumentou desde 2014 e que tem grande impacto "financeiro, logístico e educacional" por obrigar a recorrer a muitos professores substitutos.

Entre as medidas que podem levar à renovação do sistema de ensino do Estado, a organização defende a flexibilização das regras de reformas antecipadas, para que os professores se aposentem sem penalizações, e antecipar os maiores incentivos salariais na carreira para mais cedo, tornando mais pequenos os aumentos nos escalões de topo, de forma a cativar mais profissionais para o setor. "Os progressos salariais dos professores em Portugal são baseados quase exclusivamente nos anos de serviço, com maiores retornos salariais no fim da carreira. Este padrão vai contra a evidência que mostra que as escolas podem melhorar o recrutamento de professores e as taxas de retenção, assim como os níveis de aprendizagem, reestruturando as tabelas salariais para recompensar os anos de experiência a níveis elevados mais cedo na carreira, em vez de o fazer mais tarde".

Em resposta ao relatório da OCDE, o Ministério da Educação lembrou que o envelhecimento dos professores foi agravado por um período de vários anos em que a contratação atingiu mínimos históricos e as carreiras dos profissionais da educação estiveram congeladas. O gabinete de Tiago Brandão Rodrigues argumentou ainda, em comunicado, que "abriu recentemente um novo ciclo de recrutamento e progressão que se deverá acentuar nos próximos anos, nomeadamente, tendo em conta a aposentação de uma parte considerável do corpo docente e o restabelecimento das condições de progressão na carreira".

Recorde-se que ainda há três meses, em setembro, o Education at a Glance, também da OCDE, indicava que "Portugal tem uma força de trabalho docente envelhecida, com salários relativamente altos e horas dedicadas ao ensino comparativamente curtas". Conclusão que gerou revolta nos sindicatos dos professores, que acusaram a organização de apresentar um relatório com dados errados sobre os salários e as horas de trabalho, exigindo a sua correção.

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