Portugal "tem de preparar-se para o pior" e deve ter um plano em marcha

É muito provável que o surto chegue ao país e um plano de contingência para uma transmissão em cadeia devia ser já conhecido, aponta o presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, Ricardo Mexia.

O presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública considera que Portugal já devia estar numa fase mais avançada no combate ao Covid-19. "Convém preparar para o pior. É uma questão de tempo, é muito possível que Portugal venha a ter casos", aponta Ricardo Mexia, defendendo, por isso, que o plano de contingência para uma eventual situação de transmissão em cadeia já devia ser conhecido.

O facto de Portugal ainda não ter nenhum doente infetado "é uma questão circunstancial", diz o médico. "Não houve quem estivesse em contacto com infetados noutros países. Na maioria dos países os casos são importados, é circunstancial". Na Europa já são muitos os países com casos: Itália, França, Espanha, Alemanha, Reino Unido, Áustria, Suíça, Croácia, Finlândia, Suécia.

Ricardo Mexia diz que o país devia "implementar o que está preconizado", isto é definir o plano de contingência para um eventual surto. "Era importante estarmos preparados para um cenário mais difícil, já que a situação, como se tem visto, evolui muito rapidamente. O plano de contingência devia ser conhecido. É importante ficar a conhecer-se o que é suposto acontecer se houver uma cadeia de transmissão da doença", afirmou ao DN.

O ministro dos Negócios Estrangeiros Augusto Santos Silva disse esta quarta-feira que Portugal está preparado, "com um plano de contingência pronto a ser ativado". Marta Temido, ministra da Saúde, recordou também que existem planos de contingência na área da saúde e da hotelaria com protocolos já escritos para que não haja dúvidas de como agir em caso de suspeita de infeção pelo novo coronavírus". Com a situação de Itália, o país reforçou medidas de prevenção, com mais hospitais e laboratórios disponíveis para testar e receber casos suspeitos de infeção.

Clique na imagem para ver o mapa interativo com a progressão da doença

"Neste momento há orientações técnicas"

O especialista em saúde pública está mais preocupado com a capacidade de resposta e coordenação dos serviços médicos neste contexto específico do Covid-19. "Neste momento há orientações técnicas através da Direção-Geral de Saúde. A resposta deve estar estruturada. É possível traçar cenários e dotar os diversos níveis com os recursos necessários sobre o que fazer em cada fase", disse Ricardo Mexia, exemplificando com a gestão de recursos humanos, equipamentos, entre outros, que terá de ser feita se o plano tiver que ser ativado.

O caso de Itália é mesmo um aviso. Praticamente de um dia para o outro, o norte do país transformou-se no pior foco de contágio a nível europeu, com 12 mortes agora confirmadas e mais de 300 pessoas infetadas. "Não vale a pena complicar. Este surto tem um conjunto de imponderáveis. A cada dia há mais infetados, a cada momento a situação vai mudando. Sobre Itália, ninguém faria a previsão de que estaria na situação atual", diz o presidente da ANMSP.

Outro problema com o Covid-19 é a desinformação. Ricardo Mexia lembra que a Organização Mundial de Saúde (OMS) classificou como "infodemia" por haver muita informação deficiente a circular. "Há alguma desinformação e devia haver mensagem mais clara. Quem vem de Itália, e não tem sintomas, fica na dúvida. Mas se não esteve nas regiões afetadas, não esteve em contacto com alguém infetado e não tem sintomas, não deve ir a uma unidade de saúde. Os hospitais ou centros de saúde não devem ser o recurso de quem precisa de apoio. Deve usar-se a linha telefónica Saúde24, onde se receberá o aconselhamento e indicações do que fazer."

Sem alarmismo, o médico de saúde pública conclui que "entrar em pânico não resolve nada mas convém não escamotear a realidade. Este surto causa preocupação."

O Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças, organismo da UE, lançou já um manual sobre os procedimentos a adotar pelos hospitais que recebam doentes infetados. Na segunda-feira, o centro já tinha alertado que o número de casos iria subir. "Como a situação está a evoluir rapidamente, são esperados mais casos em Itália e possivelmente na União Europeia nos próximos dias", disse, em comunicado.

A forma de tratamento de casos suspeitos também mereceu uma nova recomendação. Segundo o centro europeu, "inclui pacientes com infeção respiratória aguda (leve ou grave) que nos 14 dias anteriores ao início dos sintomas atenderam a pelo menos um dos seguintes critérios: contacto próximo com um caso confirmado ou provável de infeção por Covid-19
ou ter permanecido em áreas com a suposta transmissão comunitária".

A Direção-geral de Saúde tem online um vídeo explicativo sobre como se propaga o coronavírus e quais são as medidas de proteção a tomar.

OMS combate desinformação

No que respeita à desinformação, Bruce Aylward, chefe da missão da OMS na China e que regressou recentemente de Wuhan, desfez alguns mitos sobre o surto. O especialista desvalorizou os relatos de que um grande número de portadores de Covid-19 com sintomas leves poderá estar a transmitir o vírus sem saber que estão infetados.

"Não há transmissão em grande número além da que pode ser detetada clinicamente", disse Aylward, em Genebra. "Todos os dados que temos indicam que isso não é de grande dimensão."

Igualmente questionado sobre as teorias de que o verdadeiro número de mortos na China está na ordem dos milhões, o responsável da OMS disse: "Não fui a todos os lugares, todos os cantos da China, mas temos o bom senso de ver como é esta epidemia, como está a acontecer e os números oficiais refletem isso." Na China já morreram mais de 2650 pessoas, a maioria do total de 2708 óbitos a nível global.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG