Pandemia levou a aumentos históricos da venda de canábis nos EUA

Os dispensários de canábis medicinal foram considerados negócios essenciais nos Estados Unidos enquanto vigoram as ordens de permanência em casa

As vendas de canábis registaram aumentos históricos nos Estados Unidos desde o início das restrições ligadas à covid-19, o que elevou o produto para um "estatuto convencional", disse à Lusa Paul Armentano, diretor da organização NORML.

"Na verdade, a pandemia elevou a um estatuto convencional a canábis, especialmente a canábis medicinal", afirmou o responsável, que dirige a Organização Nacional para a Reforma das Leis da Marijuana (NORML).

Armentano apontou para o facto de os dispensários de canábis terem sido considerados nos Estados Unidos negócios essenciais enquanto vigoram as ordens de permanência em casa como demonstrativo de que a erva "não é uma opção terapêutica alternativa e marginal" mas sim "um medicamento essencial".

No entanto, o diretor executivo da NORML, Erik Altieri, sugeriu formatos alternativos ao fumo, como comestíveis, devido aos efeitos nefastos que pode ter para os pulmões.

"Porque a covid-19 é uma doença respiratória, poderão querer limitar ou evitar a exposição ao fumo combustivo, já que isto pode colocar os pulmões sob stress e pressão indevidas", escreveu numa mensagem aos consumidores.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) já tinha alertado que os fumadores, em geral, poderão ser mais vulneráveis à covid-19.

A data de hoje, 20 de abril (4/20 no formato norte-americano), é considerada "dia da marijuana" e celebrada por todo o mundo. Este ano, a NORML pediu aos consumidores que "não se juntem em grupos nem fora nem dentro de portas", encorajando-os a participarem em celebrações virtuais.

Com o início das restrições ligadas à pandemia da covid-19, houve uma subida exponencial da procura que gerou filas longas à porta dos dispensários, desde a Califórnia ao Colorado, e no Nevada, onde o governo estadual ordenou que os dispensários mudassem para um regime online, o maior distribuidor de canábis, a Blackbird Go, registou um aumento de 400% nas encomendas em março.

Mais de um mês depois, a procura mantém-se. É o que explica à Lusa Kimberly Cargile, responsável do dispensário A Therapeutic Alternative em Sacramento, Califórnia.

"Na primeira semana tivemos uma corrida à loja e filas longas. Conseguimos os melhores dias de vendas de sempre", afirmou a responsável, que está na indústria da canábis há vinte anos.

"Esperávamos que a procura caísse a seguir e reduzimos as horas de funcionamento, mas não diminuiu", adiantou.

O mesmo fenómeno foi sentido no dispensário Project Cannabis NoHo, em North Hollywood, onde as vendas online e as entregas à porta estão em franco crescimento e as chegadas de clientes continua, com um limite de três dentro da loja de cada vez.

"Na primeira semana tivemos uma corrida à loja e filas longas. Conseguimos os melhores dias de vendas de sempre"

No dispensário Universal Collective, em Studio City, LA, o que está a crescer são também as vendas online e entregas à porta, visto que o tráfego físico de clientes foi afetado pelo encerramento dos estúdios da Universal, ali ao lado.

"Temos clientes, e até eu própria, que agora estão a usar canábis diariamente para reduzirem a sua ansiedade e o seu stress e tentarem ficar calmos durante tudo isto", explicou Kimberly Cargile.

Segundo a gestora da Universal Collective, as vendas do produto em formatos comestíveis subiram bastante e estão em alta "produtos que permanecem no organismo e com elevado nível de CBD", isto é, canabidiol, componente da planta a que são atribuídas várias propriedades terapêuticas e não tem os efeitos psicotrópicos do tetraidrocanabinol (THC).

A procura por comestíveis e formatos que não se fumam, como pomadas e gotas, explica-se porque "as pessoas não estão a socializar, o aspeto recreativo está muito diminuto", afirmou Cargile, referindo que "as pessoas estão a usar canábis neste momento para aliviarem o stress".

O diretor da Organização Nacional para a Reforma das Leis da Marijuana disse que, por enquanto, ainda não tomou conhecimento de interrupções na cadeia de fornecimento, "embora se pudesse esperar que houvesse problemas dado o aumento da procura e o impacto da covid-19 na força laboral".

No dispensário A Therapeutic Alternative, alguns funcionários deixaram de trabalhar por receio de infeção e a empresa está a pagar um prémio de risco de 20% aos 30 empregados que estão a trabalhar. As medidas de prevenção incluem um limite de clientes dentro da loja e uso de máscara e luvas por todos.

Cargile está também a permitir encomendas por mensagem ou telefone e entregas ao lado do dispensário, em especial para os clientes mais idosos que usam canábis medicinal e não estão habituados a comprar online.

Uma nova pesquisa da New Frontier Data, que se especializa nesta indústria, mostra que 80% dos empresários da canábis inquiridos preveem manter ou aumentar os seus investimentos nos próximos tempos e 58% acreditam que o setor sofrerá menor impacto que outros na crise económica.

A pandemia de covid-19 já infetou mais de 760 mil pessoas e provocou mais de 40 mil mortos nos Estados Unidos.

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