COVID-19

O testemunho de uma enfermeira. Existe distância em tempos de pandemia?

O que sente um profissional de saúde que está em teletrabalho. Sente-se ausente? Não. Sente-se presente, são os "seus" que lá estão? A experiência de Ana Marinho Diniz.

Ana Marinho Diniz tem 43 anos. Há 23 que é enfermeira, sempre sentiu paixão pelo cuidar dos outros, mas também pela Educação. Tanto que depois da enfermagem decidiu fazer uma licenciatura em Ciências da Educação. Depois, decidiu que tinha de experienciar uma especialidade, estudou a de cirurgia. Mas quis mais, e tirou o Mestrado em Enfermagem. Depois de tudo isto decidiu que o que queria era mesmo trabalhar nas áreas da qualidade e segurança do doente, o que faz há 10 anos no Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central. A par de tudo isto ainda é mãe de um casal de gémeos de 13 anos. Aqui fica o seu testemunho.

"De repente o mundo mudou. A Humanidade foi assolada pelo medo, pela doença, pela morte. Tememos por cada um de nós, pelos nossos - os que conhecemos e amamos, mas também por todos os outros que não conhecemos e nem sequer sabíamos ser capazes de amar sem conhecer. Tememos pela vida de todos.

Alguns tentaram mascarar os seus profundos receios, com análises estatísticas concretas e objetivas, arredondando a realidade com a distância dos números.

Muitos politizaram a situação, interpretando-a através de teorias da conspiração, de aproveitamento económico de uns em detrimentos de todos os outros. Tantos aproveitaram para ter os seus minutos de protagonismo, fazendo dissertações baseadas em tudo e em quase nada..

Mas a situação era real. Tal como eu, ninguém sabia o que estava realmente a acontecer, nem como se iria desenrolar. Tal como eu, ninguém estava preparado para o que estávamos a viver..

Reagimos de forma instintiva e primitiva, tentando proteger-nos. Cada um fez o que pôde e o que conseguiu. A luta pela sobrevivência começou! Foi assim que o sentimos. Foi assim como eu o senti...

Alguns guerreiros por instinto avançaram para a frente de combate sem hesitação, pois a necessidade de controlar o que estava totalmente descontrolado, foi mais forte! Prepararam-se para lutar diretamente com este
inimigo invisível. Outros definiram a melhor estratégia de defesa e até de ataque, preparando o terreno, reparando as suas tropas.

Muitos avançaram porque foram forçados, temerosos, mas resignados à sua má sorte. Outros tentaram
tudo para se manterem nas trincheiras, agarrados aos fios de cabelo que encontravam para fugir do chamamento que não parava.

Mas até nas guerras há os sortudos. Os que são poupados às balas e aos ataques ferozes do inimigo. Nesta guerra os sortudos foram todos aqueles cuja atividade poderia continuar a ser realizada à distância. Distantes do medo, distantes da doença, distantes da morte.

Eu fui uma das sortudas. Mas também não foi assim que o senti. Nesta guerra não é possível estar distante. Nesta luta estamos todos juntos. Cada um tentando fazer por si e pelos outros o que podia. É impossível ficar longe
quando tudo está tão perto. Os que estão lá fora são nossos colegas, são nossos amigos, são a nossa família há anos. Como ajudar? O que fazer? Como os proteger? Como cuidar deles e das suas famílias?

A distância é relativa. E em tempos de pandemia a distância não existe! Vivemos e sentimos diferente, mas não de forma distante.

Também aqui cada um fez o que pôde. Manter a ligação era o mais importante. Não podia deixar que se sentissem sós e desamparados. Tinha que os procurar, que os ouvir, que os deixar desabafar os seus medos, as suas angústias, as revoltas, zangas e preocupações..

Preocupações essas com as condições de trabalho, mas também com as suas famílias, principalmente com os seus filhos e com os seus pais.. Ouvi de alguns orientações claras sobre o que fazer caso morressem, pois são coisas que não se podem dizer à família que está em pânico e que se quer tranquilizar, mas que se podem dizer a quem está fora, mas por dentro do que se passa..

Tentámos saber o que precisavam. Informação! Precisavam de estar informados para estarem melhor preparados! E começou a azáfama de recolher material, organizá-lo e torná-lo acessível. "Informados estão melhor preparados". E era mesmo verdade. Saber é poder! Deu confiança, deu mais segurança.

Trabalhar em casa, dia após dia, não é fácil. Durante um dia, assumimos todos os papeis da nossa vida dentro de quatro paredes. O papel de profissional que se tenta adaptar sozinho a uma realidade que muda ao minuto, tentando dar resposta às exigências e até desconfianças dos colegas que ficam de fora, que
questionam o empenho e resposta de quem fica cá dentro...

O papel de pai ou de mãe, tentando acalmar as emoções e inquietações dos filhos, respondendo
simultaneamente às necessidades educativas que também em nós assentaram; o papel de marido ou mulher de quem teme também pelo nosso futuro incerto e que nos acompanha nas angústias com os que deixámos lá fora; o papel de filho que tenta proteger a vida dos seus pais; o papel de amigo, dos novos e dos
antigos, que nos procuram como âncoras, fortalecendo laços que se encontravam até desvanecidos pelo tempo e pela vida.


A distância é relativa. E em tempos de pandemia a distância não existe!
Vivemos e sentimos diferente, mas não de forma distante."

(*) Enfermeira Especialista do Gabinete de Segurança do Doente - Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central (CHULC)

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