Mesmo com vacina, a vida "não vai voltar ao normal na primavera"

Grupo de investigadores avisa que é preciso encarar o processo de descoberta de uma vacina com "expectativas realistas". "Não é uma questão de a vida voltar ao normal já em março", advertem.

Mesmo o aparecimento de uma vacina eficaz contra o coronavírus não permitirá o regresso à "normalidade" na primavera, alerta um grupo de investigadores.

Vista como o Santo Graal que permitirá acabar de vez com a pandemia de covid-19, a ideia de uma vacina eficaz tem de ser encarada com "expectativas realistas", alerta um grupo de investigadores.

Num relatório publicado, o grupo de especialistas reunidos pela Royal Society de Londres, a mais antiga academia destinada à promoção do conhecimento científico (fundada em 1660), avisa que temos de ser cautelosos sobre o que uma vacina poderá realmente alcançar e quando.

"Uma vacina oferece uma grande esperança de acabar com a pandemia, mas sabemos que a história do desenvolvimento das vacinas está repleta de muitos fracassos", disse Fiona Culley, do National Heart and Lung Institute, do Imperial College London, que integra este painel de especialistas reunidos num grupo denominado Iniciativa DELVE - e do qual faz parte o português Vasco Carvalho, professor de macroeconomia na Universidade de Cambridge.

Para estes investigadores, as restrições em curso nos diversos países podem precisar de ser "levantadas gradualmente", uma vez que pode levar até um ano para ser lançada a vacina em larga escala.

O relatório da Royal Society agora divulgado adverte que esse será um longo processo. "Mesmo quando a vacina estiver disponível, não significa que no intervalo de um mês todos serão vacinados. Estamos a falar de um período de pelo menos seis a nove meses... Talvez um ano", disse Nilay Shah, chefe de engenharia química do Imperial College London, citado pela BBC.

"Não é uma questão de a vida voltar ao normal de repente em março", sublinhou.

O relatório divulgado por este grupo de especialistas frisa os "desafios enormes" que ainda há pela frente para ultrapassar esta pandemia.

Por exemplo, o facto de algumas das abordagens experimentais adotadas - como vacinas de RNA [ácido ribonucleico] - nunca terem sido produzidas em massa antes.

Ou dúvidas sobre a quantidade e qualidade de matérias-primas disponíveis - tanto para a vacina quanto para os seus recipientes -, a capacidade de refrigeração, com algumas vacinas a terem de ser armazenadas a 80 ºC negativos, a administração de uma ou mais doses, a duração da imunidade conferida pela vacina, entre várias outras questões.

"Simplesmente não sabemos quando uma vacina eficaz estará disponível, quão eficaz ela será e, claro, crucialmente, com que rapidez pode ser distribuída", refere o professor Charles Bangham, diretor de imunologia do Imperial College London.

"Claramente, a vacina foi retratada como sendo uma bala de prata e, em última análise, será ela a nossa salvação, mas este pode não ser um processo imediato", resume Andrew Preston, da Universidade de Bath, citado pela BBC.

Mais de 200 vacinas para prevenção da covid-19 estão a ser desenvolvidas atualmente todo o mundo.

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