Investigadores do Porto desvendam rotas dos cetáceos no Atlântico Nordeste

Pelo menos 26 espécies de golfinhos, baleias e cachalotes frequentam a região atlântica entre o continente e as ilhas, e confirma-se que também há golfinhos na costa a Norte do continente. São novidades do projeto CETUS

No verão não é invulgar avistá-los a sul, no Algarve - por vezes veem-se da praia, para grande alegria dos banhistas. Já no estuário do Sado, uma conhecida população de golfinhos residentes tornou-se imagem de marca da região, enquanto os Açores e a Madeira, na rota de inúmeras espécies de cetáceos, golfinhos e baleias incluídos, são pontos privilegiados no meio do Atlântico para a sua observação. Também andarão golfinhos pela costa Norte do país?

Até há pouco não havia nenhuma certeza, porque quase não existiam dados sobre isso, mas o projeto CETUS, que há sete anos faz campanhas de observação sistemáticas na região atlântica da Macaronésia - inclui Açores, Madeira, Canárias, Cabo Verde e costa peninsular, e mais toda a vastidão do Atlântico entre eles -, já tem a resposta. E ela é sim. Confirma-se: os golfinhos também frequentam o litoral português do continente mais a norte.

Esta não é, no entanto, a única novidade do projeto CETUS, liderado pelo Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR) e pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. Sete anos depois, há muito mais para contar, e mostrar.

Hoje sabe-se que são pelo menos 26 as espécies diferentes de baleias e golfinhos que frequentam esta vasta região oceânica e também já se percebeu que as suas populações se concentram sobretudo nas zonas onde existem montes submarinos. Sabe-se agora também que a foz do Douro recebe igualmente visitas regulares de golfinhos.

Um deles, que os investigadores do CETUS, coordenado por Isabel Sousa Pinto, bióloga e líder do grupo para a Biodiversidade Costeira do CIIMAR, chamam carinhosamente "Gaspar", é um invulgar boto (golfinho), da espécie Phocoena phocoena, de cor branca. "Gaspar" foi avistado pela primeira vez em 2017 pela equipa, que acredita que ele é o primeiro boto-branco de que há registo no litoral ibérico.

A informação recolhida nestes sete anos já foi reunida numa base de dados que a equipa do CETUS publicou já este este ano on line, onde está acessível à comunidade científica e ao público.

Desbravar "terra incógnita"

Foi em 2012 que tudo começou, com uma colaboração entre Isabel Sousa Pinto e o investigador italiano Massimiliano Rosso, da CIMA Research Foundation, um especialista em cetáceos, que há anos já estudava as espécies do Mediterrâneo e que propôs à investigadora do CIIMAR aplicar as mesmas metodologias de observação na região da Macaronésia e Atlântico Nordeste.

Para além dos estudos costeiros e junto às ilhas, ou de alguns avistamentos oceânicos fortuitos, aquela região oceânica era um vasto território desconhecido em relação aos cetáceos.

"Criámos o projeto, estabelecemos um protocolo com a empresa portuguesa de transportes marítimos Transinsular, e passámos a fazer campanhas anuais de observação em três das suas rotas comerciais, do Continente para a Madeira logo a partir de 2012, também para os Açores desde 2014, e para as Canárias, Mauritânia e Cabo Verde entre 2015 e 2017 ", conta Isabel Sousa Pinto.

Sem um financiamento específico ou possibilidade de contratar investigadores, o CETUS recorreu a observadores voluntários.

"Anualmente abrimos uma candidatura internacional entre abril e maio para selecionar os voluntários, damos-lhes uma formação intensiva e eles depois embarcam nos cargueiros para fazer as campanhas", explica a coordenadora.

Ao todo, os 61 biólogos voluntários de 16 nacionalidades que até hoje já participaram no projeto registaram, entre 2012 e 2017, um total de 2807 avistamentos de cetáceos, de 26 espécies diferentes, entre baleias, cachalotes e golfinhos, a que falta ainda juntar os dados de 2018 e deste ano. "Estamos a desembarcar agora os últimos voluntários da campanha deste ano", adianta Isabel Sousa Pinto.

"Esta área do Atlântico, à exceção das regiões costeiras, era desconhecida em relação aos cetáceos", afirma a investigadora, sublinhando que o CETUS é o primeiro projeto a coligir esta informação de forma sistemática.

Um primeiro balanço da informação até agora recolhida mostra que há "uma grande diversidade de cetáceos nesta região oceânica", e que "a maioria delas e das suas populações encontra-se sobretudo em zonas de montes submarinos, o que acaba por não surpreender", já que aqueles são pontos de grande biodiversidade e, portanto, de mais oportunidades de alimento.

Com o apoio e supervisão científica de Massimiliano Rosso e de Graham Pierce, do CSIC, o Conselho Superior de Investigação Científica de Espanha, e em colaboração com outras equipas do CIIMAR, nomeadamente na Madeira, o CETUS vai prosseguir as suas campanhas e diversificar o trabalho.

A ideia é fazer uma mapeamento detalhado das diferentes espécies nas respetivas rotas, avaliar os seus comportamentos nesta vasta região atlântica, conhecer as suas populações, a sua genética e o seu estado de conservação.

Sabe-se que algumas das espécies estão ameaçadas devido aos impactos da atividades humanas. Os dados do CETUS, acredita a equipa, serão essenciais para a sua conservação e um contributo para gestão dos ecossistemas marinhos que são o seu refúgio.

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