"Não há mais violência no namoro, há é mais jovens conscientes", diz Secretária de Estado

De acordo com o estudo Violência no Namoro 2019, apresentado esta quarta-feira, o tipo de violência mais comum é a psicológica e as raparigas são as mais afetadas.

"Não há mais violência agora, há é mais jovens conscientes do que isso é" e, por isso, mais queixas públicas, diz a Secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade. O estudo Violência no Namoro 2019, cujas principais conclusões foram divulgadas esta quarta-feira, mostra que mais de metade dos jovens diz ter sido vítima. Embora preocupada com os números, Rosa Monteiro alerta, em entrevista ao DN, que é preciso ter em consideração que o aumento também significa que há uma maior perceção do que é errado nas relações.

O estudo nacional, realizado pela União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) não trouxe boas notícias. O número de jovens, que namoram ou já namoraram, que diz ter sofrido pelo menos uma forma de violência por parte do companheiro ou ex-companheiro é de 58%. Em 2018, o número de queixas situou-se nos 56%.

O primeiro estudo alguma vez feito sobre o tema foi em 2015, quando se começou a perceber que a violência no namoro estava a ser "normalizada" na sociedade, lembra a secretária de Estado. Por isso, sublinha que "estamos a falar de perceção, não significa que o problema tenha nascido hoje ou que tenha maior expressão". Aliás, o documento mostra que a quantidade de jovens que entendem as práticas violentas como naturais são 67%, menos do que no ano passado, em que eram 68,5%.

Em 2018, a PSP recebeu 118 vítimas com menos de 18 anos que se queixaram dos namorados (43) ou ex-namorados (75). Estas denúncias atingiram as 106 em 2015, baixaram para as 103 no ano seguinte e voltaram a aumentar em 2017 (112) e 2018.

Ainda de acordo com o estudo da UMAR, o tipo de violência no namoro mais comum é a psicológica, ou seja, "tudo o que tenha a ver com inferiorização, insultos, ameaças, chantagens, desvalorização da pessoa e atentados contra a sua autoestima", disse Rosa Monteiro. Este tipo de atos "não tem nada a ver com amor, tem a ver com ciúme patológico e relações possessivas". As raparigas, que representam 54% da amostra, são as mais afetadas.

Ainda segundo a governante, é preciso fomentar a consciência do que é errado no namoro para evitar que se prolongue até à vida adulta dos jovens de hoje e, em alguns casos, já na forma de violência doméstica. "Se as raparigas vivem este tipo de relações muito cedo, podem interiorizar isto como formas de amor", explicou.

Desde 2007 que a violência no namoro é crime, estipulada no artigo 152.º do Código Penal.

Educar nas redes

A Secretária de Estado revela estar preocupada com um novo tipo de violência nas novas gerações, gerada através das redes sociais. "É um aspeto muito preocupante. Hoje, o relacionamento social passa muito pelas redes sociais, pela vida digital", disse ao DN.

E por isso é que a campanha #NamorarMemeASério, que será ainda esta manhã apresentada por Rosa Monteiro na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, foi pensada para as redes sociais, para ir ao encontro dos jovens.

O projeto tem a colaboração de organizações não-governamentais e associações académicas de várias zonas do país. O objetivo é "identificar de forma concreta alguns dos comportamentos que são sinais claros de situações de violência, quer seja física, psicológica ou sexual". Alice Trewinnard, Cátia Domingues, Carolina Torres, Diogo Faro, Maria Seixas Correia e Mariana Monteiro são os rostos dessa campanha.

A governante integra o grupo de trabalho que recentemente idealizou uma estratégia nacional de educação para a cidadania. "Consideramos que é tão importante educar para a cidadania como ensinar matemática e português", explicou.

Cerca de 900 docentes receberam formação para dar início à disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, que deverá ser implementada em todas as escolas, em todos os ciclos. "É um trabalho que já algumas escolas faziam e que a partir deste ano passa a ser de todas as escolas", remata Rosa Monteiro.

Para o estudo Violência no Namoro 2019, foram inquiridos 4938 jovens, entre os 11 e os 20 anos.

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