Ministério quer saber se hospitais estão a alimentar bem os doentes

Cerca de 115 mil portugueses internados precisam de nutrição clínica. Novo projeto pretende fazer um diagnóstico precoce destas situações com o objetivo de melhorar "a qualidade de vida dos doentes".

O Ministério da Saúde vai avaliar o estado nutricional dos doentes hospitalizados. O início desta análise está marcado já para abril na Unidade Local de Saúde do Alto Minho e no Centro Hospitalar de Lisboa Central. Em julho, o projeto será alargado a todos os hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e pode chegar a envolver 800 mil doentes por ano.

A medida está inserida na estratégia de combate à desnutrição hospitalar para promover "a recuperação dos doentes e o aumento da qualidade de vida", pode ler-se no comunicado do ministério da Saúde. Um estudo da ANUMEDI de 2018, realizado em 22 hospitais portugueses com mais de 700 doentes, revela que mais de 50% dos doentes internados estão em risco de desnutrição ou mesmo desnutridos.

"O nosso objetivo é identificar precocemente o risco nutricional. Esta análise deve ser feita a todos os doentes hospitalares do SNS. Para que depois possa ser feita uma prestação de cuidados ajustada ao diagnóstico", explica Maria João Gregório, diretora do Programa Nacional para a Alimentação Saudável.

Os doentes envolvidos no projeto serão encaminhados para o serviço de nutrição dos hospitais, onde os profissionais farão uma avaliação e agirão em conformidade com os resultados.

esta identificação precoce é mesmo muito importante e pode ser determinante para melhorar a qualidade de vida e do estado de saúde dos doentes que estão internados nos cuidados hospitalares"

"A desnutrição está associada a piores resultados em termos do estado de saúde dos doentes e também a um maior tempo de internamento, o que tem consequentemente custos associados. Portanto esta identificação precoce é mesmo muito importante e pode ser determinante para melhorar a qualidade de vida e o estado de saúde dos doentes que estão internados nos cuidados hospitalares".

Vai ainda ser criada uma comissão de acompanhamento que vai monitorizando a evolução do projeto e à qual serão apresentadas as conclusões do projeto-piloto nas unidades hospitalares do Alto Minho e no Centro Hospitalar de Lisboa.

Quase metade dos utentes internados estão desnutridos

A Associação Portuguesa de Nutrição Entérica e Parentérica (APNEP) estima que cerca de 115 mil portugueses (quase 1% da população) precisem de nutrição clínica, em contexto ambulatório / domicílio. Significa isto que dois em cada quatro adultos internados nos hospitais portugueses estão em risco de desnutrição. A nível europeu a estatística é de um em cada três.

É um ciclo vicioso. A desnutrição piora o quadro clínico (está na origem de muitas infeções), aumenta o tempo de recuperação, prolonga os internamentos e a probabilidade de reinternamento é maior. A tudo isto somam-se os custos para o sistema de saúde. A APNEP estima que a desnutrição custe ao SNS 255 milhões de euros por ano.

O médico Aníbal Marinho, presidente da APNEP explicava ao DN em novembro que isto acontecia porque a maioria não era diagnosticada com desnutrição - o que impedia o tratamento.

"A prevalência da desnutrição é considerável no momento da admissão, mas sabemos que durante o internamento também acontece. Não só pelas questões relacionadas com a alimentação nos hospitais mas também por toda a situação inerente a um internamento", diz Maria João Gregório.

O que é a desnutrição?

Estar desnutrido é não comer a quantidade de alimentos suficientes de acordo com as necessidades nutricionais diárias. A desnutrição está associada à falta de apetite, a dificuldades na deglutição, a efeitos secundários da farmacoterapia e à presença de doença (a forma mais comum).

Pode provocar uma perda não intencional de peso, sob a forma de massa muscular, fundamental para a mobilidade e consequentemente para a autonomia do doente. E a situação não melhora quando os doentes desnutridos ou em risco de desnutrição têm alta, uma vez que Portugal é dos poucos países europeus onde o Estado não comparticipa a nutrição clínica artificial. Se ao hospital, estes produtos custam dois a quatro euros, em casa o doente gasta entre 13 a 20 euros.

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