Homens das estepes e novos mistérios. A Península Ibérica à luz da genética

A maior amostra genética de sempre da Península Ibérica, que abrange os últimos oito milénios, revela movimentos populacionais e dá uma nova perspetiva à história desta zona da Europa, abrindo portas a outras visões.

Foi numa questão de 500 anos, mas nesse período relativamente curto, há cerca de quatro mil anos, entre 2500 e 2000 a.C., as linhagens masculinas que existiam na Península Ibérica sofreram uma mudança radical e foram totalmente substituídas pela linhagem dos povos das estepes da Europa Central, região onde hoje é a Ucrânia.

Este é um dos resultados mais marcantes de um estudo publicado nesta quinta-feira na revista Science, que usou a maior amostra genética de sempre das populações da Península Ibérica e que, atravessando milénios, desde há oito mil anos até 1600 d.C (há apenas 400 anos), traça a sua história genética, identificando os movimentos populacionais que foram chegando até cá e que influenciaram a história da península.

O grupo que realizou o estudo conta com vários investigadores portugueses das universidades do Minho, Coimbra e Lisboa.

Um estudo anterior, do investigador português Rui Martiniano (que não participa neste trabalho), do Instituto Sanger, no Reino Unido, já tinha revelado esta mesma particularidade em relação a Portugal, da substituição completa, há cerca de quatro mil anos, das linhagens masculinas aqui existentes pela dos homens das estepes, como o próprio investigador explicou ao DN. Na altura fez o seu estudo a partir de 14 amostras. O estudo agora publicado utiliza muitas mais (403), de diferentes zonas de Portugal e Espanha, e confirma que o mesmo aconteceu na generalidade da Península Ibérica.

Ao todo, a equipa, que conta com dezenas de investigadores de vários países, incluindo de Portugal, e que é coordenada por David Reich, da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos - um dos líderes mundiais dos estudos de genética populacional e do passado -, analisou os genomas de 403 indivíduos que viveram na Península Ibérica ao longo dos últimos oito mil anos. E depois fez comparações com dados genéticos de outras 975 amostras do passado, mas exteriores à Península Ibérica, e 2900 da população atual.

Entre as amostras do passado há algumas dezenas de Portugal, das regiões da Estremadura, do Alentejo e do Algarve.

Olhar de novo para o passado

A mudança genética ocorrida na Península Ibérica há quatro milénios é total no que diz respeito aos homens e chega aos 40% quando considerada a totalidade da população. "É um dos caso mais evidentes em ADN antigo de uma diferença tão grande entre os dois sexos no período pré-histórico", diz Iñigo Olalde, o principal autor do estudo, que integra a equipa de David Reich em Harvard, nos Estados Unidos.

Como explicar estes dados? Não há uma resposta taxativa para a questão e a única certeza, como sublinham os próprios investigadores no seu artigo, é a de que a genética, só por si, não pode contar a história toda, pelo que os arqueólogos e antropólogos terão de reinterpretar os seus achados à luz da nova informação e voltar ao terreno, em busca de novos dados.

Na prática, podem ter sucedido muitas coisas, como já sublinhava Rui Martiniano a propósito dos seus próprios dados. "A substituição completa das linhagens anteriores no cromossoma Y indica que esses homens do Leste tiveram mais sucesso reprodutivo do que os homens do Neolítico que já cá estavam", disse o investigador, sublinhando que "é difícil" ir além desta interpretação.

A superioridade tecnológica dos povos das estepes pode ter-lhes dado vantagem, que por sua vez se traduziu no seu sucesso reprodutivo. Ou as mulheres preferiram os recém-chegados, num contexto social mais estratificado - não se sabe. Uma coisa é certa, "nada nos registos arqueológicos disponíveis indicia qualquer episódio de violência naquele período na península", como sublinha Carles Lalueza-Fox, da Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona, e um dos coordenadores do trabalho. "A arqueologia e a antropologia têm de tentar perceber o que conduziu a estes padrões genéticos", diz Lalueza-Fox.

O arqueólogo português António Valera, da ERA - Arqueologia Oeiras, e um dos coautores do estudo, concorda e já está, precisamente, a fazer isso na zona de Perdigões, no Alentejo, de onde são aliás algumas das amostras que foram usadas neste trabalho para a Península Ibérica.

A arqueologia mostra que há cerca de quatro mil anos, naquele mesmo período em que se concretizou a mudança genética agora posta em evidência, "houve alterações importantes na península, mais no sudoeste, que abrange a região do Algarve, do que no sudeste, com um colapso das sociedades do Neolítico, que tinham florescido até aí, durante o anterior milénio e meio", conta António Valera. E sublinha: "Vários trabalhos estão já a mostrar que existe uma relação entre esse colapso e uma grande alteração do clima que ocorreu na altura, com aquecimento da temperatura, na península".

Essa mudança climática pode ter contribuído para um desequilíbrio no interior dessas sociedades de então, levando ao seu colapso, na mesma altura em que os povos oriundos das estepes já tinham também chegado. "Estes dados genéticos obrigam-nos a olhar de novo para os dados arqueológicos", conclui António Valera.

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