Eventos climáticos em cadeia podem transformar planeta numa estufa

Vagas de calor extremo como a dos últimos dias - e as catástrofes a elas associadas - poderão tornar-se cada vez mais frequentes, alerta um grupo de cientistas da Alemanha, Suécia, Dinamarca e Austrália num artigo publicado no jornal da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos

É um estudo novo, vem dos Estados Unidos, país que se retirou dos Acordos de Paris sobre o Clima por ordem do seu próprio presidente e mostra, mais uma vez, que a velocidade dos tempos da natureza não se compadece com a dos tempos da política.

Segundo um artigo que um grupo de cientistas internacionais publicou no jornal da Academia Nacional de Ciência dos EUA, com o título "Trajectories of the Earth System in the Anthropocene", ou seja, "Trajetórias do Sistema Terrestre no Antropoceno", uma sucessão de eventos como degelo, aquecimento dos oceanos, correntes instáveis e florestas moribundas poderá transformar o Planeta Terra num espécie de estufa e nem os esforços humanos para reduzir as emissões de CO2 terão impacto.

Os cientistas, da Alemanha, Suécia, Dinamarca e Austrália, tiveram em consideração uma interação e uma combinação de 10 processos de alterações climáticas, como, por exemplo, a libertação de metano no permafrost da Sibéria e o impacto do degelo na Gronelândia. No dia 12 de julho, um icebergue do tamanho de uma montanha aproximou-se de Innaarsuit, na costa oeste da Gronelândia. Causou o pânico. Os moradores foram retirados de casa. Em junho do ano passado pelo menos quatro pessoas morreram na sequência de ondas provocadas pelo desprendimento de um icebergue no noroeste da Gronelândia.

Assim, o que dizem estes cientistas, tal como já têm vindo a dizer outros, mesmo que o mundo cumpra o que está no Acordo de Paris, manter o aumento da temperatura média global abaixo dos 2ºC em relação aos níveis da era pré-industrial e limitar o aumento a 1,5ºC, isso poderá já não ser suficiente. O referido efeito dominó, dizem, poderia mesmo fazer subir as temperaturas até 5ºC.

O nível das águas do mar, alerta aquele artigo, poderia subir entre 10 e 60 metros, inundando várias ilhas e cidades costeiras, tais como Veneza (Itália), Nova Iorque (EUA), Tóquio (Japão) e Sidney (Austrália). Estas zonas teriam que ser evacuadas e deixariam de poder ser habitadas. Os cientistas avisam que a trajetória para um planeta estufa iria "certamente inundar ambientes deltaicos, aumentar o risco de tempestades costeiras com efeito destruidor e eliminar recifes de coral até ao final deste século ou até antes".

"Espero que estejamos errados. Mas como cientistas temos a responsabilidade de explorar se isto é real. Precisamos saber. É urgente. Esta é uma das questões mais existenciais da ciência", disse, citado pelo Guardian, Johan Rockström, diretor executivo do Resilience Stockholm Centre, instituto independente de investigação, especializado em desenvolvimento sustentável. Rockström é um dos autores do artigo publicado esta segunda-feira no jornal da Academia Nacional de Ciência dos EUA.

O impacto das alterações climáticas levou a conceituada revista Economist a fazer, esta semana, capa com o tema. A ilustrá-lo, uma fotografia de incêndios, o antetítulo "Na linha do fogo" e o título "O mundo está a perder a guerra contra as alterações climáticas".

No texto da publicação britânica lê-se: "A Terra está a arder em lume brando. De Seattle à Sibéria, este verão as chamas consumiram parcelas do hemisfério norte. Um dos 18 fogos que varrem a Califórnia, um dos piores da sua história, está a gerar um calor tal que criou uma espécie de microclima. Os fogos que varreram a zona costeira de Atenas mataram 91 pessoas. Noutras partes as pessoas sufocam com o calor. 125 morreram com o calor no Japão em resultado da onda de calor que elevaram as temperaturas em Tóquio pela primeira vez acima dos 40ºC".

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