Carros eléctricos, energia solar e emissões em queda. Vem aí uma revolução verde

Governo apresenta esta terça-feira o "Roteiro para a a Neutralidade Carbónica" para 2050, que servirá de base às estratégias do país para as próximas décadas, no combate às alterações climáticas. É uma mudança de paradigma


Uma eletrificação rápida de todos os transportes, o fim do carvão na produção elétrica já em 2030, com as energias renováveis a assumirem, logo nessa altura, cerca de 80% da produção de eletricidade no país, sobretudo com base no solar fotovoltaico que vai crescer muito, e nas eólicas. A meta é atingir os 100% de produção de eletricidade por renováveis em 2050. Quanto às emissões de gases com efeito de estufa, em 2050, elas serão 85 a 99% menos do que eram em 2005.

Estas são algumas das metas essenciais traçadas pelo "Roteiro para a a Neutralidade Carbónica - RNC 2050", o documento que servirá de base às políticas para a redução das emissões de gases com efeito de estufa em todos os setores de atividade, no âmbito do combate às alterações climáticas. O documento é apresentado esta terça-feira pelo governo na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, com a presença do ministro do Ambiente.

Energia, transportes, resíduos, indústria, agricultura, florestas, todos os setores estão contemplados e a cada um cabe uma fatia de redução de emissões, para que se possa atingir a meio do século a dita neutralidade carbónica.

Na prática, não é possível reduzir as emissões a zero. Mas, como o roteiro mostra, é possível chegar à neutralidade carbónica, isto é, a uma situação de saldo zero entre as emissões produzidas no país e as que o setor nacional da floresta consegue absorver. São essas as contas que o documento faz.

O roteiro prevê, em 2050, uma redução das emissões entre 85% e 99%, em relação ao valor de 2005 (86,1 milhões de toneladas), o que significa que, nessa altura, estarão a ser produzidas entre 13 milhões e 0,9 milhões de toneladas de gases com efeito de estufa em Portugal. À floresta caberá o papel de sumidouro (absorção) do dióxido de carbono nesses valores.

Eletricidade 100% limpa

O setor da eletricidade é um dos eixos centrais neste roteiro, uma vez que dele dependem outros também fundamentais, como é o caso dos transportes, que vai sofrer uma verdadeira revolução verde.

Na produção da eletricidade, o solar fotovoltaico vai assumir desde já grande protagonismo - o roteiro estima que em 2030 esta seja mesmo a tecnologia dominante neste setor. Será nesse ano também que o carvão deixa de entrar nestas contas.

Com essa mudança radical a dependência energética do exterior também diminui substancialmente. Da atual marca de 80% de eletricidade importada, Portugal passa para menos de 60% em 2030, para chegar em 2050 com os atuais valores invertidos, em que o país consegue produzir mais de 80% da eletricidade que consome, e toda com recurso às renováveis.

Nos transportes as mudanças também serão radicais, com uma transição muito rápida para os veículos elétricos. Essa transformação estará já em marcha em 2030, ano em que deixa de haver novos carros a diesel no país em todos os transportes, quer individuais, quer coletivos, para se chegar a 2050 com uma matriz praticamente a 100% de transportes elétricos.

Um pacto pelo clima

Outro dado que ilustra a mudança de paradigma proposta é a de uma alteração significativa na atividade da refinação. Atualmente ela incide sobre o crude, mas a partir de 2030, transformar-se-á em bio-refinação e produção de hidrogénio, com uma redução de 92% de emissões deste setor em 2050, em relação aos atuais valores.

Já no conjunto de todas as indústrias, a diminuição das emissões anda à volta de 70%.

No setor residencial, com a mudança de paradigma energético na climatização - deixa de ser possível utilizar o diesel, e é generalizado o consumo elétrico - consegue-se também uma redução das emissões em 95%, em 2050.

Este é um plano de longo prazo, que exige estratégias de longo prazo, o que não se coaduna com os ciclos políticos de quatro anos que têm caracterizado a vida do país, pelo que há quem defenda que ele deve ser objeto de um compromisso formal por parte de todas as forças políticas.

É o caso da organização ambientalista Zero, que defende "a criação de uma lei climática" pelo Parlamento que formalize esse compromisso coletivo ainda antes das próximas eleições legislativas, no próximo anos. "Essa legislação é fundamental para alinhar a política climática nas próximas décadas com os objetivos do Acordo de Paris e para atingir a neutralidade carbónica em 2050", defende a Zero.

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