Aquecimento global: temos 12 anos para salvar o planeta

Relatório de especialistas da ONU alerta que o mundo terá de avançar com transformações "rápidas e sem precedentes" para limitar o aquecimento global a 1,5 graus Celsius

Primeiro, as más notícias: o planeta tem apenas uma dúzia de anos para evitar um aquecimento global de 1,5 graus celsius em comparação com o período pré-industrial, a partir do qual o risco de fenómenos extremos como secas, inundações e picos de calor sobe de forma dramática. Agora as boas notícias: ainda é possível impedir que isso aconteça, mas vai ser preciso avançar com "medidas sem precedentes", avisa o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC, em inglês), num relatório publicado esta segunda-feira.

O documento de 400 páginas encomendado pelas Nações Unidas foi divulgado na cidade sul-coreana de Incheon, após uma reunião de cinco dias, em que participaram 570 representantes de 135 países. Os cientistas descrevem, com base em seis mil estudos, os impactos de um aquecimento de mais 1,5º Celsius, um nível que a Terra poderá atingir já em 2030 (2030-2052) devido à falta de uma redução maciça das emissões de gases de efeito estufa.

Em 2050, 85% da eletricidade global tem de ser fornecida através de energias renováveis

Os responsáveis pelo documento sublinham que limitar o aquecimento global a quase um grau pode significar a diferença entre a vida e a morte de muitas pessoas e ecossistemas. Para isso é preciso avançar com transformações "rápidas e sem precedentes" nos sistemas de energia, transportes, construção e indústria".

Os custos e os benefícios


E que transformações se colocam aos governos para atingir evitar que o mundo ultrapasse essa linha vermelha? Desde logo reduzir - e muito - as emissões de CO2, uma redução que em 2030 tem de ser de 45% em relação aos níveis registados em 2030; Depois, em 2050, 85% da eletricidade global tem de ser fornecida através de energias renováveis, reduzindo o recurso ao carvão para bem perto do zero; e tem de se avançar com a reconversão de sete milhões de quilómetros quadrados de solos (quase o tamanho da Austrália) para campos de culturas energéticas, como biocombustíveis.

O documento fala num "investimento médio anual nos sistemas de energia a rondar os 2,4 triliões de dólares"


A janela de oportunidade para o conseguir ainda não se fechou completamente, realça o relatório, embora os peritos admitam ter "pouca esperança" de que o mundo seja capaz de enfrentar este desafio. Desde logo porque estas mudanças requerem custos muito elevados a curto prazo - o documento fala num "investimento médio anual nos sistemas de energia a rondar os 2,4 biliões de dólares [dois biliões de euros] entre 2016 e 2035" -, um investimento que compensará certamente a médio prazo.

"Há custos e benefícios que devem ser pesados", salienta à BBC Stephen Cornelius, que já participou nas negociações do IPCC e agora faz parte da organização ambientalista WWF. "Cortar emissões pode ser pesado no imediato mas é ainda assim mais barato do que pagar pela remoção do dióxido de carbono mais para o final do século. E o relatório também aponta os benefícios de de um maior crescimento económico se conseguirmos manter o aquecimento global dentro do limite de 1,5 graus em vez dos 2 graus celsius, além de que não teremos maiores riscos de impactos de catástrofes naturais".

Impacto no ambiente e na saúde

Limitar o aquecimento a 1,5ºC pode impedir, por exemplo, a extinção de espécies e a destruição total do coral, fundamental para o ecossistema marinho. Pode ainda reduzir a subida do mar em 10 centímetros até 2100 e salvar áreas costeiras. Por outro lado, exceder esse limite irá provocar chuvas torrenciais ou secas profundas, o que terá um impacto negativo na produção de alimentos, especialmente em áreas sensíveis como o Mediterrâneo ou América Latina. Também irá afetar a saúde, o abastecimento de água e o crescimento económico, com um impacto especialmente negativo nas populações mais pobres e vulneráveis do planeta.

"Cortar emissões pode ser pesado no imediato mas é ainda assim mais barato do que pagar pela remoção do dióxido de carbono mais para o final do século"

O documento publicado esta segunda-feira foi encomendado pela ONU após o Acordo Climático de Paris de 2015, no qual os signatários se comprometeram a manter o aquecimento global abaixo de 2ºC e limitá-lo a 1,5ºC em relação aos valores registados no século XIX. O relatório, dirigido aos países da Convenção-quadro da ONU sobre alterações climáticas, será usado como base para as discussões da 24.ª cimeira do clima, em Katowice, na Polónia, em dezembro.

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