Hora H para a biodiversidade é agora. Ou, talvez, nunca

Delegados à cimeira das Nações Unidas sobre a Convenção da Biodiversidade têm duas semanas para mostrarem o que valem. Com as espécies a perderem terreno, políticos têm pouco tempo para inverter essa tendência

Sem alarido, os trabalhos da Conferência das Partes da Convenção da Biodiversidade das Nações Unidas (COP 14) - sim, a biodiversidade também tem uma COP - arrancaram este sábado no Egito. Apesar da ausência de mediatismo, porém, o que está em causa nesta cimeira - preservar os habitats naturais que estão a regredir a grande velocidade e salvar da extinção a maioria das espécies - é tão crucial para o futuro do planeta como o que se discute nas muito mais mediáticas COP do clima.

A natureza regride à frente dos nossos olhos. Ainda há duas semanas, a diretora executiva da Convenção da Biodiversidade da ONU, Cristiana Pasca Palmer, alertava, em entrevista ao The Guardian, para números alarmantes: desde 1970, 60% dos mamíferos, aves, peixes e répteis desapareceram da face do planeta. A perda de biodiversidade, disse a diretora da convenção, "é um assassino silencioso". Porquê? Porque as pessoas não se apercebem dessa realidade, ao contrário do que sucede com as alterações climáticas, que "são sentidas no dia-a-dia", afirmou.

Em vésperas desta COP, que decorre em Sharm El-Sheikh até 29 deste mês, com representantes dos 196 países signatários da convenção, Cristiana Pasca Palmer não poupou palavras, alertando para necessidade de um novo acordo para a preservação do mundo natural nos próximos dois anos. A não ser assim, avisou, o que pode estar em causa é a extinção da própria humanidade.

Preparar compromisso para Pequim

O dramatismo das afirmações da diretora da Convenção da Biodiversidade da ONU surge do pouco se andou nesta área até agora. Há oito anos, em Aichi, no Japão, os 196 países signatários da convenção da biodiversidade celebraram um protocolo com metas concretas, mas os resultados são demasiado escassos.

O acordo previa a redução para metade da perda dos habitats naturais, a garantia de atividades de pesca sustentáveis em todas as regiões do mundo e a expansão de reservas naturais de 10% para 17% da superfície do planeta até 20120. Mas a dois anos de terminar o prazo, os avanços foram poucos ou nenhuns, como se verá nas contas desta COP.

"A perda de biodiversidade e a destruição continuam a um ritmo sem precedentes, sobretudo devido à perda de habitats, às alterações climáticas, à poluição e às espécies invasoras", afirmou Cristiana Pasca Palmer ao site de informação ambiental Unearthed, ligado à Greenpeace, antes do início dos trabalhos em Sharm El-Sheikh.

Durante as próximas duas semanas, os delegados à COP têm uma árdua tarefa pela frente: voltar a pôr nos carris esta pesada carruagem, que dentro de dois anos, tem de estar afinada para que a cimeira de Pequim, em 2020, possa traçar novas metas.

O objetivo é conseguir na capital chinesa um compromisso com uma ambição política idêntica à do Acordo de Paris para o clima - embora não seja completamente claro neste momento se ficar abaixo de 1,5 graus de aumento de temperatura até final do século é exequível, face aos níveis de emissões de gases com efeito de estufa que persistem. Mas, para a biodiversidade, apesar de alguns sinais positivos, as dificuldades parecem ser ainda mais duras.

Como sublinhou Cristiana Pasca Palmer, há dados que deixam alguma esperança, Por exemplo, na Ásia, a cobertura florestal cresceu 2,5% nos últimos anos, e há hoje mais áreas marítimas protegidas do que há 10 anos, mas não chega. E para que, de Pequim, possa sair em 2020 um compromisso robusto, é necessário que este COP no Egito comece já a trabalhar nele.

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