"Há muitos cientistas jovens excelentes na Europa. Não sinto uma crise nesse domínio"

Gérard Mourou veio a Lisboa falar da tecnologia laser que desenvolveu nos anos de 1980 e que no ano passado lhe valeu, a par da canadiana Donna Strickland, o prémio Nobel da Física. Ao DN falou das promessas da tecnologia e da Europa da ciência

O físico francês Gérard Mourou teve a visão de um laser ultrapotente, capaz de concentrar impulsos de energia muito altos num curtíssimo período de tempo. E, em colaboração com a canadiana Donna Strickland, que na altura estava a fazer o doutoramento sob sua orientação, nos Estados Unidos, desenvolveu a tecnologia: o laser CPA (de chirped pulse amplification), que faz exatamente isso, e que acabou por se tornar a tecnologia standard para produzir lasers de alta intensidade, e que pela sua precisão, revolucionou outros domínios tecnológicos e suas aplicações, incluindo, na medicina, as cirurgias oftalmológicas. Já depois disso, na primeira década do milénio, Gérard Mourou teve outra ideia visionária: a de construir na Europa o laser mais potente do mundo.

Hoje, o ELI é uma grande infraestrutura de investigação que coloca a Europa na dianteira neste dominio do conhecimento e da tecnologia, com três laboratórios de lasers de alta potência para a investigação científica na Hungria, Roménia e República Checa já a funcionar. Da investigação nesses laboratórios Gérard Mourou espera "muitas novidades nos próximos anos", como disse, em entrevista, ao DN. Uma delas, na qual ele próprio está nesta altura a trabalhar, é a do tratamento dos resíduos radioactivos perigosos das centrais nucleares. A sua ideia (visionária) para por retirar a esses resíduos a possibilidade de emitir radiação.

Ganhou o Nobel da Física no ano passado. Já se adaptou à sua nova vida de laureado?
Sim, de certa maneira. É sempre uma coisa surpreendente, a que não se está habituado, de repente ser chamado a falar em todo o lado. Não é esse o meu trabalho [ri-se]. É um pouco difícil, mas habituamo-nos.

Tira-lhe tempo para o seu trabalho na investigação?
Sim, tira-me tempo à investigação, mas há outros aspectos muito positivos. Conhece-se muita gente, muitas pessoas na ciência, e governantes, que têm capacidade de decisão. E acontece que temos mais influência, no bom sentido. Podemos falar das nossas ideias, sobretudo em ciência, e da nossa visão das coisas, e as pessoas escutam-nos com mais atenção.

Tem casos concretos?
A minha paixão foi sempre esta área de trabalho, a da luz extrema [o laser] e das suas aplicações. E neste momento esta área é encarada com muita, muita seriedade.

Agora ouvem-no mais.
Exatamente.

O ELI, a infraestrutura europeia de lasers para investigação, foi uma ideia sua, e foi para a frente. Ainda não tinha o Nobel, mas deram-lhe ouvidos.

Sim, mas sejá tivesse sido premiado, teria sido mais fácil, e mais rápido [ri-se]. De qualquer forma correu muito bem. E os trabalhos de investigação nos laboratórios do ELI estão agora a iniciar-se.

O que podemos esperar desses trabalhos de investigação no futuro?
Muitas coisas. Novas aplicações científicas, claro, e outras para a própria sociedade. Por exemplo, na aceleração de partículas que pode ser usada no quadro médico. Na medicina, as partículas e as radiações são muito usadas nas terapias do cancro. E há possibilidades novas também numa aplicação que considero muito importante para a sociedade, que é a de transmutar os resíduos nucleares, um campo em que estou a trabalhar. Seria extremamente importante se pudéssemos chegar aí, porque poderíamos então ter energia nuclear sem o problema dos resíduos radioactivos. Isso ampliaria muito os nossos recursos energéticos. A energia é hoje a coisa mais importante, não fazemos nada sem energia.

Como pode a luz extrema limpar, por assim dizer, os resíduos radioactivos?
O átomo tem um núcleo e os electrões que orbitam em torno dele. O núcleo é uma coisa muito, muito pequena. Se o átomo, com os seus electrões, fosse um estádio de futebol, o núcleo teria a dimensão de uma noz. O núcleo é composto por outras partículas, que são os neutrões e os protões, e nos grandes átomos há centenas destas pequenas partículas no núcleo atómico. Na energia nuclear são produzidos elementos que emitem radiação durante muito tempo, que pode prolongar-se por milhares, ou milhões de anos. Neste momento, a solução para esses resíduos é tratá-los de forma complexa e colocá-los em minas. Mas há uma outra maneira, que é a do laser ultra-intenso, ou de luz extrema, que pode dar aqui uma ajuda muito importante, porque pode acelerar as partículas a altas energias. Ou seja, pode-se produzir protões ou neutrões a altas energias e um desses neutrões pode chegar até ao núcleo e fissioná-lo [parti-lo em dois]. E se, antes tínhamos um núcleo que poderia ser radioactivo durante milhões de anos, com essa operação, cada um dos dois núcleos resultantes passa a emitir radiação por um tempo muito mais curto, que pode ser de alguns anos, ou de apenas alguns meses. Dessa maneira obteríamos elementos que não emitiriam radiação, ou quase nenhuma radiação. Ou seja, em poucos minutos, ou mesmo segundos, reduziríamos a duração da emissão de radiação de milhares ou milhões de anos para alguns meses, ou anos.

Isso já se faz experimentalmente?
Não, mas sabemos que funciona. Poderíamos utilizar as tecnologias clássicas, como os aceleradores de partículas tradicionais, mas estas são grandes estruturas, não são para isto. O ideal seria ter um sistema muito mais pequeno, e muito menos caro.

Isto está a ser investigado nos laboratório dos ELI?
Sim, é um dos temas.

E quando poderá haver resultados desse trabalho?
Primeiro é preciso demonstrar esta ideia. Sabemos que é possível, do ponto de vista científico, mas é preciso demonstrá-lo com técnicas que possam ser utilizadas. Não serve de nada demonstrar qualquer coisa se não podemos concretizá-la a seguir. Portanto, neste momento queremos fazer essa demonstração com as tecnologias de que dispomos. Dentro de alguns anos, entre cinco e dez anos, talvez, vamos ter com certeza essa demonstração feita. Mas depois é preciso concretizar essa possibilidade e realizá-la, e como isso toca nesta área do nuclear, é tudo muito controlado. É como na medicina, são necessários muitos testes, para se ter a certeza de que é completamente seguro. Não se pode avançar muito depressa porque há muitos constrangimentos.

Que outras novidades poderemos esperar no futuro da investigação que já está a ser feita no ELI?
Há aplicações no campo médico, nomeadamente na área do cancro, no âmbito das terapias que envolvem radiação. A luz extrema é excelente para isso, e para feixes de partículas, e portanto teremos todas as aplicações que têm a ver com essas tecnologias, e espero que haja muitas novidades aí, Mas também em relação à própria ciência. Por exemplo, na compreensão do vazio e da sua estrutura, na compreensão de como a luz se pode propagar no vazio, São temas fundamentais. Ou ainda tentar simular no laboratório fenómenos que ocorrem no cosmos, como os buracos negros ou os jactos de raios gama. Podemos simulá-los com este tipo de laser porque ele pode produzir impulsos extremamente potentes durante um período de tempo muito, muito curto. Neste momento já estamos a estudar a interação laser-matéria a intensidades muito altas.

O ELI é uma infraestrutura de investigação europeia. Como está a ciência na Europa, na sua opinião?
Está bem. Por exemplo, no domínio da luz extrema, a Europa está na dianteira, à frente dos Estados Unidos e da China. Para fazer este tipo de investigação, em relação aos resíduos nucleares, a Europa está muito bem colocada. Isto porque houve um dinamismo na Europa neste domínio, foi por isso que as coisas avançaram, até mais depressa do que nos Estados Unidos.

É um bom exemplo de um sucesso científico europeu?
Diria que sim, e penso que foi por isso que ganhei o prémio Nobel.

O que correu bem e pode ser aplicado a outros domínios da ciência para se obterem idênticos resultados?
Esta área é um exemplo, mas penso que não é o único. Este conheço-o bem, iniciei-o, vivi-o. É-me difícil falar de outras disciplinas que não conheço.

Como vê o financiamento europeu para a ciência? É suficiente?
Sim, nesta área sim. Por exemplo, a infraestrutura ELI representou por três vezes um financiamento europeu de 300 milhões de euros. Foram praticamente mil milhões de euros.

A Europa atravessa algumas dificuldades. Poderá haver repercussões na ciência?
Certamente, isso não ajuda. Mas penso que a ciência está um pouco aparte, porque os cientistas não são nacionalistas, são internacionais. O que interessa aos cientistas é demonstrar conceitos, a ciência é internacional. Por todo o lado, em cada laboratório, há pessoas de todos os países, é extraordinário. A ciência aproxima as pessoas, é um pouco como a música.

Porque é uma linguagem comum?
É isso. E as pessoas que se dedicam à ciência fazem-no porque é essa a sua paixão. Não o fazem pelo dinheiro, mas porque gostam de o fazer. Porque é que alguém gosta da Física? Porque gosta de compreender os fenómenos, há uma grande satisfação nesse trabalho.

Vê isso também nos jovens de hoje?
Penso que ainda se vê muito, sim, mas talvez a um nível já mais especializado. Não é uma coisa generalizada, talvez porque a ciência é difícil. E é preciso muita dedicação, e muito tempo para se conseguir fazer qualquer coisa. Mas se se tem em essa paixão não há problema.

O que se pode fazer para atrair mais jovens para a ciência?
É preciso falar-lhes de ciência, dos temas da ciência. Os jornais, por exemplo, fazem isso muito bem, e as pessoas interessam-se imenso por esses temas, como os buracos negros, a astrofísica, a cosmologia. Acho isso muito interessante. Mas não penso que haja falta de cientistas na Europa. Há muitos cientistas jovens excelentes. Não sinto que haja uma crise nesse domínio.

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