Há 50 anos foi enviado o primeiro e-mail no mundo. A estreia não correu bem, mas mudou o mundo

A primeira vez que a rainha de Inglaterra Isabel II enviou um e-mail foi em 1976, sete anos após a ferramenta de troca de mensagens ter sido criada. O marketing mundial rendeu-se ao e-mail pouco depois, em Portugal ganhou força a partir de 1990 e, atualmente, um em cada três pessoas tem um endereço próprio.

Há 50 anos a primeira tentativa de comunicar entre dois computadores separados fisicamentenem sequer correu bem, mas deu frutos. Atualmente, praticamente uma em cada três pessoas deve ter um e-mail(haverá cerca de três mil milhões de contas, mas muitas pessoas têm mais de uma conta), o que a torna a aplicação mais popular que a internet já trouxe.

No dia 29 de outubro de 1969 Leonard Kleinrock, investigador da Universidade da Califórnia, enviou a mensagem "LO" para um seu colega, Douglas Engelbart. Leonard queria escrever "LOGIN", mas o sistema foi abaixo a meio. Antes, no início desse década, já tinham sido feitas algumas experiências de troca de mensagens entre dois terminais do mesmo computador, primeiro em tempo diferido, em 1961, e depois em tempo real, em 1965.

Mas se no princípio era o "LO", nos anos seguintes o novo tipo de comunicação desenvolveu-se e apenas dois anos depois: em 1971, criaram-se os primeiros programas para envio de e-mail e também o símbolo arroba (@).

Cinco anos depois, em 1976, a rainha de Inglaterra, Isabel II, enviava o seu primeiro e-mail. E dois anos mais tarde o marketing iria descobrir o e-mail, para nunca mais o largar.

Em Portugal sensivelmente ao mesmo tempo que no resto do mundo, expandiu-se a partir de meados da década de 1990 e hoje está em todo o lado: é usado pelo Governo, é usado pelos Tribunais e tem para efeitos jurídicos o mesmo valor que outra prova documental. É recente, por exemplo, o caso dos e-mails do Benfica, envolvendo o clube de Lisboa e o Futebol Clube do Porto. Ou o caso Griezmann, relacionado com e-mails também e envolvendo o jogador e dois clubes de futebol espanhóis, o Barcelona e o Atlético de Madrid. Também o caso de Hillary Clinton, que foi candidata a Presidente dos Estados Unidos e que foi envolvida num caso relacionado com o uso de e-mails oficiais através de uma conta pessoal.

Segundo dados fornecidos à Agência Lusa por fonte oficial dos CTT, o volume de correio caiu para metade desde 2001. Nessa altura o volume atingia 1,4 milhões de objetos de correio endereçado, que passaram a 0,7 milhões no ano passado.

Spam: uma prática antiga

Até à década de 80 do século passado a técnica foi-se aperfeiçoando e começou a ser possível, por exemplo, enviar uma mensagem para mais do que um destinatário, ordenar e salvar mensagens, reencaminhar ou responder automaticamente ou anexar ficheiros. Foi quando surgiu também o chamado "spam". O primeiro e-mail não autorizado e com um conteúdo publicitário enviado ao mesmo tempo para milhares de pessoas foi mandado a 1 de maio de 1978, nos Estados Unidos, segundo a página Living Internet .

Cresceu o spam, cresceu a concorrência, apareceu o Gmail (e-mail da Google), surgiram outras aplicações de comunicação instantânea, de texto, de áudio, de vídeo, de envio de ficheiros. Foi o Messenger, o Skype, o Twitter, o Facebook, o Instagram, o WhatsApp, para só citar alguns, tudo ferramentas mais apelativas para os jovens, que praticamente não se comunicam por e-mail.

Apesar do spam e de outros problemas que possa trazer, o e-mail é ainda a aplicação mais popular que trouxe a Internet. Não implica grande esforço, é rápido e gratuito, não tem de ser necessariamente respondido, pode ser breve e sem formalismos, além de que pode ser enviado a qualquer hora e lido em qualquer momento em quase todos os lugares do mundo.

Os e-mails são um caso sério, podem ser fraudulentos, e podem também carregar vírus. Em 1999, foi famoso o "melissa" que se espalhou via e-mail e provocou danos de milhões de euros.

Quanto mais longe chega a internet, mais longe chega o e-mail

O avanço de tecnologias de mensagens instantâneas como o Whatsapp deu prognóstico de morte anunciada ao e-mail, mas a tecnologia criada em 1969 não só não morre mos próximos anos como se prevê que cresça. "Há muito anos que preveem que vai acabar, mas ainda não desapareceu", reconheceu em declarações à agência Lusa o presidente do Instituto Superior Técnico, Arlindo Oliveira. "É difícil fazer futurologia, mesmo com o aparecimento de ferramentas de "messaging" com interfaces mais adequadas, mas o e-mail deverá continuar, mesmo com um papel mais complementar".

E quanto mais longe chega a Internet mais longe chega também uma conta de e-mail , para receber faturas ou extratos bancários, para mandar e receber documentos, para enviar e receber mensagens. Através do e-mail envia-se um currículo, recebe-se uma proposta de emprego, deseja-se bom natal ou um feliz aniversário, faz-se talvez uma declaração de amor.

Previsões da indústria apontam para um crescimento pelo menos até 2023 de uma forma de comunicação que teve um impacto global na comunicação remota, com reflexos mais visíveis no correio em papel, jocosamente chamado "correio caracol" pelos entusiastas da Internet que descobriram a possibilidade de comunicar instantaneamente com outros internautas, quer estivessem no outro lado do mundo ou no outro lado da rua.

Segundo o portal alemão de estatísticas 'online' Statista em 2018 havia cerca 3,8 mil milhões de pessoas a usar o correio eletrónico, que serviu nesse ano para mandar cerca de 281 mil milhões de mensagens por dia. Na previsão do Statista, em 2023, o número de utilizadores deverá subir para 4,4 mil milhões e a quantidade de mensagens enviadas por dia poderá atingir 347 mil milhões. Em 2018, 43% dos utilizadores de email consultavam as suas mensagens num telemóvel, 39% em serviços online e só 18% baseavam o seu correio eletrónico numa conta localizada no computador pessoal.

Num artigo publicado em 2015 na revista de economia norte-americana Inc., chamava-se ao e-mail "um buraco negro", enumerando problemas como a falta de respostas ou a circunstância em que uma troca de mensagens com "vários assuntos e várias pessoas" se torna algo "de que ninguém consegue fazer sentido".

Jovens mais desligados do e-mail?

Já em 2010, publicações como a revista Atlantic ou o New York Times dedicavam atenção à maneira como as gerações mais jovens se desligavam do e-mail em favor de serviços de mensagens instantâneas emergentes como o serviço de conversação da rede social Facebook. "Ter uma conta de e-mail em 2010 é sinal de que se é um 'bota de elástico', o tipo de pessoa que ainda vê filmes em VHS, ouve discos de vinil e tira fotografias com rolo", ilustrava o New York Times.

O crescimento das redes sociais como o Facebook, Instagram ou das aplicações de mensagens como o Whatsapp, a disseminação dos smartphones manifesta-se hoje nas mais de 41 milhões de mensagens enviadas por dispositivos móveis por minuto, como regista o Statista.

O Whatsapp é o mais popular, com uma estimativa de 1,6 mil milhões de utilizadores em todo o mundo, seguido do Messenger do Facebook e das aplicações chinesas QQ e WeChat. De aplicações que permitiam mandar mensagens de graça - evitando os custos dos SMS - passaram a incluir cada vez mais funções, incluindo imagens e vídeo.

"O e-mail poderá ter um papel mais reduzido, reservado para uma comunicação ponto a ponto, mais profissional", sugeriu Arlindo Oliveira.

"É capaz de ser altura de parar de anunciar a morte do e-mail", estava escrito num artigo da revista Forbes em junho deste ano. Na página Internet Live Stats, que rastreia em tempo real os números da utilização da Internet, o contador de e-mails enviados só este ano tem 76 biliões de provas de que as caixas de entrada não terão descanso tão cedo, à razão de mais de um milhão por segundo.

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