Do sushi ao cosplay. Como a cultura japonesa conquista os portugueses

Numa altura em que a cultura nipónica está no centro das atenções, com o início de uma nova era na monarquia hereditária mais antiga do mundo, o DN dá-lhe a conhecer três portugueses que se deixaram conquistar pelas artes do país do sol nascente.

Quando via as Navegantes da Lua, o Dragon Ball ou o Samurai X na televisão, Leonor Grácias sentia-se fascinada pelas personagens. "Tinha o bichinho de me fantasiar, mas achava que só o podia fazer no Carnaval". Aos 13 anos, descobriu o cosplay (abreviação de costume play) - ​​​​​​​movimento da cultura pop japonesa - na internet. Descreve-o como a "arte dos sete ofícios", em que os adeptos - chamados cosplayers - "fazem fatos e representam personagens de animação japonesa, entre outras". Inspiram-se no universo mangá e de anime, mas não só. "Também já fiz de Freddie Mercury", conta.

Leonor Grácias, 29 anos, é presidente da associação portuguesa de cosplay. Formada em pós-produção de imagem, sonha ver esta prática atingir um estatuto profissional. "Atualmente, é usado para estar com amigos, ir a eventos, participar em competições internacionais e internacionais". Mas, afinal, o que move os cosplayers? "O amor pelas personagens". No seu caso, demora, em média, um mês a fazer os fatos, a "transformar o 2D em 3D". Mas, ressalva, há quem demore mais ou menos tempo. Cada fato custa entre 300 e 400 euros, mas Leonor tem um que chegou aos quatro dígitos - Dinah, do jogo de tabuleiro Anima Tactics.

O que mais atrai Leonor na cultura nipónica é o facto de ser "muito diferente da cultura europeia, quase como um extremo". No caso do cosplay, por exemplo, "há mais liberdade, ninguém olha para o outro de lado". "Eles têm horários rígidos, trabalhos penosos e depois têm esta parte de encarnar personagens para se distanciarem da vida real e relaxarem", sublinha, destacando que os meetings acontecem sobretudo ao domingo. Através desta arte, a jovem aprendeu muito sobre o resto da cultura japonesa. "Faço muitos fatos tradicionais japoneses, como os quimonos, o que me obriga a estudar a sua história".

A partir do cosplay, Leonor Grácias interessou-se por outros símbolos da cultura do Japão, país que já visitou duas vezes. "Adoro a gastronomia japonesa, a música. Sei níveis básicos de conversação e, como estive lá, tive interesse em saber mais sobre o budismo e o xintoísmo". Estimando que exista uma comunidade de cerca de dois mil cosplayers de norte a sul do país, acredita que existem muitos fãs da cultura japonesa em Portugal "seja pela gastronomia, pelas artes marciais, pelo cosplay, pois cada vez mais cedo os miúdos se apercebem do que é".

Agora, com a subida ao trono do príncipe Naruhito, Leonor acredita "que seja o início de uma nova era para o Japão". Na opinião da jovem, o mais importante é que fosse dada "outra qualidade de vida aos trabalhadores e um incentivo à natalidade". Do lado de cá do globo, no dia em que o imperador japonês Akihito se torna o primeiro a abdicar do trono em 200 anos, deseja "a prosperidade do povo japonês".

Um chef apaixonado pelo fascínio, rigor, disciplina

Sem qualquer ligação com a cultura japonesa, Miguel Bértolo decidiu investir num restaurante de sushi há cerca de 15 anos, em Lisboa, numa altura em que "estava na moda" comer com pauzinhos em Portugal. Com formação em Artes, entrou gradualmente no mundo da comida japonesa. Começou por aprender com os seus colaboradores e decidiu fazer formação em cozinha, primeiro em Portugal, depois no Japão.

Hoje, Miguel Bértolo, 40 anos, vencedor do segundo lugar no World Sushi Cup em 2017, confessa-se rendido à cultura nipónica. "Pelo minimalismo, pelo rigor, pela disciplina". Mas também porque é uma "cozinha bastante saudável", que "trabalha a sazonalidade dos produtos e os cinco sentidos humanos". "A visão, o tato, a audição. Tudo isso cativa-me". Por um lado, explica, é uma cozinha que coloca em evidência o pormenor e o detalhe - o que naturalmente agrada a um homem das artes - e, por outro, tem uma "grande proximidade com a natureza e vive muito em contacto com ela".

Na primeira viagem ao Japão, em 2009, o chef descobriu "um país muito rico e muito diversificado a nível cultural e histórico". Tóquio cativou-o "pelo lado humano, por ter tantas pessoas e ao mesmo tempo tão organizadas", enquanto Quioto o fascinou pela vertente histórica, que o deixava "maravilhado com os apontamentos históricos".

Cozinheiro, empresário e formador, Miguel viaja com frequência para o Japão, onde tem uma parceria com uma escola de cozinha. É português e tem "muito orgulho no país", mas não esconde que se identifica e tentar seguir "muitos aspetos da sociedade japonesa". Fala-nos, por exemplo, "do rigor, da disciplina, do respeito e do contacto com a natureza".

"Existe uma conjugação e uma harmonia entre o lado mais conservador e histórico e o lado mais extravagante", destaca o chef. Recorda-se, por exemplo, de uma cena a que assistiu quando andou no metro de Tóquio pela primeira vez: "Uma senhora vestida a rigor com um quimono e ao lado um rapaz vestido de Hello Kitty" - um cosplayer. E ninguém se censurava ou criticava. "É uma característica da cultura japonesa. Conseguem preservar o lado mais antigo com o mesmo respeito que veem as modas".

Questionado sobre a relação dos portugueses com a cozinha japonesa, Miguel considera que estamos "bem situados quando comparados com outros países da Europa". Enquanto há alguns anos "o core business era o sushi ocidental - salmão de viveiro, fruta, queijo creme -, há agora uma tendência para privilegiar o lado mais oriental, que consiste em preservar os sabores tradicionais do peixe e do marisco e conjugá-los com o arroz".

Miguel Bértolo confessa que não tem acompanhado de perto a sucessão do trono no Japão, mas sobre a nova era - ordem e harmonia - diz que "vai ao encontro" de tudo aquilo que pensa sobre o país.

Quarenta anos de amor aos bonsais

"Foi um acaso". É assim que Fernando Gonçalves, de 61 anos, descreve o início da sua paixão pelos bonsais. "Trabalhava com plantas e recebi três exemplares no meio de uma encomenda". Foi há 40 anos. Já tinha ouvido falar sobre a arte de cultivar árvores em miniatura, mas sabia muito pouco sobre a técnica. "Achei que era algo muito bonito. É uma cultura milenar, que acompanha gerações". Entusiasmou-se e apaixonou-se, numa altura em que os bonsais que chegavam a Portugal "não tinham a qualidade que têm hoje e em que a oferta era muito limitada".

Fascinado com as amostras, o proprietário da loja PortoBonsai "aprendeu a lidar com eles", descobriu "as melhores maneiras de os tratar, de os podar". E deixou-se envolver cada vez mais por este símbolo da cultura japonesa, que foi levado para o país pelos monges budistas chineses. Foi no Japão, lembra, que se aprimorou a técnica de tratar as árvores anãs e que se criaram as "formas mais requintadas". A mais de 10 mil quilómetros de distância, Fernando foi aperfeiçoando também a sua arte e há 25 anos que se dedica exclusivamente à venda de bonsais.

Ir ao Japão é um sonho que ainda não desistiu de concretizar, mas os custos da viagem fazem com que vá adiando esse plano. "Tenho vontade de ir. Fascina-me", afirma. Não está lá presencialmente, mas diz que a internet veio reduzir a distância. "Vejo filmes e fotografias, mas há zonas que gostava de conhecer. A beleza não é só dos bonsais, mas dos próprios jardins".

No número 289 da rua Santo Ildefonso, no Porto, há árvores com 10, 20, 30, 40 anos, que podem ultrapassar os 700 euros. Com elas, os europeus "vão aprendendo que vale a pena esperar, que não pode haver um envelhecimento apressado". De ano para ano, "o bonsai vai adquirindo as características da árvore grande". Mas precisa de tempo. "A cultura japonesa é diferente da nossa. Eles são mais pacientes. Não vale a pena ter pressa para querer ver resultados imediatos".

Além de ser a arte da paciência, é também a da boa energia. Não raras vezes, conta Fernando, os clientes entram na loja com uma postura fria e saem com um sorriso. "Sentem-se bem. A beleza dos bonsais é mágica". Além disso, "permitem relaxar", pois têm de ser regados diariamente e podados com frequência. "Dependem muito de nós e nós damos-lhem muito de nós. Eles retribuem-nos com beleza e podem acompanhar-nos toda a vida". Como bonsai, explica, a árvore pode durar tanto como na natureza. Já teve um bonsai consigo durante 21 anos, que foi vendido com cerca de 40. "Mas não me posso ligar a todas as árvores. Passo-lhes o meu conhecimento para brilharem, para que sejam bonitas e para que as pessoas possam olhar para elas com magia". Não deixa de ser um negócio, reconhece, mas que é feito com todo o amor. Um sentimento que transmitiu à filha, formada em Direito. "Aos 4 anos já conseguia podar uma árvore. É um amor eterno, para toda a vida".

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