Comer como um 'climatarian' ajuda a salvar o planeta

Seguir a dieta climatarian é escolher os alimentos com base na sua pegada ambiental. É perceber de onde vêm e como foram produzidos. Ao DN, uma nutricionista e uma ambientalista explicam como pode ser mais amigo do ambiente na hora de se alimentar.

Se quiser ajudar a salvar o planeta através da alimentação, não precisa de comer só fruta, legumes e leguminosas. Pode fazê-lo, claro, mas não tem de ser necessariamente vegano ou vegetariano. O que não pode fazer é abusar de alimentos com um elevado impacto ambiental. Ter uma dieta amiga do ambiente implica reduzir o consumo de carne e peixe, mas também de alimentos como a quinoa, o abacate e a chia, que, embora sejam saudáveis, podem ter efeitos ambientais desastrosos. Se tiver em conta a pegada ambiental dos alimentos e se evitar o desperdício, estará a ser um climatarian.

De acordo com o dicionário de Cambridge, os climatarians"ajudam a salvar o planeta através das suas escolhas alimentares. Tipicamente, cortam na carne e noutros alimentos com uma elevada pegada de carbono". O conceito começou a ser falado em 2009, mas nos últimos anos tem vindo a ganhar mais destaque a nível internacional.

"É uma dieta baseada nos princípios da sustentabilidade do planeta", diz ao DN a nutricionista Patrícia Costa, autora do blogue NU34US, ressalvando que não se trata de uma definição rígida. "As escolhas que cada um faz são muito pessoais. Cada pessoa pode adaptar a dieta, fazendo uma aproximação à dieta climatarian. Esta não é uma dieta restritiva nem implica uma mudança de hábitos drástica. É uma alimentação saudável e equilibrada, que segue os princípios da dieta mediterrânica."

Em consulta, Patrícia Costa nunca recebeu ninguém que lhe dissesse que queria seguir este regime, mas acredita que será "por falta de conhecimento da definição". Ao DN, a nutricionista defende que "se calhar somos todos um bocadinho climatarian". Mas ainda há um longo caminho para percorrer: "É preciso diminuir o consumo de carne e privilegiar os produtos locais e da época."

Num artigo publicado no El País , Julia Wärnberg, professora da Universidade de Málaga, explicou que "a questão-chave está no consumismo". E deixou várias questões: "Será que realmente precisamos de um abacate que venha do Peru ou de uma manga do Brasil? É necessário beber um sumo de laranja quando não há laranjas no verão? Porque não são substituídas por morangos, uvas ou tomates, que são da época e também têm vitamina C?".

"Será que realmente precisamos de um abacate que venha do Peru ou de uma manga do Brasil?"

Ter uma alimentação amiga do ambiente passa por pensar como e em que condições os alimentos foram produzidos, quantos quilómetros viajaram até chegar ao prato, se foram processados, como estão embalados.

Qual o lugar da proteína animal?

Uma dieta sem produtos de origem animal será, à partida, mais amiga do ambiente. Vejamos o exemplo da carne: para gerar um quilo de carne de vaca são necessários, em média, mais de 15 mil litros de água e, à pegada hídrica, acrescem elevadas emissões de CO2 e metano, grandes ocupações de solo, a energia necessária para o processamento, a produção de rações. Mas a solução não passa por deixar de comer proteína animal de um dia para o outro.

Susana Fonseca, membro da direção da Zero - Associação Sistema Terrestre Sustentável, defende que devem ser seguidas as recomendações da Direção-Geral da Saúde e da Organização Mundial da Saúde: "Advogamos que haja uma redução nas quantidades que são consumidas e que se opte pelas carnes que têm menor impacto." No caso da carne de bovino, por exemplo, sugere que seja dada preferência às raças autóctones e à produção biológica. Esta é uma medida urgente, sublinha, mas, no futuro, é necessário "ir além disso".

"A seu tempo, temos de reduzir de forma drástica o consumo de proteína animal, porque a população mundial está a crescer. Só com uma dieta essencialmente de base vegetal vamos equilibrar os indicadores para evitar consequências mais grave em termos de alterações climáticas", defende a ambientalista.

O que é saudável nem sempre é sustentável

Nos últimos anos, aumentou bastante o consumo de alimentos como o abacate, a quinoa ou a chia nos países da Europa. No entanto, embora sejam saudáveis, estes alimentos têm muitas vezes um elevado impacto ambiental, não só associado às emissões de gases com efeitos estufa no transporte, mas à própria produção.

Para corresponder às necessidades dos países desenvolvidos, diz Susana Fonseca, há recursos que se tornam de difícil acesso para as populações que deles dependem - como acontece com a quinoa que vem do Peru. Por outro lado, cultivos que eram feitos de forma equilibrada passam para o "modo intensivo, com maior impacto ambiental". Exemplo disso é o que se passa com o abacate no México, onde os cartéis disputam as plantações daquele que é chamado o "ouro verde".

"Não precisamos de ir buscar regulamente outros alimentos. A nossa gastronomia tem muitos alimentos ricos, que têm de ser repensados. A dieta mediterrânica é das mais equilibradas a nível mundial", defende.

Seguir o regimeclimatarian implica comprar localmente e de acordo com a época, bem como evitar os alimentos processados e embalados, privilegiando as compras a granel. Mas não só. "No que diz respeito aos hortícolas, por exemplo, deve haver um maior aproveitamento das cascas e dos talos. Temos de reduzir o desperdício", alerta Patrícia Costa.

Mesmo quando os alimentos são produzidos localmente, explica Susana Fonseca, têm uma pegada ecológica associada. "Sempre que desperdiçamos, desperdiçamos recursos que foram usados para os produzir", refere, sugerindo, por exemplo, o aproveitamento das sobras e o congelamento de refeições.

A forma como os alimentos são confecionados também pode fazer que a alimentação tenha maior ou menor impacto ambiental. "Fazer um assado ou um guisado são coisas diferentes, porque os fornos têm grandes consumos de energia." Se der para comer cru, tanto melhor.

Susana Fonseca lembra que a alimentação "é um dos fatores em que está bem identificado que algumas alterações nas quantidades, tipos de alimentos e formas de confeção podem fazer a diferença em termos de impacto ambiental". Segundo a ambientalista, as pessoas até podem ter preocupações ambientais, mas "no dia-a-dia as coisas não mudam, porque o que é mais rápido, barato e fácil são as soluções insustentáveis".

Por isso, na opinião da ambientalista, "qualquer alteração implica políticas públicas de incentivo ao consumo de determinados alimentos e à penalização de outros", assim como "formação e capacitação dos consumidores". "Temos mesmo de reduzir o consumo de recursos", conclui.

Em média, cada adulto em Portugal consome cem gramas de carne por dia. Segundo os dados do II Grande Inquérito sobre Sustentabilidade em Portugal, quase 35% das refeições incluem carnes brancas e de aves, 26% têm carne vermelha 25% contemplam peixe.

No entanto, de acordo com o estudo desenvolvido por investigadores do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, mais de metade (50,6%) dos inquiridos manifestaram disposição para reduzir o consumo de carne e para seguir uma alimentação de base vegetal (45,1%). Uma boa maneira de se aproximar de um estilo climatarian é, segundo Patrícia Costa, "começar por fazer uma ou duas refeições por semana sem proteína animal".

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