Coimbra já eliminou a carne de vaca. O que fazem as outras universidades para salvar o planeta?

As alterações climáticas não passam ao lado da agenda dos reitores de várias universidades portuguesas, que competem entre si pela instituição mais ecológica. A Universidade do Minho, por exemplo, tem sido considerada a mais sustentável do país e uma das mais sustentáveis do mundo.

Há alguns meses, a Universidade de Coimbra adotou a compromisso de fazer tudo o que está ao seu alcance para vir a tornar-se "a primeira universidade portuguesa neutra em carbono até 2030", explicou o reitor, Amílcar Falcão, em entrevista ao DN. A partir de janeiro, na terceira maior universidade do país já não será servida carne de vaca nas cantinas e o plástico está a ser eliminado dos edifícios. Mas não é estreante nesta tarefa: há pelo menos mais quatro instituições de ensino superior comprometidas em diminuir a sua pegada ecológica.

A líder dos rankings de sustentabilidade

"Pioneira", é assim que Paulo Cruz apelida a Universidade do Minho (UM), da qual é pró-reitor. "A UM está comprometida com este tema, diria, já desde o início da década. Subscreveu uma iniciativa das Nações Unidas, Global Compact (Pacto Global), de envolvimento de entidades, empresas e companhias, para que alinhem as suas estratégias com os princípios dos Direitos Humanos, Trabalho e Meio Ambiente. Portanto, todos os anos, temos de prestar contas sobre o que se desenvolve dentro destes domínios. E desde 2010 que lança relatórios de sustentabilidade - foi, aliás, pioneira nacional nesta matéria", explica.

Na instituição, "a sustentabilidade é vista de forma muito ampla", englobando diversos níveis de atuação, "desde a gestão diária à dimensão educativa e de investigação". Por isso, lidera os rankings de desenvolvimento sustentável a nível nacional (e até peninsular). Ainda este ano, os resultados da primeira edição do "THE Impact Rankings", da Times Higher Education, colocaram a universidade em primeiro lugar na resposta aos "Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU", entre as restantes universidades do país. A nível mundial, ficou em 83.º lugar, no meio de 450 instituições de ensino superior de 76 países diferentes. Os critérios vão desde "parcerias para a implementação dos objetivos", "educação de qualidade", "cidades e comunidades sustentáveis", "indústria, inovação e infraestruturas" e "saúde de qualidade". A UM tem liderado ainda o pódio da Clean Metrics, "um ranking específico de sustentabilidade nas universidades", explica o pró-reitor.

"Não se deve tratar de impor metas eventualmente irrealistas, mas mobilizar todos os níveis da instituição"

Segundo Paulo Cruz, que se tem dedicado ao pelouro da sustentabilidade da universidade, "não se deve tratar de impor metas eventualmente irrealistas, mas de mobilizar todos os níveis da instituição". "No caso de uma universidade, começa logo pela sensibilização dos estudantes e funcionários."

A mudança começa na própria formação. Entre as diversas medidas que a instituição tem implementado está "o número significativo de unidades curriculares que já abordam estas questões (ambientais), inseridas em licenciaturas". Mas não só: na prática, a universidade já procedeu à instalação de cerca de 100 ecopontos, em 2018, a substituição de copos de plástico por embalagens de vidro e o encaminhamento de "um número muito significativo de resíduos", como 15 toneladas de gorduras, para reciclagem - antes desviadas para aterro. Na ótica da redução do desperdício, têm doado os excedentes das refeições diárias a várias Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) e substituíram as torneiras e chuveiros existentes para sistemas "que permitam poupar mais por ano".

O pró-reitor alerta que "as universidades têm tido alguns constrangimentos financeiros", mas é prioridade da instituição "privilegiar a sustentabilidade na agenda". "Está inscrita na missão da universidade."

Menos edifícios, mais eficiência

Os projetos são ambiciosos e grande parte deles já está em curso na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD). A instituição "fez um compromisso com o ambiente" perante a "dívida ecológica que temos para com o planeta", diz o reitor da instituição, António Fontainhas Fernandes. O desafio está dividido em sete áreas distintas de intervenção: desde o ordenamento do território à formação de funcionários.

A primeira área diz mesmo respeito ao ordenamento do território. Neste caso, do campus da universidade. Atualmente, "é única portuguesa que tem tudo concentrado no mesmo campus", depois de terem sido fechados os edifícios afetos à instituição que estavam dispersos pela cidade e levados para dentro do local de sede. "É evidente que numa cidade maior não é possível fazê-lo", ressalva Fontainhas Fernandes. A medida permite que "não seja necessária a deslocação entre diferentes edifícios, além de que a despesa é menor: são menos quatro edifícios sem consumir energia".

"Só com estas políticas, vamos conseguir baixar 50% da energia bruta e 70% das emissões"

A UTAD tem apostado também em estratégias de eficiência energética. "Estamos na fase final de investimento de três milhões, financiado em 95% pelo POSEUR (Programa Operacional Sustentabilidade e Eficiência no Uso dos Recursos), para a substituição de toda a iluminação elétrica por sistemas LED", começa por explicar o reitor. Também o sistema de aquecimento passará brevemente a ser a biomassa e as coberturas atuais já foram substituídas por painéis solares. "Só com estas políticas, vamos conseguir baixar 50% da energia bruta e 70% das emissões", contabiliza.

O terceiro compromisso passa pela gestão dos resíduos oriundos da universidade. Para tal, concretizaram um plano para recolha seletiva do lixo, em todo o campus, através da instalação de ecopontos, e de diminuição de desperdícios. "Temos um acordo com a Refood (organização para reaproveitamento de excedentes alimentares), que no final do dia recolhe as sobras", diz Fontainhas Fernandes.

Ainda nas questões alimentares, da responsabilidade dos Serviços de Ação Social, foram incluídos pratos diferenciados, com opções vegetarianas e vegan, nos refeitórios. Além disso, a compra do menu é efetuada peça a peça: em vez de comprar a refeição completa (entrada, sopa, prato do dia e sobremesa), pode comprar apenas o prato do dia, evitar o desperdício alimentar. Há ainda um serviço de pequeno-almoço para os jovens com alimentos saudáveis, para cortar ao máximo nos produtos açucarados.

Também a mobilidade do campus é um compromisso da instituição. De acordo com o representante da universidade, já foi aprovada uma candidatura, também no valor de três milhões de euros, ao abrigo do PEDU (Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano) para a criação de uma ecovia, que liga o centro da universidade ao centro histórico da cidade, "para que seja privilegiado o transporte sem uso de combustíveis". Além disso, os parques de estacionamento vão passar a ser "jardins de estacionamento". "Vai existir o mesmo número de carros, mas passam a estar envolvidos por árvores e jardins, para que se sintam convidados a abandonar o automóvel. É uma questão de linguagem", diz o representante. No interior do campus, existem ainda trilhos pedonais, para evitar o uso de automóveis e todas as viaturas universitárias (dos funcionários que precisam de transportar mercadoria) são elétricas. Para os estudantes que querem utilizar carros elétricos, a universidade disponibiliza vários postos de carregamento elétrico.

Na área verde deste plano, a UTAD assume ainda o compromisso de todos os anos construir dois jardins temáticos para aumento da taxa de arborização. É atualmente nesta instituição que se encontra o maior jardim botânico da Península Ibérica.

Mas nenhuma destas medidas funciona sem formação e comunicação das boas práticas. "E este ponto é fundamental, porque é preciso formar as pessoas para que tudo se concretize", diz Fontainhas Fernandes. A par disto, todas as escolas têm a obrigação de promover conferências sobre sustentabilidade.

A UTAD está focada em "certificar o campus como um eco campus". "É um processo que pode durar anos, mas tentamos ir dando resposta todos os anos. Espero conseguir dentro de um ano."

Novas zonas verdes no Porto

Também a Universidade do Porto (UP) quer tornar-se "um leading player na promoção dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da ONU, onde as preocupações ambientais têm uma importância substantiva", diz em comunicado enviado ao DN.

Um pouco por todas as faculdades afetas à UP, têm sido concretizadas obras no sentido de "melhorar a eficiência energética dos edifícios". A iluminação está também a ser substituída por lâmpadas LED e as características solares dos vidros a ser melhoradas. Estão ainda a ser instalados painéis fotovoltaicos.

No Porto, serão criados quase 60 mil metros quadrados de zona verde, "incluindo centenas de árvores, duas ribeiras e vários espaços especialmente concebidos para passear, estudar ou descansar após um dia de trabalho"

A zona que circunda as faculdades também ficará mais verde. De acordo com a Universidade do Porto, serão criados quase 60 mil metros quadrados de zona verde, "incluindo centenas de árvores, duas ribeiras e vários espaços especialmente concebidos para passear, estudar ou descansar após um dia de trabalho". É o futuro cenário desenhado para o Parque Central da Asprela, por exemplo, "que deverá nascer até 2020 nos terrenos da universidade situados entre o UPTEC - Parque de Ciência e Tecnologia da U.Porto e a Faculdade de Desporto (FADEUP)". A iniciativa responde à "ambição" da instituição de edificar "um ponto de ligação de todo o campus universitário da Asprela, 'casa' de sete das 14 faculdades da UP".

A par da maioria das faculdades, a mobilidade sustentável também é uma das prioridades da universidade. Um compromisso que está a ser concretizado através da distribuição de bicicletas por toda a comunidade académica. Em 2018, foi lançado o projeto U-Bike, que disponibilizou, numa primeira fase, 250 bicicletas elétricas e convencionais. Estudantes, professores, funcionários, investigadores podem candidatar-se para terem acesso a uma destas viaturas, durante seis, nove ou 12 meses, devendo cumprir uma média diária mínima de sete quilómetros. "O projeto visa, desta forma, reduzir a pegada ecológica, ao mesmo tempo que promove a adoção de um estilo de vida saudável", lê-se na resposta enviada ao DN pela UP.

Para quem continuar a utilizar o carro, mas elétrico, a universidade também dispõe de seis pontos de carregamento, em cinco faculdade diferentes: um na Faculdade de Ciências, dois na Faculdade de Engenharia, outros dois no ICBAS/Faculdade de Farmácia e um último na Faculdade de Letras.

A partir deste ano letivo, as cantinas da Universidade do Porto só disponibilizam água da rede pública

Já "no âmbito do Plano de Promoção da Saúde desenvolvido e apresentado recentemente pela UP, a instituição prevê a entrega de garrafas reutilizáveis aos estudantes". Uma iniciativa cujo objetivo passa por "potenciar e ingestão de água, mas também a reutilização da garrafa, evitando, assim a compra de outras opções de plástico". Além disso, a partir deste ano letivo, as cantinas só disponibilizam água da rede pública, evitando o recurso a embalagens de refrigerantes, sumos ou chás.

Ainda no que toca às cantinas, também esta instituição protocolos com várias IPSS para o reaproveitamento diário das sobras alimentares.

O compromisso com o desenvolvimento sustentável está a ser feito a curto, mas também a longo prazo. A universidade tem apostado na formação e sensibilização para a área ambiental através de workshops e de investigação específica.

No ano passado, a Universidade do Porto "tornou-se na sede oficial da Casa Comum da Humanidade". Uma associação que visa implementar um inovador modelo de gestão dos recursos naturais a nível global, desenhado por um investigador do CIJE- Centro de Investigação Jurídico-Económica, físico e professor da Faculdade de Ciências (FCUP), Paulo Magalhães. "Este projeto prevê a criação de um 'Condomínio da Terra', um órgão transnacional, sedeado na ONU, para gerir os recursos naturais através de uma nova fórmula científica de avaliação e contabilização dos impactos positivos e negativos infligidos no sistema terrestre. Um dos objetivos da Casa Comum da Humanidade é promover a candidatura do Sistema Terrestre a Património Comum Intangível da Humanidade."

Lisboa mais ecológica

Também a capital tem mostrado sinais de que está empenhada em fazer parte da batalha contra as alterações climáticas. No ranking de Sustentabilidade do Times Higher Education, a Universidade NOVA de Lisboa atinge a 17.ª posição relativamente à Saúde e Bem-Estar, a nível europeu.

As várias iniciativas da instituição passam pelo combate ao desperdício alimentar, também através de "parcerias com várias instituições", pela "sensibilização para um consumo responsável de água, eletricidade e papel", mas também para a reciclagem e para a redução do consumo de plástico. É, aliás, "prática comum" substituir as embalagens de plástico por embalagens de vidro, por exemplo.

Assim como a UTAD, a NOVA já dispõe de postos de carregamento para carros elétricos e estratégias mais sustentáveis de encaminhamento de resíduos.

"A Universidade NOVA de Lisboa está totalmente comprometida com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Estamos fortemente empenhados em continuar este caminho pela defesa da sustentabilidade, que a todos tem de dizer respeito", diz o reitor João Sàágua, em declarações ao DN.

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