Apesar do sedentarismo, álcool, hipertensão, morre-se menos de doença cardíaca em Portugal

Portugal é o quarto da Europa onde doentes com antecedentes de enfarte morrem menos, mas, apesar das estruturas de prevenção e de resposta SOS criadas, há comportamentos de risco muito elevados, como o sedentarismo ou o consumo de álcool.

Portugal é um dos países da Europa com melhores resultados no tratamento das doenças do coração. Morre-se menos e adia-se a incapacidade por problemas cardiovasculares durante mais tempo, graças a "um esforço com décadas", explica o presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. No entanto, o país revela níveis muito elevados em alguns dos comportamentos de risco, como a hipertensão, o consumo de álcool e o sedentarismo. Portugal é o segundo país europeu onde se pratica menos atividade física, segundo um retrato divulgado esta segunda-feira pela Sociedade Europeia de Cardiologia.

Dos 56 países analisados no Atlas da Cardiologia da Sociedade Europeia da Cardiologia de 2019, apresentado esta tarde em Lisboa, Portugal surge em quarto lugar na lista dos países onde se morre menos por doença coronária (pessoas com antecedentes de enfarte ou com sintomas de pressão no coração). Ocupa o 11.º lugar no número de óbitos por cada milhão de habitantes, no caso dos homens, e o 12.º no caso das mulheres. Estes resultados só são inferiores aos dos países que atribuem mais verbas às despesas com a saúde, essencialmente, os da Europa Ocidental.

"Estamos bem em relação às doenças sistémicas, os enfartes, resultado do esforço que andamos a fazer há décadas. Não estamos tão bem na mortalidade relativa ao AVC, porque a estrutura só agora está a ser montada", adianta Vítor Gil, presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, ao DN. Em 2017, últimos dados disponíveis na plataforma sobre a Mortalidade da Direção-Geral da Saúde, morreram 4073 pessoas vítimas de Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC).

Ainda há muito caminho por explorar na divulgação das medidas preventivas. Se por um lado, Portugal não revela resultados preocupantes em termos de hábitos tabágicos ou de obesidade (por comparação a outros países europeus). Por outro, tem níveis elevados de incidência da diabetes, de hipertensão arterial, de consumo de álcool, causas associadas à doença cardíaca. Em 2018, as mortes por excesso de álcool registaram os valores mais elevados dos últimos cinco anos. Morreram 1087 pessoas.

Mas o pior é a ausência de atividade física. Portugal é o segundo país com maior taxa de inatividade, ou seja, com menor número de habitantes a realizar menos de 150 minutos de desporto moderado ou 75 minutos de atividade física intensa. Sendo que mais de 40% da população portuguesa não faz exercício de qualquer tipo.

Os dados em análise foram baseados em informação disponibilizada pela Organização Mundial de Saúde, pelo Banco Mundial, pelo Instituto de Métrica e Avaliação em Saúde, pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e pelas Sociedades de Cardiologia de cada um dos países.

Mais cardiologistas, mas menos enfermeiros e camas

A nível de recursos humanos, Portugal está acima da média no número de médicos na área da cardiologia, mas tem falta de enfermeiros. Proporcionalmente, tem mais cardiologista do que a Noruega e a Dinamarca, mas menos do que França, a Islândia e a Itália.

"Temos um número de cardiologista adequado e um número de enfermeiros deficitário. Já dentro das subespecialidades de cardiologia as coisas não estão bem. Isso resulta de não haver um planeamento adequado. É atribuído um número de vagas para cardiologia, mas depois a formação dos cardiologistas em áreas especificas é feita um bocadinho ao calhas: não se sabe quantos especialista em ecocardiografia são necessários no país", aponta Vítor Gil.

Faltam também, por comparação ao rácio europeu, camas dedicadas a esta área, quer nos centro especializados, quer nos cuidados intensivos dos hospitais. Quanto aos equipamentos, Portugal é o quinto país com maior número de aparelhos de TAC por cada milhão de habitantes. Tem mais do que a Dinamarca, a Finlândia e o dobro de Espanha. No entanto, esta análise não teve em conta a idade dos aparelhos. Poderão estar incluídos equipamentos já obsoletos.

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