Portugueses acima da média da OCDE, espanhóis estão piores. Porquê?

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Portugueses acima da média da OCDE, espanhóis estão piores. Porquê?

A imprensa espanhola dá conta dos piores resultados de sempre do país no teste internacional que mede o conhecimento dos alunos de 15 anos. A Comunidade de Madrid até pediu que os dados não fossem publicados. Em Portugal, celebra-se a manutenção acima da média da OCDE.

É mais o que os separa do que aquilo que os une. Lado a lado no mapa, Espanha e Portugal deram entrada no mesmo exato ano na União Europeia (1986) e em datas próximas na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) - em 1955 e 1948, respetivamente. Mas, no que toca à educação dos seus jovens, rumam em direções contrárias. Enquanto um celebra, outro lamenta os resultados do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), divulgados esta terça-feira. Ainda que Portugal tenha descido na área científica, manteve-se acima da média da OCDE e o governo congratula o caminho ascendente nas três áreas abordadas pelo PISA. Mas, em Espanha, a imprensa fala num "retrocesso educativo" no nosso país vizinho, com dados abaixo da média. Os especialistas culpam os professores e a falta de aposta na ciência.

"Espanha retrocede em ciências para o seu pior nível em 20 anos", escreveu o jornal El País, na capa desta quarta-feira. Desde a primeira edição do PISA, Espanha nunca como agora alcançou resultados tão baixos em Ciência, uma das três áreas-chave avaliadas pelo PISA - o relatório trianual que avalia os conhecimentos dos alunos de 15 anos de vários países e economias.

Em 2006, alcançava 488 pontos, ficando acima de países como a Alemanha. Um valor superado pela primeira vez em 2012, para 496 pontos. A vitória foi sol de pouca dura, sendo que na edição seguinte, de 2015, voltou a descer para 493, ainda que se tenha mantido acima da média da OCDE. E o sentido decrescente espanhol nas ciências parece ter vindo para ficar. Na mais recente edição, de 2018, divulgada esta terça-feira, Espanha retrocedeu dez pontos percentuais, confirmando a tendência. Coloca-se, assim, ao lado de países como a Hungria e a Lituânia, num ranking liderado pela China e Singapura, mas pior do que Portugal.

Também Portugal retrocedeu na área científica, ao retomar os resultados próximos do nível observado em 2009 e 2012. O que o ministro da educação Tiago Brandão Rodrigues justifica com as políticas adotadas na anterior governação, entre 2011 e 2015, no decorrer da crise económica, em que a tutela fez "uma aposta exacerbada noutras disciplinas, deixando um conjunto de outras de parte, nomeadamente as Ciências Naturais".

Segundo o Instituto de Avaliação Educativa (IAVE), que coordena a versão portuguesa, a descida não é mais do que um espelho da "tendência decrescente da pontuação média da OCDE na avaliação das ciências que já em 2015 apresentou uma quebra de quatro pontos em relação a 2006". Assim sendo, "quando se analisa a variação média em ciclos de três anos, Portugal é um dos 13 países que apresenta uma variação positiva e significativa de mais 4,3 pontos na avaliação das ciências". E, ao contrário de Espanha, continua acima da média internacional.

Também em Matemática, os jovens espanhóis de 15 anos obtiveram menos cinco pontos (481) relativamente ao ano com o melhor resultados, em 2015 (486). A avaliação contou com a participação de 36 mil estudantes de 1102 escolas, que o El País diz ser "uma amostra maior que o normal, o que confere ao resultado um grande valor analítico e comparativo".

Espanha está perante um "retrocesso educativo" e o cenário atual "obriga a procurar urgentemente as possíveis causas para atuar". "Caso contrário, podemos estar diante de um ponto de viragem para pior ao qual não nos podemos permitir", lê-se no editorial desta quarta-feira do mesmo jornal.

"Tão grave quanto o declínio na nota geral é a grande diferença observada entre as comunidades autónomas", escreve ainda El País. As diferenças são inquestionáveis: se Espanha fosse a Galiza (com 510 pontos), o país estaria entre os melhores do mundo, quase ao nível de determinadas partes da China, no topo do ranking, na área de Ciência; da mesma forma que se fosse Ceuta (415 pontos) ficaria entre os piores. Assim como se Portugal fosse a região de Coimbra, subiria 14 lugares em Leitura (de 492 para 516), do 22.º para o 8.º, igualando o Japão e aproximando-se dos primeiros países do ranking.

Se Espanha fosse a Galiza (com 510 pontos), o país estaria entre os melhores do mundo, quase ao nível de determinadas economias da China, no topo do ranking, na área de Ciência

A culpa é dos professores, dizem especialistas

Certo é que Portugal é o único, entre os dois, com razões para festejar. É, aliás, "caso único na OCDE", como lembrou o ministro da Educação esta quarta-feira. Até mesmo "a maior história de sucesso na Europa do PISA", segundo o diretor de Educação e Competências da OCDE, Andreas Schleicher.

As razões diretas para estes tempos de glória que o país vive podem ser difíceis de encontrar. Mas a formação cada vez maior dos adultos, pais destes jovens avaliados, é uma delas. Quem o diz é a coordenadora da Nova SBE Economics of Education Knowledge Center, Ana Balcão Reis. "Não podemos dizer que se deve a uma política específica, nem mesmo ao conjunto de políticas aplicadas ao longo dos anos. Mas uma coisa é certa: estes jovens são filhos de pais mais formados e sabemos que isso influencia os seus resultados escolares", explica a especialista.

Do lado de Espanha, a culpa para a tendência decrescente é colocada ao colo do próprio corpo docente. Segundo a Confederação das Sociedades Científicas de Espanha (COSCE), um organismo que representa 82 sociedades científicas e 40 mil cientistas, os professores espanhóis não são suficientemente qualificados, escreve o El País. "Não temos uma boa formação de professores em comparação com outros países. Muitos não são especialistas na área e, devido à falta de especialização, nasce um forte desinteresse dos alunos", esclarece uma das porta-vozes da COSCE, Paloma Fernández.

Além disso, acrescenta a especialista, a cultura científica nas escolas está enfraquecida. "Temos que estimular a cabeça das crianças desde o início e, assim, melhorar a cultura científica em geral, a dos professores das escolas primárias em particular", disse ao jornal espanhol.

Contudo, segundo o El País, os resultados podem ser o efeito de determinadas políticas adotadas ao longo dos anos. Os alunos postos agora à prova e que deram origem aos resultados da última edição do PISA "são a primeira geração criada na Espanha num contexto de cortes educacionais, iniciado em 2011". Além disso, "existem 62% mais professores precários do que em 2009" e a ensinar "20 horas por semana", de acordo com os dados do sindicato das Comissões Operárias, uma confederação sindical espanhola.

"É muito triste que a OCDE, que é um órgão de grande prestígio, apresente alguns dados que sabem que estão errados"

Comunidade de Madrid pediu à OCDE para não divulgar dados

Semanas antes da divulgação do relatório PISA, a OCDE anunciou que não iria incluir os dados de Espanha relativamente à Leitura devido a anomalias detetadas na prova feita aos alunos. Com o documento lançado esta terça-feira, chegou a confirmação: Espanha não conta para a média nesta área de avaliação específica. Mas a Comunidade de Madrid vai mais longe, dizendo que nenhuma das áreas deveria ser contabilizada no estudo internacional.

No final de novembro, a dias da publicação dos resultados, o El Mundo escrevia que a Comunidade de Madrid tinha solicitado à OCDE que retirasse todos os resultados do relatório PISA a propósito de Espanha. A requisição foi justificada por "erros de calibre considerável" que terão confundido as respostas dos alunos, confrontados com questões como: 'Os aviões são construídos com cães?'.

Embora a equipa que elabora o PISA tivesse reconhecido ter detetado "resultados improváveis" nas provas, os dados relativos a Matemática e Ciência foram publicados. A OCDE entendeu que "os dados de Matemática e Ciências da Espanha estão totalmente de acordo com os padrões do PISA" e não foi encontrada "nenhuma anomalia que possa colocar sua publicação em questão", esclareceu, em declarações ao El Mundo.

Segundo o conselheiro para a Educação e Juventude da Comunidade de Madrid, foram detetadas quatro irregularidades na avaliação aos alunos espanhóis. A primeira deve-se à contaminação dos dados da Leitura para as duas restantes áreas, pois mais de metade (59,5%) só fizeram a prova relativa a esta área e não a Matemática e Ciência, por isso, os seus resultados influenciaram todos os outros. "Se uma perna estiver errada e a perna contaminar as outras duas, não será possível publicá-las, principalmente se você for um organismo sério", disse Enrique Ossorio.

Por outro lado, suspeita que alguns examinadores, subcontratados pelo Ministério da Educação e distribuídos pelas diferentes escolas participantes, terão dado instruções confusas aos estudantes, por não estarem a ser supervisionados. No grupo de estudantes que esteve na sala com examinadores não supervisionados apresentaram cinco vezes mais erros do que aqueles que estiveram na presença de examinadores sob supervisão.

Em terceiro lugar, a Comunidade de Madrid denuncia que os 70 alunos que não participaram no PISA foram pontuados com zero pontos, diminuindo drasticamente a média. Mas não é a única anomalia técnica. Segundo Enrique Ossorio, foram encontradas "inúmeras falhas" no banco de dados do relatório, com exames relativos a 2017, quando afinal dizem respeito a 2018. "É muito triste que a OCDE, que é um órgão de grande prestígio, apresente alguns dados que sabem que estão errados", acrescentou.

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