Fátima aprendeu a fazer penteados com as Barbies e construiu um sonho: ser cabeleireira

Eles têm o sonho de um dia poder ter uma profissão. Sabem que o direito ao trabalho ainda não é para todos, sobretudo para aqueles que vivem com deficiência. Por isso, a APPACDM lança a campanha Eu Quero Ser, no dia em que se fala mundialmente sobre trissomia 21, como um grito de alerta.

Fátima é pequenina, "rochunchuda", como diz a mãe, muito meiga e carinhosa, só não gosta de ser contrariada. Adora pintar, era isso que a mãe, Maria Claudina, gostava que fosse o sonho dela. Mas o sonho de Fátima é outro: quer ser cabeleireira.

Aprendeu a fazer penteados com as suas bonecas. Queria que as suas Barbies fossem as mais lindas. "Fazia também penteados à mãe", conta-nos. Quando andava na escola Paula Vicente, na Ajuda, chegou a trabalhar todas as quartas-feiras num cabeleireiro. "Ela andava toda entusiasmada", explica Maria Claudina. Mas quando saiu daquela escola deixou também o cabeleireiro.

Entrou para a Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental de Lisboa, no centro da Ajuda. Fátima Castro tem 26 anos e é portadora de trissomia 21. Ela é o primeiro rosto da campanha que a APPACDM lança hoje com o lema "Eu quero ser".

Uma campanha que pretende ser um grito de alerta à opinião pública para que "todas as pessoas tenham direito a uma oportunidade. O nosso grito de alerta não é só para os jovens com trissomia 21, mas para todos os jovens que vivam com deficiência. Eles sabem expressar-se, eles têm uma opinião, eles não são figuras. Eles contam para a sociedade. É isto que queremos dizer à sociedade, é isto a que queremos dar voz", explica ao DN Filomena Abraços, da direção da APPACDM.

A campanha Eu Quero Ser é hoje lançada para aproveitar o Dia da Trissomia 21 e para assinalar os 57 anos da própria associação. Durante quase um ano, a APPACDM vai lançar dez vídeos com casos de jovens que irão explicar o seu sonho e o desejo por uma profissão. Fátima quer ser cabeleireira, mas outros querem experimentar ser cozinheiros, jardineiros, massagistas, modelos, costureiros, auxiliares de ação educativa ou atores.

Esta iniciativa vai contar ainda com o apoio de algumas personalidades, porque "mais do que as palavras é preciso motivar com ações a comunidade para a inclusão no mercado de trabalho de todos estes jovens.

Fátima já começou a concretizar o seu sonho. Todas as segundas-feiras vai ao salão MetroStudio trabalhar com Susana Bravo. "Tem sido uma experiência muito boa. Tenho gostado muito de trabalhar com a Susana", conta-nos. Ela já sabe que há "várias maneiras de lavar a cabeça e que há várias formas de pentear. Desde miúda que gosto de fazer isto e espero que corra bem", explica com à vontade.

Por agora, especifica a mãe, "é só um dia por semana, depois logo se vê, depende de como irá correr a experiência". Maria Claudina confessa ter outro sonho para a filha: "Gostava que ela desenvolvesse mais as suas capacidades para a pintura. Tem muito jeito também", mas admite que, desde pequena, "ela pensa em ser cabeleireira. Gostava de pentear e de dar massagens e tinha muito jeito".

Os pais de Fátima apoiam-na neste sonho, embora, às vezes, "haja sempre algum receio de como tudo pode correr, mas fazemos tudo o que nos é possível para ela ser minimamente independente."

Fátima sai de casa pelas 07.00, quando a carrinha da associação a vai buscar, regressa pelas 17.30/18.00. Confessa que, depois de um dia passado no Parque dos Poetas, "estou um bocado cansada". Despacha-nos. Mas, repete, "adoro a experiência".

Em Portugal, estima-se que há mais de 15 mil pessoas com síndrome de Down ou trissomia 21 - uma anomalia genética causada pela presença integral ou parcial de uma terceira cópia do cromossoma 21, que se reflete no desenvolvimento infantil e nas feições faciais.

Todos os anos, segundo dados oficiais, nascem entre cem e 120 bebés com esta anomalia, um em cada 700. Por eles, e por todos os outros com outras patologias, a APPACDM espera que esta "campanha seja mesmo um grito de alerta."

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