Xenofobia crescente na mira de Marcelo: "Somos uma pátria de emigrantes."

No dia que em tempos foi "Dia da Raça", o Presidente da República pediu que se recebam melhor os estrangeiros que procuram uma vida melhor. Porque os portugueses fizeram o mesmo.

O Presidente da República aproveitou o discurso do Dia de Portugal, ontem, no Funchal, para, mais uma vez, fazer um discurso a tentar travar a influência popular crescente de discursos políticos anti-imigração.

"Nunca nos esqueçamos disto: somos uma pátria de emigrantes e, por isso, estranho será se além de fazermos mais pelos nossos emigrantes não pensarmos e sentirmos que não podemos querer para os nossos emigrantes aquilo que negamos aos emigrantes dos outros entre nós acolhidos", realçou Marcelo Rebelo de Sousa.

Em relação aos estrangeiros que escolhem Portugal para viver - "tantas vezes esquecidos nesse mundo subterrâneo que serve à nossa vida e que fazemos de conta que não existe ou existe pouco" - "é necessário recebermos ainda mais do que temos recebido, lembrando as centenas de milhares que voltaram de outros continentes há meio século".

Lembrando ainda "os muitos outros que durante séculos chegaram e permaneceram ou chegaram e partiram num vaivém que é a nossa maneira de ser dos portugueses" pediu "que os recebamos [aos imigrantes] de forma mais solidária", assim como muitos países estrangeiros receberam centenas de milhares de portugueses que deixaram o país em busca de uma vida melhor.

Os imigrantes - disse o Chefe do Estado - "dão-nos a natalidade que não temos, os serviços básicos de que precisamos, dão-nos contributos para a riqueza nacional de que carecemos". E até na pandemia foram tantos os que "nos ajudaram a não parar setores inteiros, como o da construção civil".

"Reconstruir tecido social"

Referindo a própria Madeira - de onde ao longo de muitas décadas milhares de famílias partiram em busca de uma vida melhor, nomeadamente para a Venezuela e África do Sul, o Presidente acrescentaria: "Esta terra chama-nos também à razão perante alguns dos nossos emigrantes que, para fugirem dos dramas das paragens onde começaram ou recomeçaram o seu caminho, se acolhem às origens".

Como não podia deixar de ser, a pandemia covid-19 e os seus efeitos ocuparam um lugar importante no discurso presidencial. Marcelo ligou o assunto aos milhões de euros que brevemente começarão a chegar vindos dos fundos de reconstrução da UE.

"Este 10 de Junho interpela-nos a não desperdiçarmos o acicato dos fundos que nos podem ajudar evitando deles fazer, em pequeno e por curtos anos, o que fizemos tantas vezes na nossa História, com o ouro, com as especiarias, com a prata, mais perto de nós com alguns dos dinheiros comunitários, sendo uma terra de passagem para outros destinos ou porto de abrigo para muitos poucos de nós", afirmou.

E o que importa, sublinhou ainda, é usar os recursos não com perspetivas de curto prazo mas com o olhar posto num horizonte muito mais largo: "É necessário ter nestes anos um apelo à convergência para aproveitar recursos, recriar espírito novo de futuro para todos, e não uma chuva de benesses para alguns, que se veja com olhos de interesse coletivo e não com olhos de egoísmos pessoais ou de grupo."

"Hoje somos aqui dezenas, centenas, milhares ao longo destas avenidas, destas ruas, deste Funchal, desta Madeira, deste Portugal, a querer dizer que a vida continua, a nossa vida continua, a nossa vida recomeça."

Aproveitou, por outro lado, não só para homenagear o pessoal médico que esteve na linha da frente no combate à pandemia ("uma palavra ainda mais forte e mais rendida e emocionada para com as mulheres e os homens que na saúde por todo o país salvaram vidas e velaram por pacientes") mas também, e sobretudo, as Forças Armadas. O Presidente condecorou com a Ordem de Cristo o Estado-Maior General das Forças Armadas e os estados-maiores dos três ramos - prometendo que fará o mesmo brevemente com as forças de segurança.

Quanto à condecoração de ontem, considerou que os militares "bem a merecem" pela "intervenção que tiveram nos lares, com a emergência, pela preparação das escolas, pela garantia da vacinação em massa, por terem estado sempre quando, onde e como era imprescindível".

"A vida continua"

Marcelo Rebelo de Sousa chegou a pé pela Avenida do Mar à tribuna montada na Praça da Autonomia, no Funchal, pelas 11:00, e à chegada recebeu aplausos da população que se concentrava no local para assistir à cerimónia. Deixou também a pé o local, cumprimentando as pessoas pelo caminho até à Reitoria da Universidade da Madeira, onde foi almoçar.

"Hoje somos aqui dezenas, centenas, milhares ao longo destas avenidas, destas ruas, deste Funchal, desta Madeira, deste Portugal, a querer dizer que a vida continua, a nossa vida continua, a nossa vida recomeça", concluiu o Presidente.

Segundo a Lusa, Marcelo Rebelo de Sousa percorreu uma parte da avenida e foi saudando as pessoas, tirando `selfies´, dando autógrafos, ora de um lado, ora do outro, num trajeto em ziguezague e sem distanciamento físico que durou cerca de uma hora, num dia de céu limpo e muito sol, o último da sua estada na Madeira.

joao.p.henriques@dn.pt

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