Voluntários dão explicações de borla a estudantes universitários 

Estudantes, professores e investigadores dão explicações voluntárias a alunos do ensino superior com comprovadas dificuldades económicas. Neste momento, estão inscritos mais de 30 alunos e cerca de 50 explicadores

Uma vez por semana, Fábio Carreira reúne-se com três alunos da Escola Superior Agrária de Coimbra para dar explicações de Análise Matemática durante duas a três horas. Não recebe nada por isso. "Ganho experiência, aprendo a ouvir as pessoas, a compreender dúvidas, a explicar a matéria", diz ao DN. O aluno do mestrado em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra juntou-se ao NExT - Núcleo de Explicações Voluntárias, promovido pelo Instituto Universitário Justiça e Paz, para ajudar estudantes com necessidades académicas e económicas. Um projeto para a comunidade académica de Coimbra que no ano passado contou com 48 explicadores voluntários - estudantes, professores e investigadores - e 33 explicandos.

No segundo semestre do ano letivo que passou, Fábio Carreira, 23 anos, ajudou um aluno do curso de Engenharia e Gestão Industrial na cadeira de Métodos Numéricos. "Não há melhor sensação para um explicador do que um explicando perceber a matéria", conta. E foi isso que aconteceu. O colega não só conseguiu ganhar "métodos de estudo", como passou à disciplina. "É gratificante. Na situação em que eles estão - alunos bolseiros - eu também já estive. Isto é muito importante para quem não pode mesmo pagar explicações".

Matemática, engenharia, química e bioquímica são as áreas mais solicitadas

É o caso de Carolina Sanches, de 21 anos, aluna do 4º ano do curso de Engenharia Civil da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC: "Deixei de ter bolsa no 1º ano porque tinha uma cadeira em falta. Entretanto, os problemas financeiros da família agravaram-se e no 1º semestre do ano passado entrei como explicanda no NExT para ter apoio a Análise Matemática 3". No segundo semestre, teve explicações de Resistência de Materiais. Em ambos os casos, foi ajudada por estudantes, em sessões de duas horas, duas vezes por semana. Reuniam em salas de estudo, ou até na zona da restauração de centros comerciais. Onde desse jeito a ambos. "Os explicadores sempre estiveram muito disponíveis. Até por mensagens tiravam dúvidas", destaca. Carolina nem sequer equacionou pagar explicações. "Para estudantes universitários, são extremamente caras. Chegam a custar 40 euros por hora. Com propinas, casa e alimentação para pagar, era impensável".

O NExT nasceu em 2013, por iniciativa do Instituto Universitário Justiça e Paz (organismo da diocese de Coimbra para a Pastoral do Ensino Superior) e do Centro Académico Santo António, sendo atualmente dinamizado apenas pelo primeiro. "O grande objetivo é ajudar estudantes com necessidades económicas, académicas e sociais, para que tenham acesso a explicações voluntárias, que lhes permitam melhorar o aproveitamento", explica a socióloga Raquel Azevedo, coordenadora do projeto. Muitos perderam a bolsa, "mas não deixaram de ter dificuldades económicas." Um dos objetivos, prossegue, é que voltem a ter esse apoio. Mais do que ajudar o estudante a conseguir uma nota positiva na disciplina, Raquel Azevedo diz que se pretende que este "reorganize o seu método de estudo e que seja incentivado a tirar dúvidas com o professor."

Cada par tem um tutor, que acompanha as explicações até ao final do semestre. Embora o IUJP disponibilize espaços para as sessões, estas podem decorrer em qualquer lugar, a combinar entre explicando e explicador. "A maioria dos voluntários são estudantes, mas também há docentes - no ativo e aposentados - e investigadores", adianta Raquel Azevedo. A proposta é que existam, no mínimo, dez horas semestrais de explicação. Mas muitos fazem mais.

Como trabalha num centro comercial em Coimbra, Gizelli Silva, 37 anos, aluna do 3º ano do curso de Serviço Social na Faculdade de Psicologia da UC, tinha a facilidade de ter explicações de Estatística ali mesmo. "Reuni-me com a explicadora, a investigadora Lucília, do IPO, uma vez por semana ao longo do semestre. Ajudou-me muito. Orientava-me no estudo, tirava dúvidas, ensinava-me a matéria". Casada e mãe de duas crianças, Gizelli não tinha hipóteses de pagar explicações. "A estatística não entrava na minha cabeça. Os colegas tentavam ajudar, mas não conseguiam". As explicações ajudaram não só a ter uma nota positiva à cadeira, como também a fazer Metodologia Científica, "que era uma disciplina muito parecida".

Matemática, engenharia, química e bioquímica são as áreas mais solicitadas. Para este semestre, terminaram ontem as inscrições de alunos, mas os explicadores podem candidatar-se ao longo de todo o ano.

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