Vacinação. Quanto nos falta para atingir a imunidade de grupo?

Um ano depois de declarada oficialmente a pandemia de ​​​​​​​covid-19, o mundo disputa as vacinas como passaporte para o futuro, sem certezas absolutas sobre a eficácia de imunização.

Inoculados. É assim que queremos estar (a maioria), desde que soubemos da aprovação da primeira vacina contra a covid-19, no final do ano passado. Não foi há muito tempo, mas a rapidez com que fluem as notícias sobre as novas vacinas e os planos de vacinação assemelham-se a uma overdose, como se a descoberta milagrosa tivesse acontecido já noutro século. Foi no final de outubro que começaram a surgir as primeiras certezas: em menos de um ano a comunidade científica conseguiu a tão esperada vacina; em dezembro, a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) emitiu parecer científico favorável à vacina desenvolvida pela Pfizer e pela BioNTech. Seguiu-se a aprovação, por parte de Bruxelas.

Como está a vacinação a decorrer em Portugal?

As primeiras doses chegaram a Portugal ainda em 2020, e até ao final desta semana tinham sido administradas a mais de um milhão de pessoas (1 078 763) em todo o território, sendo que apenas 306 420 pessoas já levaram a segunda dose, segundo o contador do Serviço Nacional de Saúde. Os dados oficiais estimam que mais de metade da população com mais de 80 anos já foi vacinada.

Mas vários especialistas apontam a importância de vacinar a faixa etária abaixo. É que as idades mais comuns em unidades de cuidados intensivos têm entre 70 e 79 anos ( 33%) e 60 a 69 anos (ou 31%). Mas esse é precisamente o grupo que figura entre os menos protegidos, já que apenas 2% já tem a vacinação completa. De resto, essa percentagem é inferior à das faixas etárias mais jovens: 3% entre os 50 e os 64 anos e 4% entre os 25 e os 49 anos.

O processo de vacinação em Portugal está a correr razoavelmente, quando comparado com outros países. Esta semana estava 3,58 pontos percentuais acima da taxa de vacinação da União Europeia.

E tendo em conta que arrancou aos solavancos, logo com uma mudança na task force, pouco mais de um mês depois do início do plano. Com a demissão de Francisco Ramos, a coordenação do plano de vacinação em Portugal foi assumida pelo vice-almirante Gouveia e Melo. Mantendo o atual ritmo de vacinação, só no outono de 2022 deverão estar vacinados os 70% de adultos definidos pelo Governo para o final deste verão. Para isso, será preciso quadruplicar a capacidade de vacinar, com o necessário reforço de meios (e de vacinas).

E no resto do do mundo?

De acordo com os últimos dados recolhidos pela plataforma "Our World in Data" - que está a monitorizar os dados da vacinação divulgados por cada país, a partir da universidade de Oxford - é no arquipélago das Seicheles (África Oriental) que se regista a maior percentagem de população vacinada. Os dados mais recentes apontam para 27,02% da população já completamente vacinada, sendo que quase 59% já recebeu uma ou mais doses da vacina. Seguem-se Israel (46, 21% totalmente vacinada e 58,61% já com uma dose), Emirados Árabes Unidos (22,12% da população completamente vacinada e 35,19% já com uma dose).

O Reino Unido aparece em 4º lugar neste ranking, sendo o primeiro da Europa (e agora fora da União Europeia). Portugal ocupa o 21º lugar nessa lista, logo a seguir a Espanha, acima de países como França, Alemanha ou Itália, entre outros.

Os modelos mais conservadores indicam que a imunidade de grupo se atinge quando 7 em cada 10 pessoas estiverem vacinadas. O objetivo europeu é o de chegar ao fim do verão com 70% dos adultos imunizados, ou seja, com as duas doses da vacina tomadas.

O que é que Israel tem?

Israel tem sido apontado como um exemplo desde o início da vacinação, ocupando o segundo lugar na lista divulgada pelo site Our World in Data.

Enquanto as campanhas de vacinação progridem lentamente em muitos países da União Europeia (UE) devido a falhas de fornecimento, Israel dispõe de mais doses do que aquelas que necessita. Desde o início da campanha de vacinação, em finais de dezembro de 2020, quatro milhões de israelitas receberam já a primeira dose da vacina da Biontech e Pfizer, o que corresponde a 43% da população do país. Estima-se que mais de 80% das pessoas com mais de 60 anos já foram imunizadas. Por outro lado, quem tiver mais de 16 anos e quiser tomar a vacina já pode fazê-lo, ao contrário do que sucede na maioria dos países da Euopa e do mundo, em que só a partir dos 18 é recomendada.

A este ritmo, quando chegarmos ao final de março Israel terá vacinado metade da sua população com as duas doses da vacina. Um dos "segredos" do sucesso prende-se com o facto do país (com 9,3 milhões de habitantes) ter garantido logo de início grandes quantidades de vacinas, ao abrigo dos termos contratuais que Israel negociou com as fabricantes. Foi o culminar de um processo de acordos secretos e testes-piloto que marcaram uma campanha de vacinação precoce. De resto, há ainda a proximidade com o CEO da Pfizer. O presidente Netanyahu revelou que Albert Bourla é descendente de uma família judaica de Thessaloniki e é considerado "um grande amigo" de Israel.

Que vacinas já estão autorizadas na Europa?

A Comissão Europeia (CE) concedeu a autorização condicional de introdução no mercado à vacina desenvolvida pela BioNTech-Pfizer em 21 de dezembro de 2020. Foi a primeira a alcançar esse estatuto, seguindo-se a vacina desenvolvida pela Moderna, em 6 de janeiro de 2021, e a vacina desenvolvida pela AstraZeneca, em 29 de janeiro, na sequência de uma avaliação positiva da Agência Europeia de Medicamentos (EMA) relativa à sua segurança, qualidade e eficácia.

Já esta semana foi aprovada a vacina da Janssen, propriedade da Johnson & Johnson. É a quarta na União Europeia e deve começar a ser distribuída em meados de abril, após autorização da Comissão Europeia. Na verdade, esta era a vacina esperada com ansiedade, uma vez que as suas particularidades podem mudar o panorama da vacinação mundial.

"Com esta última opinião positiva, as autoridades de saúde europeias terão mais uma opção para combater a pandemia e proteger a vida e a saúde dos cidadãos", afirma Emer Cooke, diretor-executivo da Agência Europeia do Medicamento, no texto em que revela a aprovação deste novo fármaco, salientando que se trata da primeira vacina unidose.

A fórmula da vacina da Johnson & Johnson tem como base a utilização de um adenovírus inofensivo (vetor viral), semelhante ao vírus que causa a gripe comum. Os investigadores da farmacêutica trocaram uma pequena parte da genética do adenovírus pela proteína "spike" do SARS-CoV-2.

Que países europeus usam outras vacinas?

Era agosto de 2020 quando a Rússia anunciou a vacina Sputnik V, até agora ainda não reconhecida pela Comissão Europeia. Apesar disso, alguns países da Europa decidiram usá-la, a começar pela Hungria. De resto, além de alguns países da América Latina, é no leste europeu (incluindo a própria Rússia) que se assiste ao uso da vacina, mesmo quando os testes estavam ainda no início.

Segundo dados dos fabricantes russos, mais de 50 países já se registaram ou estão em negociação com a Sputnik V, nomeadamente o Brasil. República Checa, Eslováquia, Croácia e Áustria são os países que até agora manifestaram interesse em obter a vacina russa, ainda não homologada pela Agência Europeia do Medicamento. O mesmo acontece com as vacinas da Novavax e da CureVac AG. As três estão em processo de "exames contínuos", que continuarão até estarem disponíveis dados suficientes para uma autorização formal de introdução no mercado.

Note-se que há ainda as duas vacinas produzidas na China: a Sinopharm e a Coronavac, da Sinovac. A última foi aprovada em fevereiro pelas autoridades de Pequim. A fase 3 dos ensaios clínicos foi realizada no Brasil, Chile, Indonésia e Turquia, com um total de 25.000 voluntários.

Os cidadãos sabem que vacina estão a receber?

Quando as vacinas obtêm a autorização condicional de introdução no mercado, o folheto informativo com informações pormenorizadas sobre a vacina específica é traduzido em todas as línguas e publicado em formato eletrónico pela Comissão Europeia. De modo a que todos os profissionais de saúde e pacientes tenham acesso a um folheto informativo em formato eletrónico na sua própria língua. De resto, os produtores de vacinas são responsáveis por implementar os mecanismos necessários para garantir que cada paciente recebe, mediante pedido, o folheto informativo na sua língua, sem sobrecarregar os profissionais de saúde que administram a vacina.

Uma pessoa vacinada poderá propagar a doença?

Ainda não se sabe. Até à data nenhum estudo conseguiu responder à pergunta com segurança, uma vez que "serão necessárias avaliações suplementares para averiguar o efeito da vacina na prevenção da infeção assintomática, incluindo dados provenientes de ensaios clínicos e da utilização da vacina após a autorização", revela a Comissão Europeia. E por isso, por enquanto, "mesmo as pessoas vacinadas terão de usar máscara, evitar ajuntamentos em recintos fechados e respeitar o distanciamento físico". Mas há outros fatores, como o número de pessoas vacinadas e o modo como o vírus se propaga nas comunidades, que poderão também levar à revisão destas orientações.

Portugal tem condições para fabricar vacinas?

A capacidade de produção de vacinas na UE já é substancial, mas há quem defenda que o fabrico deveria ser, também ele, democratizado. Em fevereiro, o reitor da universidade de Coimbra, Amílcar Falcão, em entrevista ao DN, recentrou a questão ao afirmar que "Portugal devia ter fábrica de produção de vacinas, que é uma coisa que se faz em seis meses". O secretário de Estado da Internacionalização, Eurico Brilhante Dias, já disse que o Governo quer Portugal no mapa da produção da vacina e que, inclusive, já contactou 41 empresas e laboratórios de 11 países para negociar a entrada do país na produção de vacinas virais.

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