Covid-19. Profissionais com dúvidas e famílias preocupadas

Portugal vai vacinar jovens dos 12 aos 15 anos com comorbilidades, mas admite que jovens saudáveis também o sejam. Médicos dizem que situação tem de ser esclarecida. E há famílias preocupadas.

A diretora-geral da Saúde anunciou na sexta-feira que a vacinação dos 12 aos 15 anos seria apenas para os jovens com comorbilidades. Uma decisão que teve por base as conclusões do parecer técnico da Comissão Técnica de Vacinação. Mas, no final da conferência de imprensa, Graça Freitas admitiu que deve ser dada a possibilidade de vacinação a todas as crianças desta faixa etária por indicação médica e de acordo com a disponibilidade de vacinas, remetendo, no entanto, uma decisão sobre o acesso universal destas idades só para mais tarde.

Um dia depois, no Brasil, o Presidente da República veio dizer que as autoridades de saúde não proibiram a vacinação contra a covid-19 para crianças saudáveis. E a DGS esclareceu que crianças saudáveis só serão vacinadas com aprovação do médico.

A confusão instalou-se. Profissionais e pais querem saber com o que contam afinal. O bastonário dos médicos, Miguel Guimarães, que na semana passada afirmou que a ordem aceitaria a decisão da diretora-geral sobre o assunto, ontem disse ao DN que "esta norma não esclarece nada. Pelo contrário, vem criar um problema grave. A confirmar-se a possibilidade de os pais pedirem a vacinação para jovens saudáveis e de esta ser dada ou não, de acordo com a opinião dos médicos, vão ser criadas situações de desigualdade".

Em Portugal, dos 972 127 infetados mais de 97 mil são jovens dos 10 aos 19 anos.

Numa nota publicada mais tarde, a Ordem dos Médicos (OM) disse lamentar "uma decisão que cria desigualdades e que contribui para a entropia no processo de vacinação".

Ao DN, pediatras que inicialmente saudaram a posição da DGS, por defenderem que a vacinação deve ser dada só a jovens com comorbilidades e por estes correrem mais riscos, preferiram não proferir mais declarações "até a situação ficar esclarecida".

Elementos do colégio de pediatria da OM fizeram o mesmo. Francisco Abecassis, pediatra que integra este órgão, disse ao DN que o colégio não iria comentar a situação, ficando a aguardar "pela publicação da norma para se saber o que está mesmo definido".

A Ordem dos Enfermeiros (OE), por seu lado, também não quis fazer comentários sobre a situação, por considerar que "as declarações da diretora-geral foram esclarecedoras e que vão ao encontro do nosso parecer", disse ao DN fonte da OE.

Parecer onde se pode ler: "Considerando a evidência científica à data e ponderado o facto de que os benefícios para o grupo etário pediátrico saudável parecem ser limitados, entende-se ser prudente aguardar por uma maior e mais robusta evidência científica quanto aos benefícios e efeitos a médio e longo prazo, antes de ser tomada uma decisão de vacinação universal deste grupo etário".

O parecer foi emitido após consulta ao Colégio de Especialidade em Enfermagem de Saúde Infantil e Pediátrica, que considerou, porém, que nas crianças, com 12 anos ou menos, com comorbilidades associadas a risco elevado para a covid deve ser aconselhada a vacinação pelo profissional responsável pelo seu acompanhamento".

"Esta decisão da DGS contraria a tese de que ainda não há evidência suficiente e cria desigualdades entre as famílias que conseguirão ter acesso a essa mesma prescrição e as que não terão."

A Direção-Geral da Saúde (DGS) ainda não divulgou a norma que define a vacinação para a faixa etária dos 12 aos 15 anos. Pediu mais uns dias, mas o bastonário dos médicos pede um esclarecimento urgente por considerar que a DGS se contradiz. "A norma começa por limitar o acesso à vacina contra a covid-19 a adolescentes com comorbilidades, justificando que para um eventual alargamento será necessária mais evidência científica. Contudo, mais à frente, considera que, desde que haja indicação médica, qualquer adolescente poderá ter acesso à vacina. Ou seja, já não interessa a evidência científica. Esta decisão da DGS contraria a tese de que ainda não há evidência suficiente e cria desigualdades entre as famílias que conseguirão ter acesso a essa mesma prescrição e as que não terão."

Para os profissionais de saúde a norma também não foi clara, "com alguns especialistas a saudarem a norma, mas a virem, mais tarde, criticar este acesso condicionado. O processo tem de ser gerido de forma universal e ágil, como é essencial no combate a uma pandemia", sublinhou a ordem.

A Associação Portuguesa de Neuromusculares (APN) também já se manifestou preocupada com as hesitações da DGS e, em comunicado, dá conta das preocupações das famílias. "Depois das muitas hesitações verificadas no início da campanha de vacinação, na recomendação oficial da vacina, aos mais frágeis ou aos portadores de algumas doenças, cujo comprometimento respiratório seria agravado pela infeção, independentemente da idade, por parte da DGS, estamos agora a assistir a um novo crescendo de dúvidas se devemos, ou não, vacinar os adolescentes com idades entre os 12 e os 15 anos, embora duas das vacinas disponíveis estejam aprovadas pela Agência Europeia de Medicamentos para esse efeito", critica Joaquim Brites, presidente da APN.

A DGS lembra que a doença nestas idades é ligeira, estimando que haja 410 mil jovens do grupo etário entre os 12 e os 15 anos em Portugal. Deste total, muitos já têm imunidade conferida pela própria infeção. De acordo com os dados da DGS, dos mais de 972 127 infetados, mais de 97 mil pertencem à faixa etária dos 10 aos 19 anos. Mas recomendações sobre a vacinação universal de adolescentes dos 12 aos 15 anos só serão feitas pela autoridade de saúde logo que haja mais dados adicionais sobre a vacinação nesta faixa etária.

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