Universidade Nova defende currículo de Raquel Varela e ignora autoplágio

Em comunicado, a Nova admite a existência de erros no CV da historiadora, mas afirma que estes "não comprometem a sua integridade". Contradiz assim o Instituto de História Contemporânea; este diz manter a sua posição. O autoplágio constatado pelo DN em vários artigos de Varela não é sequer abordado.

"Na sequência de uma comunicação do Instituto de História Contemporânea que identificava alegados erros no CV da investigadora Raquel Varela, a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa (NOVA FCSH) decidiu indicar dois elementos do Conselho Científico para proceder à avaliação formal da validade da lista de publicações constantes no CV, da sua bibliometria e correção na referenciação bibliográfica.

A informação, entregue esta quarta-feira, dia 20 de outubro de 2021, ao Conselho Científico, conclui que não existe matéria que comprometa a integridade da componente bibliométrica do CV em causa."

Esta é a conclusão do comunicado enviado pela FCSH da Universidade Nova às redações na tarde desta quarta-feira e que, como tem sucedido na comunicação desta universidade, não traz assinatura (refere apenas o nome e contacto da press officer).

Em reação, o Instituto de História Contemporânea (IHC), que se soube em setembro ter-se desvinculado da historiadora devido a "erros" no seu CV, reafirma a sua posição: "A decisão tomada pelo IHC mantém-se, uma vez que estamos seguros da análise que realizámos ao Curriculum Vitae apresentado pela investigadora no concurso internacional em causa".

Quanto ao autoplágio detetado pelo DN em vários artigos constantes do CV público da historiadora (constante no site Ciência Vitae), esta declaração da FCSH é totalmente omissa.

Tal omissão ocorre apesar de, quando o jornal requereu à FCSH que reagisse à evidência de repetição de texto em vários artigos de Varela, a instituição ter recusado responder, alegando estar a decorrer a análise da qual agora apresenta o resultado. A FCSH também recusou dizer como vê o autoplágio em textos académicos e que consequência crê que este deve ter.

"Nunca houve tentativa de empolar o meu cv"

Como referido, esta negação pela FCSH do "comprometimento da integridade" do CV de Raquel Varela surge na sequência de o IHC, que faz parte da Nova e ao qual a historiadora estava vinculada há cerca de uma década, se ter dela desvinculado por detetar "erros" no CV apresentado por esta a um concurso da Fundação para a Ciência e Tecnologia, erros que, de acordo com a versão do IHC, Varela não se prestou a explicar ou corrigir. Depois de o Público ter noticiado essa desvinculação, o IHC exarou a 21 de setembro um comunicado no qual explicava o motivo.

Na referida candidatura à FCT, afirmava o IHC, Varela apresenta um currículo em cujo resumo afirma ter publicado "67 artigos em revistas indexadas na ISI Thompson, Scopus, CAPES Qualis A [sistemas de indexação de produção científica]: 38 destes como autora única e nos últimos cinco anos".

Sendo que, segundo o instituto, "o número de artigos publicados pela candidata em revistas indexadas na ISI Thompson, Scopus, CAPES Qualis A é, aproximadamente, metade do que é referido. O número de artigos publicados como autora individual nos últimos cinco anos em revistas indexadas na ISI Thompson, Scopus, CAPES Qualis A é, aproximadamente, um terço do indicado pela candidata."

Raquel Varela reagiu no seu Facebook à comunicação da FCSH, sua atual empregadora, considerando que esta conclui "o que eu sempre tinha afirmado publicamente - nunca houve qualquer tentativa de empolar o meu CV ou fraude. Foi um mês de assédio na praça pública de contornos inéditos no pais contra uma Académica [sic]. Uma campanha infame, onde prevaleceu a violência psicológica e o desrespeito pelos júris que me avaliaram, e a quem cabe avaliar-me."

CV examinado é o mesmo que IHC examinou?

Porém, no contra-exame ao CV de Varela efetuado pelo Conselho Científico da FCSH, e do qual o comunicado desta quarta-feira dá conta, são admitidas várias "imprecisões".

Assim, diz a FCSH, não são "sempre identificados todos os coautores ou coeditores" das publicações que Varela lista como suas, além de existirem "duplicações de entradas", ou seja, de artigos ou publicações (querendo dizer que o mesmo item aparece várias vezes).

Mas o comunicado da FCSH atribui essas duplicações, que apelida de "redundâncias", a "problemas conhecidos de sincronização automática entre as diversas plataformas utilizadas (Ciência Vitae, Scopus, Kudus, ORCID, PURE, etc.), que dão origem a duplicações de entradas". E não esclarece quantas detetou.

Ora essa é uma questão fundamental na avaliação do CV , já que os "erros" apontados pelo IHC têm a ver com a contabilidade correta dos artigos. Por outro lado, o comunicado da FCSH nunca refere o resumo do CV entregue pela historiadora à FCT, e sobre o qual incidiu a avaliação do IHC. A ponto de não se perceber se a FCSH examinou o mesmo currículo que o IHC.

O DN contactou a historiadora, solicitando-lhe que esclareça esta discrepância e clarifique se a FCSH examinou o CV que ela entregou à FCT no âmbito do referido concurso, assim como o respetivo resumo, mas não obteve resposta.

Contabilidade de FCSH não bate certo com as de Varela

Acresce que a contabilidade que a FCSH faz do número de artigos publicados por Varela não bate certo com a que a própria terá feito no resumo de CV que entregou no concurso da Fundação para a Ciência e Tecnologia.

Isto porque, segundo a FCSH, "do CV de Raquel Varela constam 82 artigos listados, dos quais 36 publicados entre 2016 e 2021 e 30 publicados em revistas indexadas na ISI Thompson, na Scopus e na CAPES Qualis A". Como já vimos, esta contabilidade não permite discernir se a FCSH fala de 82 artigos depois de eliminadas as "redundâncias".

Certo é que 82 artigos são mais 15 que os 67 que Varela terá, de acordo com o IHC, contabilizado no resumo do CV entregue no concurso da FCT; 67 nos quais o IHC terá encontrado duplicações, concluindo que a contabilidade correta é de "aproximadamente metade". (O DN solicitou ao IHC que explicite esta contabilidade, indicando quais os artigos que considera "valerem", sem sucesso)

Por outro lado, o referido resumo de Varela, segundo o IHC, indicará um total de 38 artigos indexados publicados em autoria única, nos últimos cinco anos; o IHC diz que a realidade corresponde a "aproximadamente um terço". Já a FCSH indica, para o período 2016/2021, 36 artigos, mas sem explicitar se se .trata de artigos indexados e só da autoria de Varela.

Por fim: a FCSH fala de 30 artigos publicados em revistas indexadas na ISI Thompson, na Scopus e na CAPES Qualis A, sem tornar claro se essa contabilidade se refere aos últimos cinco anos ou a todo o CV. Caso se refira ao número total de artigos indexados, essa informação não difere muito da apresentada pelo IHC: "O número de artigos publicados pela candidata em revistas indexadas na ISI Thompson, Scopus, CAPES Qualis A é, aproximadamente, metade do que é referido [sendo o referido 67]."

Mas a forma como o comunicado da FCSH está redigido torna impossível comparar os números apresentados pela FCSH com os que IHC refere.

Curiosamente, os números indicados pela FCSH também não coincidem com os que Raquel Varela indicou no direito de resposta enviado ao Público. Nesse direito de resposta, a historiadora fala em "41 artigos indexados nos últimos cinco anos" e "68" publicados ao longo da carreira, "dos quais 17 só no índice Scopus".

E nenhuma das contabilidades referidas bate certo com o número que consta no resumo do CV de Varela no site ORCID, que, presume-se, será também da sua autoria, e no qual se lê: "Publicou como autora 70 artigos em revistas com arbitragem científica, na área da história, sociologia, educação, economia, serviço social e ciência política indexados no ISI Thompson, CAPES Qualis A, Scopus, entre outros."

Cabe pois à FCT, como aliás o comunicado da FCSH estabelece, deslindar o imbróglio do currículo da historiadora: "Quanto à avaliação da candidatura de Raquel Varela à 4ª edição do Concurso para o Estímulo ao Emprego Científico (CEEC) Individual, da Fundação para a Ciência e Tecnologia, a mesma compete unicamente ao júri especializado desse concurso, regra de qualquer processo concursal."

(notícia atualizada às 21:25 de 20 de outubro, para acrescentar a reação do IHC e de Raquel Varela, assim como mais informação sobre diferentes contabilidades de artigos no CV de Raquel Varela)

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