Um médico em casa. O marido que se divide com os doentes

Seis semanas depois do nosso casamento, o meu marido e eu estávamos num avião de regresso a Nova Orleães, onde vivíamos. Mal atingimos a velocidade de cruzeiro, a cabeça tombou-lhe para a frente e adormeceu.

O ano anterior tinha sido a fase mais difícil da sua formação médica. No terceiro ano do internato de Medicina Interna fazia frequentemente turnos de 30 horas. Quando chegava a casa ainda tinha notas para ditar. Encontrava-o muitas vezes a dormitar numa poltrona com a luz ainda acesa. Umas horas mais tarde acordava e voltava ao trabalho.

"Estou a tentar sobreviver", dizia quando eu me queixava de como o trabalho estava a consumi-lo. "Estou a fazer o melhor que posso."

Quando nos conhecemos, apaixonei-me pelo seu feitio brincalhão tanto como pela sua paixão. Ele fazia parte de um grupo de comédia improvisada e mantinha-me acordada falando com vozes engraçadas e contando-me o que amava na medicina.

A sífilis era a sua doença favorita. Chamava-lhe o "bicho sorrateiro" porque pode aparecer praticamente em qualquer sítio (no cérebro, no coração, na virilha), e mostrava-me os seus objetos de coleção: um peluche, uma boneca cor-de-rosa em espiral na forma de uma bactéria e uma lancheira de lata onde aparecia um homem com uma máscara de gás e umas letras grandes que diziam "O Inimigo é a Sífilis".

Nas semanas em que ele estava de serviço eu mal via o seu lado brincalhão. O horário irregular, que incluía turnos noturnos frequentes, deixava-o com pouca energia para a vida fora do hospital. Conforme as suas responsabilidades aumentavam, a minha frustração aumentava também. Eu queria apoiá-lo na persecução da sua carreira de sonho, mas não conseguia deixar de sentir que o seu trabalho e eu estávamos em competição.

Embora não houvesse turbulência, o sinal de "cintos apertados" manteve-se aceso durante os primeiros 30 minutos do voo. Então, uma voz de mulher surgiu nos altifalantes a perguntar se havia um médico ou um enfermeiro a bordo.

O meu marido não se mexeu.

Toquei-lhe no ombro com a mão. Ele estava tão cronicamente cansado que, uma semana antes, tinha-me confessado como estava ansioso por fazer uma sesta no avião.

"Querido", murmurei.

Nós já vivíamos juntos quando ele me pediu em casamento. Cozinhou um jantar delicioso de camarões com alho e bolinhos de feijão preto e pediu-me para ir buscar o molho que tinha posto a aquecer no micro-ondas. Em vez de uma taça fumegante encontrei uma caixa azul-escura. Dentro, numa cama de veludo, estava um anel.

O altifalante fez-se ouvir novamente. "Repito -", começou a assistente de bordo.

Uma mulher, algumas filas à nossa frente, carregou no botão de chamada.

A vida de trabalho do meu marido era, maioritariamente, um mistério para mim. Raramente o via em ação; as regras de privacidade dos doentes impediam os médicos de levar visitantes nas suas rondas.

Senti-me mal por o acordar de um sono muito necessário durante as últimas horas das nossas mais que merecidas férias, mas parecia ser importante e, admito, uma parte de mim sentia-se excitada também. Queria que o meu marido fosse o herói.

Abanei-o. "Querido", chamei-o. "Precisam de ti".

Tonto de sono, ele levantou a mão. Uma assistente de bordo questionou-o sobre a sua licença médica. A outra voluntária, uma enfermeira, ofereceu ajuda, mas apenas o meu marido e a assistente de bordo percorreram a coxia, desaparecendo atrás das cortinas que nos separavam da primeira classe. Fosse qual fosse a emergência, não era na económica.

Depois de se terem ido embora estava demasiado inquieta para ler. Olhei pela janela. Durante anos, o casamento tinha-me parecido tão distante e inescrutável como a manta de retalhos verde e castanha lá em baixo. Era, pensava eu, o tipo de escolha insossa que define uma perda de energia e espontaneidade.

Eu sentia-me excitada com o amor, mas ambivalente em relação a tornar-me esposa. A própria palavra dava a ideia de um apagamento, privilegiando a domesticidade sobre o desejo, a sociedade sobre a realização individual. Eu tinha visto mulheres a perder os seus nomes e as suas ambições no casamento.

Quando conheci o meu marido, a minha atitude crítica em relação ao casamento já tinha começado a amolecer. Eu tinha quase 30 anos e as aventuras de uma vida de solteira estavam a perder atrativo. Ali estava um homem que cozinhava um gumbo desde o início, acompanhava-me em corridas depois do trabalho, ajudou-me a treinar para a minha primeira meia-maratona, tomava conta do meu cão quando eu estava fora e me surpreendia com tarte de iogurte (receita de família que eu tinha mencionado de passagem) quando me sentia em baixo.

Em suma, tomava bem conta de mim. Ele é o género de pessoa que toma conta de imensa gente - até, segundo parece, durante as últimas horas das nossas férias. Nem sempre me sinto feliz por ter de o partilhar, mas ajuda quando olho para nós como uma equipa em vez de nos ver como concorrentes.

Há tempos preocupava-me com esse lado de equipa, receava que o casamento significasse sacrificar a minha identidade. Depois de anunciarmos o nosso noivado, os meus receios pareciam justificados quando os amigos começaram a comentar, com sorrisos condescendentes, que eu iria ser mulher de médico com tudo o que isso implicava.

Perguntei-lhe se alguém lhe tinha dito que ele iria ser marido de uma escritora. Pareceu surpreendido. "Porque é que alguém havia de me dizer aquilo que eu já sabia?"

"Eu nunca tinha ouvido tanta vez a frase "mulher de médico" em toda a minha vida", respondi. Disse-lhe que as pessoas estavam constantemente a dar-me os parabéns pela profissão dele, que uma colega me tinha dito que se fosse ela deixaria de ensinar e que uma amiga da faculdade me tinha perguntado quando é que eu deixava de trabalhar.

"Se elas estão a dizer que és uma caça-fortunas, não és lá muito boa nisso", retorquiu. Só recentemente é que ele me tinha revelado o montante da dívida do seu empréstimo estudantil. O meu futuro marido beijou-me na testa. "O que interessa o que as pessoas dizem?"

Pouco antes de o avião começar a descer, a assistente de bordo veio ter comigo e disse-me para arrumar as minhas coisas. Tinha passado mais de uma hora. Eu imaginava o meu marido exausto, depois de todo aquele tempo a fazer reanimação cardiorrespiratória ou a trazer um bebé ao mundo. Enquanto a seguia pela coxia, os passageiros ajustavam os seus auscultadores e as crianças agitavam-se nos seus lugares. Havia uma emergência a bordo, mas a tripulação era profissional e, a maioria, nem se tinha apercebido do que acontecera.

Passámos pelas cortinas para a zona em que as cadeiras eram de pele e se reclinavam na totalidade. O meu marido estava sentado ao lado de uma mulher pálida, vestida com um fato calça e casaco. A testa dela estava transpirada. Dava golinhos num copo de água enquanto conversavam os dois.

Ele tinha-me dito uma vez que o plano era pedir-me em casamento num qualquer lugar bonito, mas que depois tinha percebido que gostava mais da nossa vida normal: ver o Frontline e episódios do programa do Conan O"Brien na cama, tomar café na varanda. "Foi por isso que escolhi o micro-ondas. Além de que sabia que nunca irias desconfiar", disse ele.

A assistente de bordo apontou para um lugar vazio. "Teve direito a um lugar melhor", disse ela. "Muito obrigada por partilhar o seu marido."

Quando o avião aterrou, uma equipa de emergência médica acompanhou a mulher até uma maca que a aguardava. O meu marido debitava números para um paramédico que os anotava na palma da sua luva azul. Enquanto saíamos pela manga perguntei-lhe o que tinha acontecido.

"Ela vai ficar bem", disse ele. Tinha mais para contar, mas estava à espera de que saíssemos do alcance dos ouvidos dos restantes passageiros.

Nessa noite sentámo-nos no futon decrépito que o meu marido possuía desde a faculdade. A sua cédula profissional encharcada secava em cima da mesa de centro; a assistente de bordo tinha-a pousado em cima do recipiente do gelo, na copa do avião.

Disse-me que quando viu a mulher de fato desfalecida contra a parede receou que estivesse morta. "O meu outro receio foi que fosse impotente para intervir, que não pudesse fazer nada enquanto não aterrássemos", acrescentou. Os assistentes de bordo tinham-lhe passado um estojo de primeiros socorros e tinham-no ajudado a compreender o que se passava: ela tinha sofrido uma convulsão.

Ele tinha encostado o estetoscópio ao peito da mulher, mas mal conseguia ouvir o batimento cardíaco devido ao barulho dos motores. Quando verificou a pressão arterial, ela murmurou-lhe que tinha um medicamento na carteira, que ele lhe deu. Uma vez estabilizada, ele sentou-se ao lado dela até o avião parar junto à porta de desembarque.

"Eles quase não precisaram de mim", disse-me pousando a mão sobre o meu tornozelo. "A convulsão tinha passado antes de eu chegar."

Apertei-lhe o braço, grata por ser casada com um homem que não exagerava a sua importância. "Estavas lá para o caso de ela precisar."

"Eu não fiz nada."

"Isso não é verdade", retorqui. Eu estava a compreender uma coisa acerca do nosso casamento. Durante a cerimónia, tínhamos feito os nossos votos, um para com o outro, mas antes de eu o ter conhecido, na festa de formatura da faculdade de Medicina, ele tinha feito os seus votos para com os seus futuros doentes. O nosso casamento era privado, mas a profissão dele não era.

"Estou orgulhosa de ti", disse.

Sinto os dedos dele a deslizarem pelo meu pé, até pararem no espaço entre o primeiro e o segundo dedo onde a artéria dorsal do pé passa por cima dos ossos cuneiformes. Alguns anos antes, eu ter-lhe-ia perguntado o que estava a fazer mas, agora, a manobra já me era familiar. O meu marido, o médico, estava a verificar a minha pulsação.

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