Últimas palavras de condenados à morte são surpreendentemente positivas

Estudo do conteúdo das mensagens deixadas por condenados do Texas permite perceber como se comportam perante a morte

Quais seriam as suas últimas palavras se soubesse que ia morrer? Como gere a mente humana a ideia do fim iminente? Foi para tentar responder a estas questões que dois investigadores analisaram as últimas mensagens deixadas por condenados à morte no estado do Texas.

Ao todo foram vistos 407 depoimentos e a conclusão acabou por surpreender Sarah Hirschmüller e Boris Egloff. Afinal, perante o fim iminente, os condenados optam por palavras de conforto e esperança, em vez de ressentimento ou tristeza.

Os dois investigadores, que publicaram as conclusões do seu trabalho na revista Frontiers in Psychology, queriam compreender melhor como estes presos racionalizam o que lhes aconteceu e está prestes a acontecer-lhes. De acordo com os princípios da teoria de gestão do terror (TMT), um conceito popular para entender a resposta humana face à ameaça e incerteza, "os indivíduos usam uma ampla gama de esforços cognitivos e comportamentais para regular a ansiedade que a mortalidade iminente evoca", com o objetivo psicológico de "manter a autoestima e adquirir significado na vida".

Os investigadores encontraram evidências que comprovam a teoria da gestão do terror. Através da comparação das mensagens dos condenados com uma base de dados de mensagens aleatórias de mais de 23 mil pessoas, com amostras de estudantes universitários a quem pediram para contemplar a própria morte, até notas de suicídio reais. No fim, a conclusão é de que as mensagens dos condenados são aquelas que têm significativamente mais palavras positivas.

São exemplo disso, as palavras deixadas por Manuel Garza, executado em abril do ano passado: "Obrigada por estarem aqui. Desculpem toda a dor que causei à minha família e amigos. Especialmente aos agentes da polícia, sei que provavelmente vocês me odeiam. O que se passou entre mim e o Rocky, aconteceu demasiado depressa. Não sei o que aconteceu. Desejo paz e amor a todos. Espero que tenham encontrado Deus, como eu encontrei. Deus vos abençoe. Vejo-vos do outro lado. Amo-vos." Manuel Garza, nascido em 1980, foi condenado pela morte de um polícia que o tentou prender, na sequência de mandados de detenção.

Desejo paz e amor a todos. Espero que tenham encontrado Deus, como eu encontrei. Deus vos abençoe. Vejo-vos do outro lado

A descoberta que "as declarações finais dos condenados à morte no Texas transmitem expressões extremamente positivas que refletem os processos emocionais de lidar com a mortalidade", é para os investigadores o sinal de que os mecanismos da TMT ajudam as pessoas a sentirem e a expressar sentimentos estranhamente positivos perante a morte iminente.

No entanto, Hirschmüller e Egloff apontam limitações à investigação. Afinal, é difícil traçar parâmetros para comparar as últimas palavras dos condenados à morte ou se faz sentido comparar estas declarações às de milhares de outras mensagens que não têm nada a ver com a morte iminente. Aparentemente só a comparação com as notas de suicídio parece relevante para perceber quais os sentimentos mais prevalentes quando o ser humano é confrontado com o fim. Mas até as próprias mensagens dos prisioneiros contém limitações: a reação deles será a mesma no momento da execução, com familiares ou vítimas presentes? "Obviamente é um pouco simplista dizer que se é ou não influenciado pela gestão do terror quando os prisioneiros estão a fazer uma declaração final, certamente há uma combinação de fatores", escrevem os autores no artigo publicado.

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