Terrorismo. Papa condena "violência cega e brutal"

Na mensagem pascal, Francisco lembrou as vítimas dos atentados terroristas e lamentou a rejeição de migrantes e refugiados que procuram um "um futuro melhor"

"A nossa proximidade [está] com as vítimas do terrorismo, forma de violência cega e brutal que continua a derramar sangue inocente em diversas partes do mundo, como aconteceu nos ataques recentes na Bélgica, Turquia, Nigéria, Chade, Camarões, Costa do Marfim e Iraque." Depois de ter lavado os pés a refugiados muçulmanos e hindus, o Papa Francisco condenou ontem na mensagem pascal a recente vaga de ataques terroristas e a rejeição de migrantes e refugiados. Dizem os sacerdotes ouvidos pelo DN que, à semelhança do que tem vindo a fazer, Francisco tentou uma vez mais despertar consciências. Mas que poder têm as suas palavras?

"O Papa tem de condenar esta selvajaria bárbara que tem acontecido. Qualquer pessoa com o mínimo de responsabilidade - e a dele é global - tem de condenar esta barbárie, sobretudo quando aparece associada direta ou indiretamente a Deus, pois ouve-se, por vezes, ser invocado Deus, mesmo se o nome é Ala", diz Anselmo Borges. Segundo o teólogo, "as pessoas vivem com uma sensação de impotência, perguntam a si mesmas o que podem e devem fazer", pelo que, o Papa, "através de palavras e ações, dá alguma luz, conforto e ânimo."

O combate ao terrorismo, prossegue Anselmo Borges, "implica diálogo inter religioso, mas este exige que se diga a verdade". "O Islão tem de fazer o percurso que custou muito e que a Igreja fez. É preciso fazer uma leitura histórico crítica do Alcorão, que, lido à letra, leva a muitos desastres", destaca. Por outro lado, é necessária "a separação da política e da religião." No diálogo inter religioso, explica, "a Igreja tem de chamar a atenção das pessoas", apelando "à verdade e à conversão."

Na mensagem Urbi et Orbi, o pontífice também falou sobre a rejeição de migrantes e refugiados. Francisco lembrou os "grupos cada vez mais numerosos de migrantes e refugiados - entre os quais muitas crianças - que fogem da guerra, da fome, da pobreza e da injustiça social" e que, "nos seus caminhos encontram, com demasiada frequência, a morte ou a recusa dos que poderiam oferecer-lhes hospitalidade e ajuda."

Para Anselmo Borges, a ida a Lampedusa, na qual o Papa disse que não se pode admitir que o Mediterrâneo se transforme num cemitério, já "despertou a Europa", mas esta "está muito confusa, não sabe bem o que fazer."

Contactado pelo DN, o sacerdote Carreira das Neves disse que está "com o Papa", mas lembrou que "nem toda a Igreja está com ele." Francisco é o homem "da humanidade futura", que "vai para além da fé cristã." A sua postura tem sido de "despertar consciências no mundo inteiro, uma onda de fundo para nos respeitarmos e amarmos, por cima de dogmas, aceitando Deus como criador."

A mensagem do Papa, diz Carreira das Neves, funciona "com toda a gente de boa vontade, que não tem dogmas dentro de si." Aos poucos, com uma "voz séria, solene e fiável", Francisco "está a mudar mentalidades a nível universal." Contudo, enfrenta "resistências." Na quinta-feira, lavou os pés a refugiados de vários países e religiões, mas houve quem lembrasse "que Jesus só lavou aos discípulos." O pontífice "vai além disso", "além do Vaticano II", mas "há muita gente agarrada ao dogma da Igreja." As mentalidades, conclui, "mudam-se através dos gestos, que é o que o Papa tem feito."

Na intervenção feita a partir da varanda da basílica de São Pedro, Francisco lembrou também as "pessoas que sofrem no corpo e no espírito", o que se reflete em "relatos de crimes brutais, que muitas vezes têm lugar dentro do lar, e de conflitos armados numa grande escala, que submetem populações inteiras a provas inimagináveis." Referiu-se, especificamente, à Síria, ao Iraque, Iémen e Líbia.

O Papa recordou, ainda, aqueles que "são perseguidos por causa da sua fé e por sua lealdade ao nome de Cristo" e as "regiões afetadas pelos efeitos das mudanças climáticas, que muitas vezes causam secas ou violentas inundações."

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