Terceira dose em Portugal? "Antes, é preciso vacinar toda a população"

O bastonário dos Médicos e o presidente da Associação Portuguesa de Médicos de Saúde Pública (APMSP) concordam que reforço na vacinação poderá ser inevitável, mas dizem ser preciso mais evidência científica e proteger todas as pessoas com as duas doses.

Há países, como a Hungria, Turquia, Israel, Rússia e Republica Dominicana, que já avançaram com a terceira dose para a população mais idosa, vulnerável e profissionais de saúde. Outros, como a Alemanha e a França, já anunciaram que vão avançar em breve, apesar de a Organização Mundial de Saúde (OMS) ter solicitado aos países mais ricos que não o façam e que disponibilizem essas vacinas para os países mais pobres.

Em Portugal, o bastonário dos médicos e o presidente da Associação Portuguesa de Médicos de Saúde Pública (APMSP), apesar de aceitarem que a terceira dose deverá ser inevitável, defendem que, "neste momento, é preciso vacinar primeiro toda a população com as duas doses". O secretário de Estado Adjunto e da Saúde, na sexta-feira passada, questionado pelos jornalistas sobre a necessidade de uma terceira dose para as populações mais suscetíveis, confirmou que a questão ainda não está em cima da mesa. "Não devemos abrir expectativas em relação a algo que ainda não está sobre a mesa. Precisamos de robustez científica, precisamos de dados devidamente consolidados e só depois podemos ouvir os nossos organismos técnicos, nomeadamente, a Direção-Geral da Saúde (DGS) e depois, em conformidade com as decisões tomadas com o órgão técnico, podermos planear e atuar", disse António Lacerda Sales.

Um estudo serológico realizado pelos serviços de Patologia Clínica e de Saúde Ocupacional do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra (CHUC), divulgado ontem pelo DN, vem demonstrar que a presença de anticorpos desce para um sexto em relação ao valor inicial, ao fim de três meses da vacinação completa, e que a tendência de descida se mantém ao fim de seis meses, embora de forma mais atenuada, para cerca de um terço em relação aos valores anteriores. A médica responsável laboratorial pelo diagnóstico covid-19 desta unidade hospitalar referiu ao DN que estes resultados são significativos e que, mais tarde ou mais cedo, a terceira dose será "inevitável".

Até terça-feira passada Portugal tinha 5 851 054 de pessoas com vacinação completa (57%) e 7 059 701 (69%) só com uma dose.

O bastonário Miguel Guimarães, em declarações ontem dadas ao DN, lembra que quem começou por colocar a questão da terceira dose foi mesmo um dos laboratórios, a Pfizer, que desenvolveu uma das vacinas aprovadas para combater a covid-19, depois de acompanhar a evolução da eficácia da vacina na população em geral, mas, por agora, ele próprio considera que "Portugal tem de aguardar mais algum tempo".

Miguel Guimarães argumenta que "é necessário ter a noção, através de estudos mais abrangentes, não só de imunidade humoral, mas também de imunidade celular, que também é protetora, sobre o estado de imunidade geral após a vacinação". Ou seja, "é preciso aumentar a evidência científica sobre esta questão, como é preciso aumentar o nível de vacinação da população", sustenta.

O bastonário salienta ainda que Portugal já tem neste momento um nível confortável de população vacinada com a primeira dose, mas que as próprias "autoridades de saúde já perceberam que só com a segunda dose é que a resposta à doença é mais robusta. Portanto, é preciso ir mais longe e vacinar mais rapidamente". De qualquer forma, sublinha que a vacinação já está a ter o seu impacto na população, "no que é a gravidade da doença, sobretudo nos lares, porque com a incidência que temos provavelmente teríamos muitas mais pessoas internadas em enfermarias e em cuidados intensivos, e um número de óbitos muito superior ao que estamos a ter".

Para o representante dos médicos, os números atuais da infeção no nosso país provam que "a vacina funciona". Por isto, "não me parece que uma decisão sobre uma terceira dose seja tomada já. Não quer dizer que não se venha a tomar no futuro. A terceira dose, provavelmente, será inevitável - há estudos que nos vão dizer certamente quando é que esta deverá acontecer -, mas temos de investir na vacinação completa da população e o Governo tem de continuar a passar a mensagem que, mesmo vacinados, há que cumprir as regras básicas de proteção".

Miguel Guimarães argumenta também que, a iniciar-se um processo de reforço de vacinação, há que olhar primeiro para o que estão a fazer os outros países, que iniciaram a terceira dose "pelas pessoas mais idosas, mais frágeis, com comorbilidades complexas associadas, que são os que podem ter um desfecho fatal, e pelos profissionais de saúde e cuidadores que são os que estão mais expostos ao vírus".

O presidente da APMSP, Ricardo Mexia, considera importante que, à medida que o processo de vacinação avança, se vá tendo dados sobre a imunidade adquirida, à semelhança do que está a acontecer em outros países, pois tais dados "serão úteis para tirarmos conclusões", mas, sublinha, haver "um fator importante que temos de ter em conta". "Nós podemos ter um indicador de descida de anticorpos, mas não quer dizer que não estejamos protegidos, porque há uma imunidade humoral, mas também a imunidade celular, que também permite responder a uma eventual infeção".

Para Ricardo Mexia, os dados alcançados são importantes para se tomarem decisões, mas também "é muito importante percebermos que ainda nos falta vacinar muita gente com a primeira dose e com a segunda para completar a vacinação. E este deve ser o foco. Se, entretanto, tivermos dados robustos que apontem para a necessidade de uma terceira dose, então devemos ponderar a situação, mas, como digo, primeiro temos de concluir a vacinação de toda as pessoas".

O médico e epidemiologista concorda que, em relação aos últimos surtos conhecidos em lares portugueses, as vacinas estão a cumprir os seus objetivos. "As vacinas foram desenhadas para evitar a doença grave e a mortalidade e mesmo no contesto dos lares, que é dos mais vulneráveis, isso está a acontecer, porque, apesar de tudo, do ponto de vista da severidade da doença e da mortalidade estamos longe do que foi a realidade de janeiro e de fevereiro. A questão também tem de ser colocada nesta perspetiva".

A Pfizer anunciou na semana passada que durante este mês iria pedir aos reguladores dos EUA a aprovação de uma dose de reforço. Segundo noticiaram jornais norte-americanos, a empresa publicou novos dados, sugerindo que a administração de uma terceira injeção aumenta "fortemente" a proteção contra a variante delta do coronavírus. No entanto, e após a divulgação destes dados, foi o próprio diretor de Saúde dos EUA, Vivek Murphy, veio insistir na questão de que as pessoas que estão totalmente vacinadas não precisam de uma terceira dose e que a decisão sobre se esta é necessária e quando, cabe às autoridades de saúde.

A diretora de imunização da OMS, Dra. Kate O'Brien, disse, na quarta-feira passada, que atualmente "não há informações suficientes para oferecer uma recomendação" para uma terceira dose e que os países que impulsionam injeções de reforço sem testes podem piorar os problemas. "Se os países avançarem e começarem a aplicar os reforços, agrava-se o problema que temos, que (é que) neste momento há uma oferta insuficiente para que todos os países tenham vacinado todos os seus grupos, de maior prioridade, e depois os de menor prioridade", explicou.

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