Tea Jarc. A sindicalista que quer os jovens envolvidos na defesa laboral

Ativista esteve em Lisboa para um seminário sobre jovens líderes europeus. Em conversa com o DN, considerou que a UE ainda tem falhas no que toca à proximidade com os cidadãos e pede aos jovens que se juntem ao movimento sindicalista.

Tea Jarc tem 35 anos, vem da Eslovénia e, até junho, foi presidente do Comité da Juventude da Confederação Europeia dos Sindicatos e o seu principal objetivo é "trazer os valores da defesa dos direitos laborais de volta aos jovens" porque, na sua opinião, "ainda há muito a ideia que os movimentos de defesa laboral são uma coisa antiga, da geração dos pais ou dos avós."

A sindicalista esteve em Lisboa para a conferência European Young Leaders (Jovens Líderes Europeus) e, entre painéis de discussão sobre o futuro da Europa e a juventude, teve tempo para uma conversa com o DN nos jardins da Assembleia da República, onde decorreram as sessões do primeiro dia da conferência.

Atualmente, Tea Jarc é presidente de um sindicato na Eslovénia, o Mladi Plus (Mais Jovem), que representa cerca de 1200 pessoas e que descreve como sendo "um pouco diferente", uma vez que, explica, trabalha e foca-se "sobretudo em tentar representar os mais jovens, aqueles que estão em transição da escola para o mercado de trabalho. Ou seja, jovens no final da escola secundária, jovens desempregados ou com contratos precários". Isto, para Tea, "é um bocadinho revolucionário", uma vez que tem um foco especifico e "abre o movimento sindicalista a mais categorias de trabalhadores."

"Enquanto jovens, temos de ter expectativas mais altas e temos de lutar por elas. Não podemos compactuar com um sistema que deixa os jovens e as pessoas mais vulneráveis para trás."

A presença no evento em Lisboa - que aconteceu no Parlamento e em mais locais da cidade, como o Teatro São Luiz -, reflete, em parte, a premência que os temas da juventude têm na política europeia, diz a sindicalista (que também se autointitula como ativista). "Aquilo que pretendemos [no Mladi Plus] é recuperar os valores e a luta pelos direitos laborais e aproximar os jovens da causa. Estar aqui permite isso mesmo, permite mostrar porque é que os sindicatos são relevantes, se calhar mais do que já foram até agora", considera. E o European Young Leaders acaba por ser visto como "um privilégio, onde é possível discutir vários tópicos e ter várias perspetivas de toda a Europa e, acima de tudo, procurar soluções concretas para os problemas."

Para Tea Jarc, a política do futuro deve ser feita a pensar nos jovens, e a incluí-los, também, nas decisões, algo que a representante da Comissão Europeia em Portugal, Sofia Moreira de Sousa, já havia assumido ao DN, no passado mês de agosto. Até porque, diz a ativista, "os jovens não são um grupo homogéneo de pessoas. Há preocupações diferentes que devem ser ouvidas por mais ou menos transversais que sejam".

E dá o exemplo: "Muitos enfrentam desafios do ponto de vista da Saúde Mental, outros tantos enfrentam precariedade, e há alguns que estão apenas a tentar sobreviver ao dia-a-dia", algo que acaba por prejudicar a participação cívica destas faixas etárias mais jovens, considera a ativista. "Acho que vai haver sempre uma necessidade de ter mais juventude envolvida na vida cívica. Com tantas preocupações, os jovens acabam por estar exaustos e sem qualquer energia para participar em atividades ou em temas mais substanciais, como o caso do ativismo". Contudo, a sindicalista deixa o repto: "Enquanto jovens, temos de ter expectativas mais altas e temos de lutar por elas. Não podemos compactuar com um sistema que deixa os jovens e as pessoas mais vulneráveis para trás". Algo que, no seu entender, acaba por justificar a entrada dos jovens na vida cívica e na sociedade civil.

"Estar aqui [no European Young Leaders] permite mostrar porque é que os sindicatos são relevantes, se calhar mais do que já foram até agora."

Apesar da falta de homogeneidade da juventude europeia, Tea Jarc consegue elencar alguns desafios a curto prazo que podem afetar os jovens. "Primeiro, não podemos esquecer a crise económica que está a afetar-nos decorrente da pandemia e, claro, a inflação que daí advém. Em cima disto, temos ainda a guerra na Ucrânia e as preocupações com as alterações climáticas", enuncia, frisando que a solução pode acabar por passar por "respostas conjuntas, definidas entre os Estados-membros".

A conversa com o DN aconteceu em cima do discurso do Estado da União (que se realizou no dia 14). Então, a sindicalista aproveitou para fazer uma breve exposição sobre como está, para si, a União Europeia - e a proximidade entre a instituição e os cidadãos foi criticada. "Acho que a UE continua muito apartada dos seus cidadãos, que sentem que as discussões [políticas] não correspondem aos seus problemas diários. A União tenta dar respostas suficientes mas que, claramente, não chegam". Por isso, remata, "é preciso trazer as políticas, os decisores e as decisões para perto dos cidadãos".

rui.godinho@dn.pt

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