Sociopata ou boa pessoa? Os processos e as faces de Pedro Dias

Suspeito de homicídios em Aguiar da Beira esteve 28 dias fugido. Tem vários processos em tribunal e uma personalidade que divide médicos

Não é que até "chegaram a falar com o próprio pároco da vila". Aos ouvidos do pastor chegaram "filmes loucos, só de cinema" contra si, lamentou-se Pedro Dias, que estava no tribunal de Aveiro acusado de um crime de violência doméstica, frisando que se sentiu "humilhado numa terra pequenina", onde a família está há oito gerações.

Foi esta a última declaração de Pedro João Ribeiro e Costa de Pinho Dias, 44 anos, no julgamento em que foi condenado, em 2011, a um ano e dez meses de prisão, com pena suspensa. O percurso criminal do, atualmente, suspeito de cinco homicídios, três na forma tentada - a 11 de outubro - leva-nos também por casos de furto de patos, gasóleo, matriculas, até à reabertura, este mês, de um processo em Évora, arquivado em 2012.

A fama alcançada por Pedro Dias, entre 11 de outubro e 8 de novembro quando se entregou à PJ, levou a que um ex-funcionário da Herdade do Zambujal, em Arronches, contactasse o proprietário, recordando-lhe que o protagonista das aberturas de telejornais frequentou o espaço. E assim foi: Pedro Dias costumava acompanhar a ex-mulher, Ana Cláudia, veterinária, à herdade, onde esta tratava dos cavalos. Chegaram a pernoitar no local.

Na posse de fotografias de duas espingardas, já com os canos serrados, apreendidas na quinta do suspeito, em 2014 (durante uma busca relacionada com outro processo), a Polícia Judiciária mostrou-as a Francisco Vasconcellos, dono da Herdade do Zambujal. Este, segundo a informação da PJ, "não teve dúvidas em reconhecê-las", como sendo as que lhe foram furtadas "na madrugada de 9 de março de 2012".

A certeza de Francisco Vasconcelos deveu-se aos pormenores das armas, daqueles que só os aficionados da caça admiram. Tratava-se de duas caçadeiras Aguirre Y Aranzabal, armas "muito apreciadas pelos entendidos", escreveu a PJ, com a "particularidade de possuírem coronhas inglesas e platinas escuras, estilo purdey", acrescentou a informação técnica da Judiciária.

Sociopatia diagnosticada

Se este caso foi reaberto, o processo da violência doméstica - na vertente psicológica, que envolveu perseguições e "esperas" à ex-mulher - ficou encerrado com a condenação em primeira instância e confirmação da pena pelo Tribunal da Relação de Coimbra, a 28 de setembro de 2011. Durante o desenrolar do caso, o arguido submeteu-se a uma perícia psicológica. E o resultado não foi o esperado pela defesa: "A escala clínica que se apresenta acima da média é a da sociopatia, habitualmente caracterizada por instabilidade emocional, irresponsabilidade, potencial agressão social, mas egoísta, exigente, explosivo e de pouca confiança, com relações com superficialidade, ausência de compromisso e rebeldia contra as regras, a autoridade e as convenções".

Já então, o médico psiquiatra Alexandre Filipe Rei tinha sublinhado os esforços de Pedro Dias para colocar "em causa a validade do próprio teste no sentido de manipular os resultados, ocultando informação ou mentindo". Com este documento na mão, o juiz de julgamento, não inocentemente, chegou a perguntar a uma testemunha se, depois do episódio em que Pedro Dias encostou o carro da ex-mulher para a berma da estrada, tinha notado alguma mudança de comportamento por parte do arguido: "Houve, houve", respondeu de imediato Paulo C., amigo de Ana Cláudia. "Uma pequena mudança quando chegou a mãe [de Ana Cláudia] e uma mudança drástica quando chegou a PSP. Ficou com um comportamento, diria, exemplar, talvez perto de um comportamento exemplar", lê--se na transcrição do depoimento prestado no processo 309/09.8AVR.

Uma forma de estar que fica mais próxima das declarações do seu médico em Arouca do que do médico psiquiatra. Poucos dias depois dos homicídios, Vitor Brandão, que se apresentou como médico de Pedro Dias e da família há cerca de 30 anos, garantiu que o então fugitivo "nunca manifestou um discurso incoerente. Todas as vezes que me procurou, era para consultas de rotina, revelando sempre uma vontade de preservar a sua saúde e de preocupar-se com ela, o que não acontece com um psicopata".

O clínico frisou que conhecia bem o suspeito e que não tinha "indícios" que lhe permitisse "classificá-lo como uma pessoa de mente alterada". Pediu a Pedro Dias que se entregasse ao mesmo tempo que dizia: "Mas todos nós sabemos que nós, seres humanos, todos temos um perfil psicopata, no fundo".

No já referido processo 309/ 09.8AVR, consta ainda uma certidão dos autos da regulação do poder paternal da filha de Pedro Dias e Ana Cláudia. Neste, encontra-se mais alguma informação sobre o agora suspeito de homicídio: com 19 anos, entrou para as Forças Armadas, fazendo o curso de deteção aérea na Força Aérea. Foi piloto aviador na Comair Airways Limited, uma subsidiária sul-africana da British Airways, tendo feito voos para a África do Sul, Namíbia, Zimbabwe, Botswana e Madagáscar. Em 2009, alegou estar a trabalhar na Europa, voando regularmente para Madrid, Barcelona e Amesterdão.

Perfil: dissimulado

O aparente comportamento dual ficou também patente no recente caso de Aguiar da Beira. A frieza com que Pedro Dias disparou a arma contra dois GNR (matando um) e contra um casal (matando o homem e deixando a mulher gravemente ferida, encontrando-se ainda em coma) que intercetou numa estrada contrasta com a figura calma, serena, com um discurso minimamente articulado com que o suspeito se "apresentou" ao país através da RTP, no momento da sua entrega. No depoimento que prestou à Polícia Judiciária, o soldado da GNR que sobreviveu contou que o suspeito começou a disparar quando um dos guardas se dirigiu ao carro e pediu, via rádio, informações ao posto sobre o homem que tinham acabado de intercetar.

Quando foi interrogado a 15 de abril no Ministério Público de Arouca sobre as armas e dezenas de munições encontradas na sua propriedade, Pedro Dias considerou ser "estranho" que a GNR tenha encontrado as caçadeiras "atrás da porta da casa de banho, uma vez que se as tivesse e fosse proprietário das mesmas, as tinha guardado num cofre" e não, como sublinhou, "num local que era utilizado pela sua filha". Neste interrogatório procurou baralhar a investigação, dizendo ao procurador que os elementos da GNR levaram um revólver com 200 anos, mas este item não consta do auto de busca. O funcionário da quinta, afirmou, de seu nome Paulo Oliveira, poderia confirmar, porque presenciou a diligência. Mas não confirmou.

Nos crimes de Aguiar da Beira, Pedro Dias evidenciou o mesmo modus operandi: após ter disparado sobre um GNR, obrigou o outro, sob ameaça de arma, a pedir informações ao posto sobre dois irmãos suspeitos de furtos. Ou seja, terá tentado direcionar a atenção da Guarda num sentido, que não o seu.

Manuel adormeceu

Esta inclinação para dissimular a sua participação em situações suspeitas ficou ainda patente num outro processo que correu no Tribunal de Arouca. Durante a manhã de 27 de julho de 2011, a GNR local recebeu um telefonema de Pedro Dias, dando conta do furto de uma Toyota Hilux, propriedade do tio, durante a noite anterior. Os "gatunos", segundo a sua versão, entraram-lhe pela propriedade, levaram o veículo e partiram o vidro do carro da sua então companheira, Sara, uma advogada que acompanhou o julgamento do caso por violência doméstica relativo à ex-mulher de Pedro Dias.

A patrulha da Guarda deslocou--se ao local, tentando obter elementos para o desaparecimento do carro. Em agosto de 2011, ouviram Jorge Ribeiro Costa, tio de Pedro Dias. À GNR disse ter sido alertado para o "tal" furto pelo seu sobrinho. No mesmo dia, deslocou-se à quinta de Pedro Dias, tendo verificado que "o portão da entrada encontrava-se destrancado manualmente, sem sinais de arrombamento.

Os autos mantiveram-se em "banho-maria" no Ministério Público de Arouca, até que a 6 de janeiro de 2012, chegou à secretária do procurador uma carta do tio de Pedro Dias, declarando "desistir expressamente" da queixa apresentada contra desconhecidos pelo furto. Quando o procurador se preparava para arquivar o caso, eis que chegou ao processo uma informação da comarca de Ovar: precisamente na madrugada de 27 de julho de 2011, foi apreendida uma Toyota Hilux, veículo suspeito de estar envolvido numa situação de furto de gasóleo.

Naquela madrugada, a GNR de Ovar abordou o veículo. No seu interior, Manuel Silva estava a dormir. Depois de acordado pelos militares, o homem, talvez ainda meio ensonado, disse-lhes que se encontrava naquele local, porque para ali tinha sido levado "pelo sr. Pedro", que "apenas sabe" residir no centro de Arouca, tendo-o "conhecido através do cunhado".

Dias mais tarde, Manuel Silva prestou depoimento na GNR, repetindo que tinha acompanhado Pedro Dias para furtar 20 litros de gasóleo. O companheiro de Manuel, segundo o relato deste, "levou o veículo para as traseiras de um prédio e saiu com dois bidões e uma mangueira em direção de um trator pesado". O auto termina assim: "O declarante disse ter adormecido e apenas acordado quando foi interpelado pela patrulha da Guarda." Como o proprietário do trator declarou desistir da queixa, o Ministério Público de Ovar arquivou o processo. O de Arouca seguiu-lhe o caminho, apesar da insistência investigatória da GNR, que pediu elementos a duas operadoras de telecomunicações sobre dois telemóveis que se encontravam dentro da Toyota. A Vodafone respondeu que o aparelho a si associado foi carregado quatro vezes no dia seguinte ao furto.

É então que, em novembro de 2012, começa uma troca de ofícios entre o procurador de Arouca e a GNR. O primeiro começou por perguntar "de que forma foi apresentada a denúncia original". A 5 de dezembro, a GNR respondeu que a mesma "foi feita às 11h do dia 27 de julho, verbalmente por Pedro Dias". E que o próprio procurador poderia ter constatado isso mesmo, "mediante a análise do rosto de auto de denúncia elaborado". Já em abril de 2013, de novo o procurador: porque razão Pedro Dias não assinou a queixa? A GNR respondeu: foi Pedro Dias quem chamou a Guarda, mas não assinou o "expediente", porque se tratava de "um auto de notícia e não de um auto de denúncia". Resultado: caso arquivado.

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