"Só poderemos respirar de alívio quando houver vacinas bloqueantes da transmissão"

A incidência e o ritmo de transmissão do SARS-CoV-2 continua a aumentar. No domingo, o país atingiu mesmo os 15 óbitos, o que não acontecia desde julho (ontem foram oito). O governo já marcou reunião com peritos no Infarmed para sexta-feira para discutir a situação. Ao DN, o imunologista Manuel Santos Rosa defende que "só precisamos de ganhar mais algum tempo ao vírus para vencermos a batalha", porque a segunda geração de vacinas que está a ser desenvolvida vai atacar a transmissão e deve chegar já em 2022.

Na semana que terminou Portugal chegou a atingir os 1816 casos de infeção por dia, como aconteceu no sábado, e os 15 mortos, como aconteceu no domingo. A incidência e o ritmo de transmissão mantêm a tendência de crescimento que vem a ser sentida desde há um mês e o número de internamentos em enfermaria e em cuidados intensivos também. Os alarmes voltaram a soar, sobretudo por causa da época natalícia que se aproxima. E ao DN, o imunologista e professor catedrático da Faculdade de Medicina de Coimbra, Manuel Santos Rosa, defende ser preciso colocar de lado o conceito de imunidade de grupo. "Já deveríamos ter percebido que, embora as vacinas atuais sejam muito importantes na redução da doença grave e nas mortes, não criam imunidade de grupo". Portanto, na sua perspetiva, "o que é preciso dizer aos portugueses é que tenham um pouco mais de paciência e continuem a lutar contra o vírus com as medidas de proteção individual".

Para o especialista em vacinas, "é só preciso ganhar mais algum tempo ao vírus, até aparecerem as vacinas de segunda geração, que já estão a ser desenvolvidas no sentido de serem bloqueantes da transmissão". "Só nesta altura, poderemos respirar de alívio e vencer esta batalha", diz, reforçando que as atuais vacinas "são extremamente úteis e temos de as usar ao máximo", porque "são a maior arma que temos". No entanto, sublinha, que a estas é fundamental juntarem-se as medidas de proteção individual e os antivirais para combater a doença, alguns já aprovados nos EUA e outros em fase de aprovação na Europa, e que, obviamente, "ajudarão a tratar a doença naqueles que ficarem infetados".

974 casos. Este é o número de infeções positivas à covid-19 registadas ontem. Houve ainda oito mortes, o número de internamentos subiu para 470, mais cinco do que no domingo, dos quais 76 em unidades de cuidados intensivos, mais um do que no dia anterior.

Na conversa com o DN, o médico aproveita para referir que considera ter sido "um erro o alívio de algumas das medidas de proteção individuais", exemplificando com alguns eventos sociais, como o caso de concertos, onde se veem muitas pessoas sem máscara - ou, como referiu ontem a diretora-geral da Saúde, o caso do jogo da seleção contra a Sérvia em que esse também foi um comportamento que se destacou.

Mas não só. Manuel Santos Rosa refere ainda os períodos de convívio em restaurantes e em outros locais com lotação cheia e "sem o distanciamento adequado". Apesar de tudo isto, o médico não acredita ser necessário que o país avance em breve para novas medidas muito restritivas, até porque "a economia já sofreu bastante e ninguém quer que sofra mais".

"As pessoas têm de viver. Ninguém quer também a redução no número de pessoas nos restaurantes ou nos outros locais, mas é preciso manter as regras de distanciamento e uma boa ventilação", senão, a continuarmos assim, corremos o risco de viver situações como as de outros países europeus. Na sua opinião, Portugal não está fora de um cenário destes e se "há países que drasticamente estão a regressar às medidas restritivas é porque estão muito preocupados com a evolução da pandemia".

As vacinas atuais são muito úteis mas não dão imunidade de grupo

Há países que voltaram a impor o teletrabalho e em Portugal a ministra do Trabalho, Segurança Social e Solidariedade, Ana Mendes Godinho, admitiu ontem que tal pode voltar a acontecer. A ministra da Saúde, Marta Temido, também já tinha manifestado preocupação com a tendência crescente de casos, já que, na última semana, o país ultrapassou a barreira do milhar de casos. Ontem, foram registados mais 974 novas infeções e oito mortos, menos 509 novos casos do que no domingo, dia 14 (quando se registaram 1453), e menos sete mortes. A questão é que a incidência e o ritmo de transmissibilidade [R(t)] mantêm uma tendência de crescimento, tendo passado de domingo para segunda-feira, a nível da incidência nacional, de 134,32 por 100 mil habitantes para 156,5, e a nível do R(t) de 1.15 para 1.16.

Uma tendência que faz Manuel Santos Rosa reforçar, mais uma vez, que é "preciso deixar de pensar que a vacinação nos dá imunidade de grupo". "Na minha opinião, este conceito é um equívoco que tem de ser desfeito. Já todos percebemos que as vacinas atuais não são totalmente eficazes a evitar a transmissão do vírus. Isto quer dizer que até poderíamos estar todos vacinados que, mesmo assim, uma percentagem continuaria a transmitir o vírus. A única coisa de diferente é que haveria menos fatalidade e menos pressão nos cuidados de saúde", refere, sublinhando em seguida: "Na minha perspetiva, não haverá imunidade de grupo. A não ser que o vírus faça uma mutação que o torne muito menos transmissível, o que, nesta altura, é uma utopia. Ele vai fazer é mutações que ainda o tornarão mais transmissível."

156,5 por 100 mil habitantes. Esta é a incidência do dia de ontem, que continua a subir, tal como o ritmo de transmissibilidade R(t). De domingo para segunda, a nível nacional, passaram de 134,2 por 100 mil habitantes para 156,5 e o R(t) de 1.15 para 1.16.

E é com esta perspetiva, construída com toda a evidência científica sobre a doença que já se adquiriu, que o médico diz aos portugueses que "só têm de ser um pouco mais pacientes e regressar às medidas de proteção individual": "É preciso ganhar mais algum tempo ao vírus. Sabemos que o inverno lhe é favorável e desfavorável aos humanos e a ciência tem na calha a perspetiva de novas vacinas, uma segunda geração, à base de microespículas, como se fossem um selo adesivo, que poderão ser já bloqueantes à transmissão e eficazes no reforço da imunidade celular. Só quando isto acontecer é que poderemos respirar de alívio, porque isto quer dizer que ao fim de algum tempo os vacinados deixarão de transmitir o vírus."

Segundo explica o imunologista, "este tipo de vacina que está já a ser desenvolvido nos EUA e na Europa, nomeadamente na Alemanha e no Reino Unido, já está em fase muito adiantada". E, se tudo correr bem, "a partir daqui teremos uma segurança enorme e, provavelmente, será o fim desta pandemia. Até lá, acho que é fundamental utilizar as armas que temos, que obviamente são as vacinas atuais e, sobretudo, não baixar a guarda quanto às medidas profiláticas".

Manuel Santos Rosa refere ainda ao DN que, tal como outros especialistas, tem algumas preocupações em relação à época que se aproxima. "Apesar de ter uma taxa vacinal elevada, o país corre o risco de viver o mesmo que outros países estão a viver agora", já que a época do "Natal e do Ano Novo são de grande concentração de pessoas e de mobilidade. Se até lá não tivermos cuidados, se não adotarmos as medidas simples que já conhecemos, como o uso de máscara, higienizar as mãos e o distanciamento social, a situação de agora irá agravar-se".

Neste momento, e como refere o professor de Coimbra, já se percebeu que há franjas populacionais que estão, particularmente, a transmitir o vírus, nomeadamente a faixa etária dos 20 aos 29 anos, com a consequência de que a gravidade da infeção está a surgir numa faixa etária mais elevada e em outras que não seria de esperar.

Por isso, defende que "o alargamento da vacinação e o seu reforço são fundamentais, até pela expectativa de que uma segunda geração de vacinas está a surgir", não podendo esquecer que, paralelamente a esta expectativa, há a dos novos fármacos antivirais, "já com alguma eficácia reconhecida, que estão a ser avaliados nos EUA e na Europa, e que irão ajudar imenso no combate à doença, não no sentido de bloquearem a transmissão, mas no de aliviar a pressão nos cuidados de saúde". "Se estes fármacos puderem ser tomados logo aos primeiros sintomas e até no domicílio, as pessoas não precisarão de cuidados especializados", frisa.

Na verdade, estes até deverão aparecer mais rapidamente do que a segunda geração de vacinas, embora estas, quando aparecerem, deverão ter também "uma administração mais fácil e sem particular aparato vacinal", pois "já se percebeu que um dos grandes problemas da massificação da vacinação é a necessidade de termos centros de vacinação com muito pessoal envolvido, portanto se tivermos uma vacina cuja aplicação seja tão simples como colocar um selo adesivo na pele, isso facilitará e muito todo processo de combate à pandemia".

À pergunta se os portugueses só terão de se habituar ao vírus e aguardar pelas vacinas de segunda geração, Manuel Santos Rosa afirma, peremptoriamente, que o mais eficaz continua a ser "tudo o que pudermos fazer individualmente para evitarmos a transmissão", porque isto "é sempre uma derrota para o vírus". "O vírus não pode existir se não encontrar um hospedeiro para se propagar. Se um milhão de portugueses se proteger individual, independentemente de estar ou não vacinado, já estamos a fazer muito, porque todas essas pessoas evitaram a transmissão do vírus, que assim vai desaparecendo". Se, pelo contrário, "aliviarmos estas medidas, o vírus vai-se transmitindo e, obviamente, dará problemas mais graves aos não vacinados".

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