Silêncio, que se vai cantar o fado na missa dos emigrantes

Da Europa à América, as comunidades emigrantes desdobram-se em atividades para comemorar o centenário das aparições de Fátima, um evento que está igualmente a ser aproveitado para evangelizar.

Quando o padre José Maria Cardoso chegou ao Canadá, para liderar a paróquia de uma vasta comunidade portuguesa em Montreal, era um rapaz determinado a ficar por ali apenas uma curta temporada. Ri-se agora, quando fala nisso, o missionário que no final dos anos 90 regressava do Benim, na África Ocidental, para aterrar numa cidade do mundo desenvolvido. "Mas o tempo foi correndo e assim passaram 18 anos", conta ao DN o sacerdote natural de Guimarães, que lidera a paróquia de Santa Cruz, aberta a uma comunidade que ronda os 50 mil emigrantes portugueses. Por estes dias, o padre Zé Maria e toda a paróquia então embrenhados nas mais diversas atividades, num trabalho que vai muito além das obrigações litúrgicas.

Objetivo: comemorar o centenário das Aparições de Fátima com todo o simbolismo. Nesta altura ainda se arrumam os despojos da visita da imagem peregrina de Nossa Senhora, que passou por ali, após ter visitado Toronto e antes de seguir para Ottawa. "Temos a sorte de ter uma comunidade muito generosa, que dispensa muito do seu tempo em ações de voluntariado, seja com os mais velhos os mais novos", revela o pároco. Na verdade, desde outubro do ano passado que o centenário das aparições domina por completo aquele edifício que já foi uma escola. "As pessoas que hoje têm 60 anos ou mais ainda estudaram aqui, na escola de Our Lady of Montreal. Temos muitas salas, felizmente tudo ocupado com atividades", enfatiza o padre José Maria, orgulhoso da universidade dos tempos livres, à imagem das universidades seniores em Portugal.

E é aí, entre as mulheres mais velhas e já aposentadas, que a Missão de Santa Cruz encontrou a disponibilidade para um dos símbolos do centenário: "Estamos a fazer uns terços alusivos à efeméride, que depois são colocados dentro de uma bolsa feita em croché, e no final cada criança da catequese vai receber um exemplar." O grupo responsável por unir as missangas e transformá-las em objeto de culto são "os mensageiros de Nossa Senhora de Fátima". À espera estão cerca de 300 crianças que frequentam a catequese da paróquia portuguesa, numa das comunidades mais dinâmicas do Canadá. Desde a visita da imagem peregrina que o programa de atividades tem vindo a crescer. Em fevereiro, os portugueses ali emigrados empenharam-se na animação musical das missas. "Lançámos o convite às bandas filarmónicas, à Tuna da universidade de Tempos Livres, aos ranchos folclóricos e aos vários grupos de fadistas que temos na comunidade. E a resposta foi excelente", conta o padre José Maria, que agora está empenhado nos ensaios para "cantar o terço, de modo a que, no dia 12 de maio, possamos mostrar toda a nossa devoção mariana". Nessa noite, os portugueses contam encher as ruas de Montreal, numa procissão preparada ao pormenor.

A maioria dos portugueses naquela região canadiana é oriunda dos Açores, e por isso divide a devoção entre a Senhora de Fátima e o Senhor Santo Cristo dos Milagres. Ainda assim, em ano de centenário, é a primeira que leva vantagem. De dois em dois anos, a paróquia organiza alternadamente uma viagem cultural a Portugal, não raras vezes com peregrinação a Fátima. "Habitualmente levo 60 pessoas nessas viagens, que ocorrem em julho ou setembro, fora da época de maior confusão em Fátima", conta o padre José Maria Cardoso. E este ano? "Vamos mostrar toda a nossa devoção por aqui, nas ruas da cidade".

União de paróquias

A milhas de distância, há uma comunidade portuguesa nos arredores de Paris que ensaia a mesma interação, na mesma língua. As ruas do departamento 94 já se habituaram a ver aquela procissão de velas, a 12 de maio, mas em ano de centenário os portugueses que frequentam a Igreja de Gentilly vão mais longe: convidaram a vizinha paróquia francesa para se juntar às celebrações do centenário. O padre Anastácio Alves - por estes dias num retiro em Zurique, a convite de Frei Sales Diniz, um ícone das missões na diáspora - tem vindo a reunir com os homólogos franceses para delinear o programa. "Acreditamos que vai ser um momento único para a comunidade, que é toda ela muito devota de Nossa Senhora", diz ao DN Madalena Rodrigues Cargnon, coordenadora da catequese, que abrange 800 crianças. Faz parte do núcleo duro da paróquia e participa sempre na peregrinação anual a Fátima, tanto mais que alberga por essa ocasião vários amigos de Gentilly, na terra-natal dos pais, em Vermoil, uma aldeia próxima de Pombal.

Madalena frequenta a Igreja desde os 12 anos, e depois de casar com um francês, integrou-o na comunidade. Hoje são um dos casais que ministram os cursos de preparação para o matrimónio. Aos 47 anos, esta revisora oficial de contas dedica muito do tempo à paróquia, e está a preparar atividades para os mais pequenos, na catequese. "Vamos ter duas ou três sessões consagradas ao centenário. Para os mais pequenos arranjámos uns livros de colorir, para os jovens um vídeo, em francês, que explica o que aconteceu em Fátima em 1917". Em França, há iniciativas similares nas paróquias de Sainte Marie des Batignolles (Paris, 17), Notre Dame du Travail de Plaisance (Paris, 14) e Sanctuaire de Notre Dame de Fátima (Paris, 19).

É também numa Igreja americana dedicada a Nossa Senhora de Fátima que as irmãs Melissa e Nicole Sintra (23 e 25 anos) fazem parte do grupo de catequese português, para um universo de 500 crianças. Desde o início de março que a imagem anda a percorrer os 50 estados dos Estados Unidos da América, numa peregrinação pela Paz, integrada nas comemorações do Centenário, cuja viagem só termina em dezembro de 2017. Para as irmãs Sintra - cujos pais são naturais da região de Leiria, com a qual mantêm forte ligação - a imagem faz parte da vida, desde que se conhecem. "Quando era criança os meus pais sempre nos levaram a visitar Fátima, de cada vez que íamos de férias a Portugal", conta Melissa ao DN. Agora que é adulta vai menos, mas a família não dispensa uma visita anual ao santuário. Por estes dias, ajuda a preparar o acolhimento da imagem na Igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Elizabeth, arquidiocese de Newark.

Centenário como meio de evangelizar

Dois anos depois de ter tomado posse como diretora nacional da Obra Católica Portuguesa de Migrações, Eugénia Costa Quaresma não tem dúvidas da força da diáspora em torno da Senhora de Fátima. "Há comunidades que são de uma entrega extraordinária. E que estão a fazer muito bem esse trabalho, que também é de evangelização, junto das comunidades locais". Reporta-se, por exemplo, aos 50 anos da missão católica no Luxemburgo, celebrados no ano passado, "com grande devoção mariana". Da Suíça, da Alemanha, do Reino Unido ou da Bélgica, chegam-lhe exemplos de boa organização entre as comunidades portuguesas. "Pedimos aos missionários que nos enviem todas as iniciativas de que tenham conhecimento, para as calendarizar", disse esta semana ao DN. "Estou certa de que essas comunidades vão aproveitar o centenário para proporcionar o diálogo, por forma a nos abrirmos ainda mais ao mundo".

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