Ser voluntário em pandemia. "Não vou ficar não sei quantos meses em casa sem fazer nada"

Em tempo de pandemia devemos ficar em casa e privilegiar o teletrabalho, mas há quem não consiga ficar "apenas" a trabalhar à distância. Muitos voluntários combinam o teletrabalho pago com as tarefas presenciais em instituições como o Banco Alimentar.

Rosarinho Sousa Dias é educadora de infância, uma das profissões que atualmente se deve exercer em teletrabalho, e com o novo encerramento das creches e jardins de infância passou a estar com as crianças apenas algumas horas por dia, através do computador. Mas não passou a ter os dias menos cheios.

"Durante as tardes sim, faço tudo o que tem a ver com o meu trabalho: entro em contacto com as crianças, com as famílias, toda essa parte eu faço. Mas durante as manhãs, com esta incerteza toda, em que não sabemos o que vai acontecer [regressar ou não às aulas presenciais], venho para aqui e faço tudo o que é preciso fazer", descreve ao DN a educadora, que também é voluntária no Banco Alimentar.

Participar em ações de voluntariado social é uma das exceções previstas ao dever de recolhimento geral e Rosarinho resolveu dedicar as horas que passou a ter livres à missão de ajudar os outros.

"Pensei: não vou ficar não sei quantos meses, dias ou semanas em casa sem fazer nada porque há instituições que precisam mesmo à séria." A vontade de ser útil levou-a a "instituições onde ia só à porta ajudar"e que acabaram por deixar de aceitar voluntários pontuais, "por causa de não poderem entrar pessoas estranhas nas instituições" em tempos de pandemia.

Disposta a tornar-se "voluntária a tempo inteiro", decidiu experimentar o Banco Alimentar. Começou a vir todas as manhãs. "Aliás, a véspera de Natal, o dia 24 de dezembro, foi passado aqui com os meus filhos", recorda.

António Beltrão também é voluntário no "turno da manhã" do Banco Alimentar, desde outubro de 2017. Começou "por acaso". "Vim aqui trazer um papel de uma conservatória e depois perguntei como é que podia ser útil", descreve, acrescentando que abdicou do estágio profissional de Psicologia Clínica e agora vem "todas as manhãs durante a semana".
"Faço tudo o que for preciso. Neste momento, por uma questão de logística estou na distribuição de produtos não perecíveis", conta.

Voluntariado que preenche e "está no coração"

"Ficar no quentinho, no cómodo, instalado, sem fazer nada, não é princípio para mim. Porque enquanto existirem pessoas cada vez com mais necessidade, eu não posso ficar quieto, calado e acomodado ao meu canto", acrescenta António Beltrão.

"É algo que me enche o dia. E agora, nestes tempos mais conturbados, parece que o dia não fica tão preenchido quando não posso vir cá", diz ao DN.

Se António considera que ser voluntário faz parte dele mesmo, para Rosarinho é algo que "está no coração". E defende que todos deveriam experimentar fazer voluntariado, "porque é uma experiência mesmo gratificante" e quem já fez "consegue sentir" o que tenta descrever.

"Quem nunca fez voluntariado, acha que é um risco, vai pôr quinhentos entraves, porque não sei quê, porque não querem... Mas neste momento é mesmo, mesmo preciso. E aqui [no BA] também há menos voluntários a vir do que é normal, por causa disto tudo", expõe a educadora de infância.

E junta um apelo: "São todos bem-vindos para ajudar. Aqui aceitam todos os braços que aparecem porque há cada vez mais instituições a recorrer ao Banco Alimentar e as pessoas que aqui trabalham não conseguem dar vazão à quantidade enorme de pedidos que chegam".

Sem receio e com todas as precauções

António também vê "que cada dia são mais e mais as pessoas necessitadas de bens materiais". Mas, com 64 anos e "quase" a pertencer a um dos grupos de risco para a covid-19, não receia fazer voluntariado? "O receio que eu tenho é o de ver algumas pessoas que estão cá também a servir, a trabalhar ou voluntários e que se deixaram ir abaixo com esta situação toda. Emocionalmente sentem-se inseguros e eu tento passar uma mensagem de esperança, de alegria", explica.

O voluntário tenta animar todos os colegas que se sentem "mais em baixo", mas sublinha que isso não pode ser motivo para descurar as precauções. "A nossa presidente foi sempre exigente em termos de precauções - do uso da máscara, da higiene das mãos, de tudo isso -, que nós também exigimos a quem vem cá. O que é preciso é estarmos sempre atentos e cuidadosos em tudo o que fazemos", alerta, acrescentando que nunca teve um "receio assim profundo."

Rosarinho é voluntária no Banco Alimentar há menos tempo do que António, mas quem a vê a puxar o carrinho porta-paletes é levado a pensar que nunca fez outra coisa. E as luvas grossas que usa não a impedem de manobrar o carrinho com grande destreza.
"Trabalho sempre, o tempo todo, com luvas e quando chego ali ao carro tenho lá o meu frasco com álcool", diz, destacando a importância da proteção para lidar com a ameaça sempre presente.

"Tenho algum cuidado, não só comigo mas também com os outros. Porque a pessoa nunca sabe, este vírus é assim um bocado traiçoeiro e nunca sabemos onde é que ele vai andar. Por isso, tenho cuidado. Medo não tenho nenhum", assegura.

"Claro que venho sempre de máscara. Sempre, sempre, sempre. E a máscara que eu uso aqui, quando saio, à hora de almoço, é para ir para o lixo. Estes sapatos só são para vir trabalhar para aqui para o Banco Alimentar", conclui a educadora de infância.

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