"Riscos ganham mais relevância porque hoje há menos poluição"

Professor e investigador da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, especialista em poluição atmosférica e presidente da associação Zero, Francisco Ferreira fala sobre as questões ambientais na região de Setúbal

A região de Setúbal é especialmente problemática em termos ambientais?

Sim, é uma das regiões onde a indústria se desenvolveu muito. Primeiro com a Secil, na Arrábida, nos anos 20 do século passado, depois a partir da década de 1950 muitas indústrias instalaram-se ali. Construção naval, pasta de papel, adubos, produção de eletricidade. O porto de Setúbal e a proximidade de Lisboa foram determinantes para isso. Temos, aliás, uma série de locais no país com circunstâncias que o favoreceram também, como Matosinhos, Estarreja, Barreiro, Alhandra e Sines.

Em Setúbal, com muitos conflitos ambientais.

Ambientais e económicos. A produção de ostras do estuário do Sado, no início dos anos de 1970, era famosa à escala mundial, mas foi aniquilada pela poluição, no caso pela construção naval, a principal responsável por isso.

Como é que esses conflitos foram sendo resolvidos?

Houve um passo muito importante, que foi a criação do Parque Natural da Arrábida, em 1976, e depois da Reserva Natural do Estuário do Sado, em 1981. E depois vieram as diretivas comunitárias que forçaram a proteção ambiental. Mas foi sempre um conflito difícil e contínuo. Os estuários são dos ecossistemas mais ricos em termos de produtividade e de capital natural e, no caso do Sado até há uma população de golfinhos residente, única em Portugal. Foi sempre complicada esta convivência, porque estamos a falar de indústrias pesadas que foram ali nascendo e morrendo. É uma história de conflito entre vários interesses, mas as ostras já estão a a voltar devagarinho.

Isso quer dizer que o ambiente melhorou?

As ostras voltam porque a legislação comunitária proibiu o uso do tributil de estanho, o TDT, que era usado na pinturas dos cascos dos navios. A legislação comunitária impôs regras às indústrias e a central térmica, que era a fuel, deixou de ser rentável e parou.

Portanto, a água do estuário melhorou.

Melhorou, mas não significa que seja a ideal. E, por vezes há acidentes, como o que aconteceu há pouco, com um derrame, causado pela antiga Portucel. [Em outubro de 2016, a Navigator Company, antiga Portucel, instalada na Mitrena, assumiu o derrame, que atingiu 800 metros de extensão no rio e no areal, devido a uma falha de uma válvula de um depósito de fuel. A limpeza ficou concluída em três horas, segundo a empresa]. Aquela é uma zona onde se lida com riscos industriais, mas é verdade que as coisas têm melhorado. Os esgotos de Setúbal são todos a ser tratados e as indústrias também melhoraram as suas técnicas, mas ainda não é perfeito.

Quais são os piores problemas neste momento?

As indústrias de maior peso: a construção naval, pelos produtos com que trabalha, a pasta de papel, porque as quantidades de efluentes são muito grandes. Apesar de tratada, a massa de efluentes associada é muito significativa. Uma empresa como a Sapec e algumas outras têm situações geradoras de risco, como a de agora, e a Secil que marca, obviamente, a Arrábida. E para além de toda esta pressão industrial, o estuário tem ainda o peso da agricultura, com os herbicidas e pesticidas.

O que dizem desta região o acidente, agora, e a recente polémica por causa dos resíduos importados de Itália?

São situações diferentes. A questão dos resíduos era a sua proveniência e o seu destino. Mas é um facto que Setúbal, na Secil e no aterro de resíduos industriais, tem estes locais onde eles são eliminados [na coincineração] ou tratados. Temos um forno, no cimento, temos um aterro onde pode haver um incêndio, temos instalações como as da Sapec que têm produtos perigosos, são situações de risco, e elas agora, ganham mais relevância porque a poluição na região é menor.

Qual foi a dimensão deste acidente?

Com escolas encerradas, o dia-a-dia da população alterado e contaminação provável do solo e do ecossistema, já foi de grande dimensão. A prioridade é sempre a saúde pública, mas é normal que tenha havido uma deposição de enxofre, que pode afetar a vegetação da zona e entrar na cadeia alimentar. Este poluente não é bioacumulável, mas terá o seu impacto.

Solos e água devem ser analisados, para se avaliar essa contaminação?

Sim. É importante fazer pelo menos uma triagem para avaliar o impacto deste acidente e, em relação às pessoas, fazer uma avaliação de saúde a longo prazo. Há aqui uma coisa curiosa, que é um problema. As pessoas da região já se habituaram de tal modo a conviver com a indústria e a poluição, que não reagiram de forma dramática, e muitas desvalorizaram a situação.

A própria presidente da Câmara de Setúbal falou em "alarmismo exacerbado", referindo-se ao fecho das escolas em Setúbal.

Aí, está completamente errada. As concentrações que houve são caso para alarme e para as medidas que foram tomadas.

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