"Queremos dar uma equipa de saúde familiar a cada português até ao final da legislatura"

Na semana em que o R(t) volta a estar acima de 1, o secretário de Estado Adjunto e da Saúde, António Lacerda Sales, fala ao DN das preocupações que nunca deixam de existir em tempos de pandemia, de como foi lidar diariamente com o impacto da doença, das mortes que teve de anunciar, de como tinha de se preparar para o fazer, mas também das reformas que foram feitas e do futuro.

Nasceu nas Caldas da Rainha há quase 59 anos e há mais de 30 que é médico, depois de se formar na Faculdade de Coimbra e de se especializar em Ortopedia. O seu hospital, como diz, é o de Santo André, em Leiria. Aquele que deixou em 2015 para assumir o seu lugar na Assembleia da República, em Lisboa, como parlamentar do Partido do Socialista, onde esteve até outubro de 2019, para assumir então a função que agora desempenha, a de Secretário de Estado Adjunto e da Saúde, na equipa da ministra Marta Temido.

Hoje, diz, continua motivado na função que desempenha e na qual estará até "a Sr.ª ministra e o primeiro-ministro o entenderem", quando não o entenderem "regressarei com tranquilidade à minha origem". É assim, porque tanto a política como a medicina são "uma missão ao serviço do bem público".

De si próprio diz ainda: "Sou um ser facilmente adaptável às circunstâncias que me colocam à frente. Portanto, vou vivendo cada dia e fico satisfeito por acordar vivo no dia a seguir. Basta-me isso, seja em Leiria ou em Lisboa".

António Lacerda Sales tornou-se num dos governantes assíduos à frente das câmaras de televisão no briefing diário da evolução da covid-19 durante este ano. Nesta entrevista ao DN, na tarde de quinta-feira, após mais um Conselho de Ministros prolongado, confessa ter passado por momentos inesquecíveis neste ano de pandemia, como aquele em que se emocionou ao afirmar que havia "zero mortos". Depois, começou a ter de se preparar, psicológica e emocionalmente - "era muita informação em tempo real", argumenta.

Agora, não em jeito de balanço, porque "a pandemia ainda não acabou", mas em jeito de análise, diz que Portugal deu uma resposta adequada à pandemia, que sempre confiou no Serviço Nacional de Saúde (SNS), na sua capacidade, e na dos seus profissionais. Para António Lacerda Sales a pandemia trouxe lições, desafios e oportunidades, permitindo "transformar necessidades conjunturais em reformas estruturais".

Hoje (quinta-feira), a realidade impõe-se. O R (t) mantém uma tendência de subida há oito dias. Lisboa e Vale do Tejo é a região com o valor mais elevado. É um sinal de alerta? Preocupa-o o que aí vem?
O aumento da transmissibilidade e da incidência, seja em que circunstâncias for, preocupa-nos, mas diria que é um sinal de alerta, não de alarme. É importante que isto fique bem definido. Mas, obviamente, que temos de fazer um reforço nas medidas e nas estruturas que nos permitam controlar a gestão de qualquer possibilidade de evolução da doença.

E como o vão fazer?
Com as armas que temos à mão, que são bem diferentes das que tínhamos há meses. Vamos fazê-lo preferencialmente com testagem massiva, vacinação, rastreamento e com o reforço de ações ao nível da Saúde Pública.

Há especialistas que alertaram para a redução da testagem, defendendo que não é hora para diminuir a vigilância. Vai ficar assim?
A testagem diminuiu alguma coisa porque a incidência também diminuiu e, obviamente, que as pessoas tiveram menos propensão para testar. Mas nós temos, de facto, a responsabilidade de promover essa testagem e é por isso que nos estamos a organizar nesse sentido. Vamos voltar a reforçar a testagem nas regiões onde o aumento do R(t) e da incidência se verifica com maior intensidade. É o caso da região de Lisboa e Vale do Tejo. Amanhã (sexta-feira) vamos ter já reuniões no sentido de voltarmos a testar um conjunto de segmentos fundamentais, como o fizemos anteriormente no ensino - primeiro ciclo, secundário e superior (professores, auxiliares, alunos) - nas empresas e também na função pública.

Lisboa e Vale do Tejo tem o R(t) mais elevado, mas há 10 concelhos em alerta. Essa medida vai avançar já para todos?
Para já este reforço de testagem está a ser pensado para a região de Lisboa e Vale do Tejo (LVT), o que não quer dizer que não se venha a alargar a outras regiões e concelhos, mas o nosso foco está agora em LVT, porque também foi aqui que os valores subiram um pouco mais. Hoje (quinta-feira) estamos com 110 casos para 100 mil habitantes, o que ainda está abaixo dos 120, mas vamos reforçar rapidamente a testagem na região e em algumas freguesias de Lisboa, com incidências maior, para travar novas cadeias de transmissão. É para avançar o mais rápido possível, de acordo com as orientações da Direção-Geral da Saúde e da task force para a testagem. O foco desta testagem tem três parâmetros: o ser dirigida, programada e oportunística, no sentido de ser aleatória, e vai ser muito importante na continuidade da gestão da pandemia.

A testagem continua a ser importante, até para não pressionar os serviços de saúde?
Queremos continuar a controlar os casos, queremos baixar a incidência e vamos continuar a fazer o controlo que tem sido feito. Não queremos que os novos casos transmitam pressão aos serviços de saúde e isso só é atingível se, do ponto de vista de consciência individual e coletiva continuarmos a cumprir as diretrizes e as regras da DGS, como o uso de máscara, o distanciamento físico, a higienização das mãos e dos materiais com que contactamos. Esta é a única via para podermos fazer uma boa gestão e um bom controlo da pandemia e diminuir a pressão sobre os serviços de saúde.

Durante a pandemia, foram criadas task force para a vacinação e para a testagem. São para continuar?
São task forces muito importantes, porque nos permitem planear, programar e implementar, o que, em saúde, deve ser sempre feito. No caso das task forces para a vacinação e para a testagem, quer uma quer outra têm funcionado muito bem. Os resultados têm sido por demais evidentes. Portanto, enquanto a pandemia durar ou enquanto for necessário tomar medidas para controlar a pandemia eu diria que devem continuar.

Uma equipa familiar para cada português até ao final da legislatura

Passemos aos Cuidados de Saúde Primários (CSP). Há dias, no Parlamento, a ministra Marta Temido anunciou que houve um agravamento do número de portugueses sem médico de família, agora são 900 mil. É uma situação constante. Para quando uma estratégia ou política de Saúde que torne os CSP uma verdadeira prioridade?
Os cuidados primários de saúde sempre foram uma prioridade dos governos socialistas. Relembro que, em 2015, havia 1,3 milhões de utentes sem médico de família. Fizemos um esforço grande, quer ao nível da integração de profissionais quer na formação, nomeadamente em médicos de Família Geral e Familiar. A meio de 2020, estávamos com cerca de 700 a 750 mil utentes sem médico de família, houve uma recuperação de mais de 600 mil utentes com cobertura médica em relação a dezembro de 2015.

A pandemia agravou essa realidade?
É evidente que o período pandémico levou a um atraso nos exames de formação para especialistas e a situação pode ter agravado. Houve muitos médicos que também se reformaram, mas considerando nós que os CSP são a porta de entrada no sistema de saúde, e que os médicos são, de facto, a chave para se reorganizar estes cuidados, continuamos a trabalhar e rapidamente para se aumentar essa cobertura. Mas relembro que, em 2020, tínhamos uma taxa de cobertura de médicos de família que se situava nos 92% - a 31 de dezembro tínhamos mais 583 especialistas de Medicina Geral e Familiar (MGF). Normalmente, e desde 2017, embora com pequenas variações, que são formados cerca a de 500 de médicos de MGF e é com este reforço que vamos continuar a contar para poder dar aos portugueses a cobertura necessária de cuidados nesta área.

Qual é a meta em termos de cobertura ?
Até ao final da legislatura, queremos ter uma equipa de saúde familiar, não só de médicos, com todos os profissionais, para cada português. Temos consciência que é um fluxo com entradas e saídas, há médicos que chegam e outros que se reformam, mas, por isso, é que na Lei do Orçamento do Estado está previsto no artigo 278 que se estes médicos pretenderem manter-se ao serviço, o poderão fazer e com direito a alguns incentivos, nomeadamente pecuniários. O que estamos a fazer é um esforço grande para equilibrar este saldo entre o que são as formações de 500 médicos por ano e as aposentações.

A região LVT é das mais carenciadas em médicos de família há muitos anos, o que é preciso fazer para fixar os médicos?
Neste momento, já temos vários incentivos, mas há outras causas que levam a esta situação em Lisboa e Vale do Tejo. São causas do ponto de vista sócioeconómico. As rendas de casa são mais caras, a restauração também. A vida em si é mais cara. Por isso, é provável que as pessoas procurem outros locais onde possam exercer e ter uma qualidade de vida diferente.

Isso quer dizer que é preciso pensar numa reestruturação do sistema para se fixar médicos em Lisboa?
Sim, mas temos de ter cuidado com a equidade no processo, porque quando criamos um incentivo, seja ele de que tipo for, para novos médicos temos de ter cuidado com os que já lá estão. Repare. É difícil perceber que duas pessoas que trabalham uma ao lado da outra tenham remunerações ou condições muito diferentes. Portanto, tem de haver aqui algum nível de equidade.

Mas vão ser criados incentivos...
Evidentemente que percebemos que têm de ser criados incentivos, de forma mais ao menos universal e a apanhar todos os profissionais. Não basta dizer que queremos que venham mais 300 médicos para Lisboa e que vamos dar-lhes um ordenado superior, não pode ser assim. Temos de fazer uma gestão ponderada e pensada para se criar esses incentivos. Temos de equilibrar as carreiras, os projetos de carreiras, as condições remuneratórias. Uma das medidas que já existe para fixar profissionais em locais mais carenciados são "as vagas carenciadas", que, além do aspeto remuneratório, têm outros incentivos de vida familiar, como condições para o cônjuge e para os filhos. Mas tudo exige um equilíbrio muito grande, sobretudo em relação às regiões do país que estão mais carenciadas e que exigem por si medidas mais estruturadas que possam fixar os profissionais.

E Lisboa e Vale do Tejo é uma dessas regiões?
É. Mas, sabe, esta nova geração de médicos é uma boa geração, e não só a de médicos, a de outros profissionais também. É uma geração que, para além de estar ligada ao aspeto remuneratório, o que é normal, está também muito ligada a projetos na carreira, a projetos na investigação e na área do conhecimento. E acho que devemos aproveitar a boa motivação desta nova geração, muito qualificada e conhecedora na área da medicina, para os podermos cativar através de projetos bem pensados e ponderados.

Ainda sobre os CSP, que foi um dos setores onde a pandemia veio mostrar mais fragilidades, os profissionais continuam a queixar-se da falta de meios e de condições. Agora, há o processo de vacinação, que, dizem, está a afastá-los da atividade programada. A situação vai ser resolvida?
O levantamento que temos para as necessidades de médicos na área da vacinação é da ordem dos 600 médicos. Temos mais de 9000 médicos de Medicina Geral e Familiar, parece-me que é possível compatibilizar estes números. Obviamente que é muito importante que estes médicos possam estar no processo de vacinação sem que isso altere o que é a sua atividade assistencial programada, mas isso hoje é possível. Repare nos números: 600 médicos para a vacinação em 9000. Parece-me minimamente aceitável, é menos de 10%.

Também há muitos enfermeiros, que se queixam do mesmo...
Em termos de enfermagem temos uma necessidade de cerca de 2500 para a vacinação, o que também me parece que, em 48 mil enfermeiros, em termos globais, contando cuidados primários e hospitalares, é um número aceitável. Mas em todo o processo estão à volta de 4700 profissionais.

A questão é que os profissionais dos CSP dizem ser eles que estão a assegurar quase toda a vacinação...
Estes profissionais têm sido fundamentais, é preciso o justo agradecimento e reconhecimento de todos, mas estamos a falar de percentagens da ordem dos 10%. Mas também me parece que a recuperação da atividade assistencial não tem sido perturbada, já estamos quase há cinco meses a vacinar e os números de recuperação da atividade assistencial são perentórios. No acumulado de janeiro a abril, e isto já foi dito pela Sr.ª ministra no Parlamento, em relação ao período homólogo, temos mais 2,5 milhões de consultas do que tínhamos em 2020.

Queremos recuperar os atrasos na atividade assistencial até ao final do ano

Esses dados podem ser comparáveis com 2020? Foi um ano atípico. A atividade esteve parada, não deveria ser com 2019?
O que é justo é compararmos com períodos homólogos, também pode ser a 2018 ou a 2017, mas, repare, 2020 foi um ano atípico, mas em janeiro e fevereiro não tínhamos pandemia, começou em março. E este ano tivemos problemas foi em janeiro e em fevereiro. No fundo, há aqui quase como que uma compensação, porque em março começámos a recuperar. Estamos a comparar dois períodos relativamente ao que foi o quadrimestre e, assim, temos de reconhecer que tivemos mais de 2,5 milhões de consultas nos CSP, mais 400 mil nos cuidados diferenciados e mais 32 mil cirurgias. Estamos também a recuperar em patologias essenciais, o caso da oncologia, onde, a 31 de dezembro de 2020, tínhamos cerca de 5800 doentes por operar, e nestes primeiros meses do ano, já operámos quase quatro mil, recuperámos cerca de 70%. Portanto, tem sido feito um esforço muito grande. Os profissionais de saúde têm sido excecionais, perceberam que temos de fazer este esforço. E queremos recuperar todos estes atrasos em termos de atividade assistencial até ao final do ano. Se tal for possível e se obviamente não houver imprevisíveis.

Muitos doentes não covid ficaram sem acesso a cuidados de saúde. Foram deixados para trás. Isso foi uma preocupação como médico e governante?
Toda a atividade não covid foi sempre uma preocupação para nós, mas percebemos que tínhamos de focalizar toda a nossa força e energia no que era a atividade covid. Repare, isto é muito duro de dizer, mas é preciso que as pessoas percebam. Tivemos um teatro de operações de guerra no Ultramar durante 13 anos com oito mil vítimas e num ano com a covid tivemos 17 mil vítimas. Isto é brutal. É de um impacto enorme. Mas é preciso dizê-lo para que as pessoas percebam que tínhamos de focalizar toda a nossa atenção na pandemia.

E como avalia essa gestão da pandemia?
Tivemos um comportamento que me parece adequado e razoável. Tivemos de nos focar na doença, na sua gravidade e na morbilidade. Se não o tivéssemos feito poderia ter sido muito pior. Portanto, acho que houve uma boa gestão da pandemia. Exatamente porque focalizámos nela toda a nossa atenção, mas é evidente que quando isso acontece há de haver sempre algum tipo de patologia não covid que fica para trás, mesmo assim, tivemos muito cuidado, com as patologias oncológicas e outras patologias crónicas. Mas, agora, queremos é olhar para a frente, para o futuro e rapidamente recuperar todas as patologias que ficaram para trás.

Ainda vou ao passado, o que foi mais difícil de gerir na pandemia, quer do ponto de vista operacional, falta de recursos humanos, técnicos, etc?
Do ponto de vista operacional o período mais difícil de gerir foram os meses de janeiro e de fevereiro de 2021. Foram meses em que os serviços de saúde estiveram sob grande pressão e onde de facto foram postos à prova. Muitos queriam vaticinar o colapso dos serviços de saúde, mas o SNS mostrou que, de facto, responde. E respondeu através da sua capacidade de expandir a sua rede ao nível de enfermarias e de cuidados intensivos. Nós fizemos de necessidades conjunturais verdadeiras reformas estruturais que vão ficar para o futuro. As unidades de cuidados de intensivos, os laboratórios que colocámos a funcionar de forma completamente diferente, o reforço nos recursos humanos e no equipamento vão ficar para o futuro.

Foram reformas na Saúde?
​​​​​​​Só em 2020 entraram no SNS mais de 12 mil profissionais. Foi uma necessidade conjuntural, no âmbito da pandemia, mas a maioria destas situações vai ficar para o futuro. Acho que isto foi muito importante. Portanto, isto deu-nos a oportunidade de fazer da pandemia um desafio e de aproveitar esse desafio para estas reformas estruturais.

"Houve sempre decisões difíceis, mas o certo é que SNS respondeu e respndeu bem. Isto é inequívoco e ninguém de bom senso o coloca em causa".

Teve de tomar alguma decisão muito difícil para si?
A função de um Secretário de Estado é, para além de tomar decisões, cooperar com a equipa, nomeadamente com a Sr.ª ministra, que é quem implementa estratégias de políticas públicas, e foi isso que tentei fazer da forma mais colaborativa possível. Agora isso implicou decisões e houve sempre decisões difíceis. Às vezes, decisões onde ninguém imagina, como o termos de transferir um doente de um local para outro e depois já não haver a cama que pretendíamos e termos de o transferir para outro local diferente, mas isto foi possível também pela verdadeira expansão da rede do SNS, quer ao nível das enfermarias quer dos cuidados intensivos. É uma questão muito importante porque foi aqui que o SNS de facto mostrou que dava resposta.

Houve mais de 900 internamentos em UCI e mais de 4 mil em enfermarias...
Exatamente, quando as linhas vermelhas para as UCI, em termos de covid, eram de 245 doentes e para as enfermarias de 1500. Falamos de números com grande expressão. Portanto, foi sempre muito difícil de gerir quando tínhamos de transferir doentes de um lado para o outro. Mas quer a Sr.ª ministra quer nós aqui, sempre em colaboração, reuníamos quase diariamente com as ARS, com os conselhos de administração dos hospitais e com os diretores dos ACES (Agrupamentos de Centro de Saúde) para que se pudesse articular da melhor forma todas as respostas. E o certo é que o SNS respondeu e respondeu bem. Isso hoje é inequívoco. Ninguém de bom senso coloca isso em questão. E, acima de tudo, foi uma aprendizagem.

Nunca duvidou da resposta do SNS?
Nunca duvidei que os profissionais teriam capacidade para responder da forma como responderam. Nunca duvidei porque sou um profissional de saúde e como tal sei a força que há no terreno em termos de capacidade de resposta ao nível dos profissionais de saúde. São profissionais que trabalham em equipa e, sabe, isso também me ajudou nesta minha função de governante, porque quem aprende a trabalhar em equipa como profissional de saúde, quando vem para uma função de governo sabe que tem de trabalhar em equipa. E foi isso que aconteceu no ministério. Trabalhámos todos em equipa e o resultado disso foi o bom resultado da gestão da pandemia.

Em fevereiro a rede de oxigénio de um dos hospitais da área de Lisboa (Fernando da Fonseca) colapsou. Foi um caso que marcou o país e único na Europa. O SNS não falhou?
Não. Trabalho há mais de 30 anos no SNS. Tenho muita confiança no SNS e acredito no SNS. É claro que às vezes há episódios e fatores que são imponderáveis na saúde. E a questão do HFF é diferente. Ninguém estava preparado, ou não estaria um hospital com as condições do Fernando da Fonseca, para fazer ventilações de alto débito em tão grande quantidade e que as tubagens pudessem não ter a resposta que se exigia. Mas isso foi rapidamente solucionado. O conselho de administração do hospital solucionou o problema transferindo os doentes para outras unidades, mais uma vez a capacidade de expansão do SNS foi evidenciada. Está a apresentar-me um caso em dezenas de hospitais que temos.

Mas foi um caso que envergonhou o país. E o Centro Hospitalar Tâmega e Sousa? O HFF e este são dois hospitais subdimensionados há muito tempo...
São dois casos diferentes. O Tâmega e Sousa teve um excesso de fluxo de doentes e o HFF, teve a ver também com o fluxo de doentes, mas com a estrutura material. Deixe-me dizer o seguinte: se houve matéria em que reforçámos o SNS foi em recursos humanos. Eu fui parlamentar de 2015 a 2019, na altura havia dezenas, centenas de perguntas sobre recursos humanos, ontem estive no Parlamento, em audições, e tive poucas ou nenhumas perguntas sobre recursos humanos. Isto é sinal de que houve, de facto, um reforço sério, consistente e responsável nos recurso humanos. Nós hoje temos mais 28 mil profissionais do que tínhamos a 31 de dezembro de 2015. No ano passado, entraram 12 mil, no âmbito da covid. Temos mais seis mil médicos em relação a 31 de dezembro de 2015, mais de nove mil enfermeiros do que em dezembro de 2015.

"Se há matéria em que hoje também estamos todos de acordo é no reforço dos recursos humanos".

E as condições de trabalho...
Não só reforçámos o SNS como demos condições de trabalho. Agora, estamos a executar os nossos compromissos na Lei do Orçamento do Estado. Das 12 mil contratações já fizemos duas mil conversões e vamos abrir concursos para poder passar muitos destes profissionais que contratámos a termo para um vínculo de estabilidade. Portanto, se há matéria em que hoje também estamos todos de acordo é no reforço dos recursos humanos. Não vejo nenhum partido político, só se for por questões meramente políticas ou partidárias, a questionar isto, porque foi feito um grande esforço, que é para manter. Tal como vamos manter os investimentos na requalificação.

Mas o que é que a pandemia veio mostrar o que vai ser preciso mudar no SNS?
Temos de tirar lições daquilo que aprendemos durante a pandemia. A primeira grande lição é que nós, raça humana, somos muito mais frágeis do que aquilo que pensávamos, muito mais vulneráveis, mas também temos uma capacidade de reagir a ameaças muito maior do que se calhar aquela que pensávamos que tínhamos. A pandemia condicionou-nos no que é a nossa existência, mas não nos expropriou do que é o nosso humanismo. Hoje somos capazes de estar mais humanos, afetivos e mais tolerantes uns com os outros. Acho que esta é uma das lições, uma cultura de tolerância na Saúde, e a transmitir às gerações futuras. Mas a pandemia também nos deu a oportunidade de cultivar a capacidade de trabalhar em equipa, o que é muito importante na área da saúde, trabalhar a coerência, de planear e estas lições são para ficar.

A pandemia foi uma oportunidade para mudar...
Foi. Por isso disse há pouco que transformámos muita coisa. Nas unidades de cuidados intensivos tínhamos 1142 ventiladores, hoje temos mais de dois mil. Duplicámos essa capacidade. Em março de 2020, fazíamos pouco mais de 2000 testes, hoje já chegamos a fazer 98 mil num dia. Em março de 2020, tínhamos um só laboratório a funcionar para a covid, o do INSA, hoje temos 160, entre público, privado e academias. Em muitas áreas, foi a grande oportunidade de fazer o que era necessário fazer numa reforma estrutural. A pandemia trouxe-nos lições, oportunidades e desafios...

Vem aí o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), que, entre outras coisas pede urgências mais concentradas e mais escrutínio na gestão, faz sentido?
O plano de organização das urgências de que está a falar tem a ver com a concentração das especialidades, o que, no fundo, já existe ao nível das grandes urgências metropolitanas e que muita gente elogiou, nomeadamente o presidente da Associação dos Administradores Hospitalares, no 27.º congresso, em 2018. Ainda me lembro, o Dr. Alexandre Lourenço elogiou a reorganização e a responsabilização dos conselhos de administração. Portanto, estamos convictos que teremos os administradores hospitalares e os profissionais connosco nesta matéria.

Falava em termos de reorganização hospitalar...
Na reorganização hospitalar o que queremos é maior eficiência, que penso ser o que todos querem e estão de acordo. Quando se fala em reorganizar fala-se em obter eficiência, em dar maior autonomia e responsabilização aos conselhos de administração. Há pouco falou na resposta dos CSP e relembro que só para os CSP o PRR inclui 467 milhões de euros.

Dinheiro do PRR vai permitir exames de diagnósticos nos cuidados primários

Em que vão ser investidos os 467 milhões?
É para ser investido em estruturas, em recursos humanos, em equipamentos em aumento de resolubilidade dos centros de saúde, que é algo muito importante na reforma dos cuidados primários, porque vai permitir que o doente tenha acesso a um conjunto de técnicas, a exames complementares de diagnóstico dentro dos CSP. Mas obviamente que estes valores do PRR também vão ser usados para os cuidados continuados e paliativos.

E nos hospitais?
Estamos a fazer grandes investimentos no Seixal, Sintra e em Lisboa Oriental, que são grandes construções que envolvem montantes elevados e que todo o processo tem de ser feito também de forma gradual.

O hospital de Lisboa Oriental vai avançar? Há muitos anos que se diz que vai ser construído...
As grandes estruturas são planeadas com muito tempo de antecedência. Têm um caminho próprio a fazer. Na minha terra, em Leiria, o meu hospital abriu em 1995 e começou a ser planeado em 1985. É uma realidade. Estas grandes estruturas têm de ter tempo para serem consolidadas, sedimentadas, ponderadas. Não há nenhuma grande reforma a sério da Saúde que não se faça com menos de oito a dez anos.

O caso do Hospital Lisboa Oriental tem mais de 20 anos...
Estou a falar de reformas globais que levam muito tempo a fazer, que têm de ser muito discutidas e participadas porque têm muita gente envolvida. Os investimentos por si só também têm de ser muito ponderados, porque se se fazem por pressão do momento político acabam por estar desatualizados daqui a meia dúzia de anos. Assistimos a muitas situações desse tipo no passado em que por pressão do momento político se fazia uma estrutura física e passados dez ou 15 anos estava ultrapassada. Temos de ser sérios e responsáveis no que fazemos, quando implica os recursos e os impostos dos portugueses.

Falou no futuro e já em alguns compromissos até final da legislatura. Quais vão ser as prioridades?
O SNS foi sempre uma prioridade dos governos socialistas e, portanto, vai continuar a ser, quer ao nível de reforço financeiro e de recursos humanos. Relembro que entre 2015 e 2020 o orçamento da Saúde subiu 2, 4 mil milhões de euros, o que é significativo em termos de dotação orçamental. As grandes prioridades têm de ser a Saúde, o SNS e a recuperação económico e social. Em relação à Saúde, não vejo ninguém, da direita à esquerda, a contestar isto. O que só prova que os XXI e XXII governos socialistas tinham razão quando fizeram da Saúde uma prioridade.

Tinha de me preparar psicológica e emocionalmente para as conferências

Vamos falar um pouco de si. Faz um ano a 3 de agosto que se emocionou ao referir na conferência de imprensa diária que havia zero mortos. Foi um momento. O que sentiu?
Sabe, sempre que os profissionais de saúde salvam uma vida sentem uma grande satisfação. É o nosso objetivo. É para isso que estamos formatados. E senti que os profissionais de saúde naquele momento brilharam, foram capazes. Foi a resposta efetiva dos profissionais ao que estávamos a passar. Não foi um momento fácil para mim, mas foi um momento inesquecível pela grande satisfação. Também é importante dizer que já houve cinco dias (ontem, sábado, foi o sexto) com zero óbitos e o nosso objetivo é fazer destes dias, não as exceções, mas a regra.

E o que sentiu em janeiro quando tivemos mais de 420 mortos num dia?
​​​​​​​Tristeza. Senti a sensação de que tínhamos de fazer mais alguma coisa e, que, se calhar, nós governantes estávamos a precisar de ajudar mais os profissionais de saúde, estar mais perto deles. E foi isso que fizemos, todos os dias tínhamos reuniões com as estruturas, com os conselhos de administração, com diretores clínicos. Todos os dias sentíamos que tínhamos de responder enquanto estrutura governativa, que tínhamos de estar ao lado deles e de cooperar. Penso que isso se sentiu e, na minha perspetiva, por isso é que o SNS também respondeu.

Tinha de se preparar para ir para as conferências de imprensa e anunciar quantos mortos atingiu o país?
Tinha de me preparar emocional e psicologicamente. Esses momentos não foram fáceis. E havia muita outra informação, fluida, volátil, dinâmica, porque nesta pandemia não estávamos a lidar com certezas, estávamos a lidar com a informação ao minuto, tem sido uma pandemia online, para a qual nos tínhamos de preparar. Tinha de me preparar para toda a informação, até do ponto de vista operacional e logístico.

Há quem diga que é o elo de ligação entre o governo e as classes profissionais, esse papel é por ser um profissional de saúde ou não?
Acho que toda a equipa do ministério tem feito esse papel, mas, reconheço que, se calhar, por ser profissional de saúde e trabalhar em hospitais há tantos anos, que me tem dado alguma facilidade. Conheço grande parte dos profissionais de saúde e reconheço muitas das suas dificuldades e constrangimentos. É normal que isto me faça estar próximo deles e é dever meu fazê-lo. Também é por isso que estou aqui, para colaborar. A Sr.ª ministra faz a estratégia e nós colaboramos na sua implementação.

Isso quer dizer que está bem na política. Não sente saudades da medicina?
​​​​​​​Sinto-me motivado para desempenhar a função que tenho. Acho que é uma função que nos dá vida, no sentido de percebermos as dificuldades dos outros. Nós, médicos, temos muitas vezes a sensação de que, para além daquilo que é a porta da nossa consulta, temos dificuldade em tomar decisões. E como governantes a decisão tem uma amplitude diferente. Temos de incorporar o que há pouco disse, as fragilidades dos outros, e isso obriga-nos a tomar outro tipo de decisões, mas quer umas quer outras têm muito em comum, porque estão ao serviço de um bem público. Esta é a missão, como governante e como médico. Se não for uma missão nada faz sentido. Por isso acho que estou motivado em colaborar nesta missão, e enquanto a Sr.ª ministra e o senhor primeiro-ministro entenderem que devo estar aqui, estarei. Quando entenderem que não, regressarei à minha origem com tranquilidade.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG