Portugal receberá mais 13 milhões de doses de vacinas do que o previsto

Em audição parlamentar, o coordenador da task force admite que o país não estava preparado para vacinar 10 milhões em seis meses e que obviamente o processo terá falhas.

Em dezembro, antes de anunciar o Plano de Vacinação contra a Covid-19, a ministra da Saúde veio afirmar que Portugal previa gastar na totalidade 200 milhões de euros, o que correspondia a cerca de 22 milhões de doses de vacinas. No início do mês de março, Marta Temido anunciou que afinal seriam 38 milhões de doses de vacinas, o que permitiria, inclusive, apoiar outros países, mas sem referir o custo para o país.

Nesta quarta-feira, durante a audição nas comissões parlamentares da Saúde e de Acompanhamento da Aplicação das Medidas de Resposta à Pandemia da Doença Covid-19, o coordenador da task force, vice-almirante Gouveia e Melo, confirmou que afinal serão 35,8 milhões de doses, o que corresponde assim, e tendo em conta que o primeiro número era de 22 milhões de doses, a mais 13,8 milhões de doses de vacinas, desde que o processo se iniciou.

O DN contactou a task force e o Ministério da Saúde para obter uma resposta sobre o que levou a este aumento de compras de vacinas e quanto é que isso custará mais ao país, mas não obteve resposta até à hora do fecho desta edição. À partida, a aquisição de mais vacinas é um sinal positivo, falta saber como vão ser distribuídas em termos de grupos de risco.

Na audição, o vice-almirante Gouveia e Melo defendeu a integração no Plano de Vacinação de outros grupos considerados prioritários, nomeadamente o de "jovens com doenças muito críticas", argumentando que estes não estão abrangidos pelo critério prioritário da idade e que "devem ser puxados para a frente".

Gouveia e Melo explicou ser esta a sua opinião e que a tem transmitido à Direção-Geral da Saúde (DGS): " Se essas doenças forem muito críticas, independentemente de a pessoa ser mais jovem, pode ter grande vulnerabilidade na pandemia." Sustentando ser este tipo de matérias que a task force tem de tratar. "É isto que temos de tratar, encontrar doenças que estão a atacar grupos muito jovens e que podem não ser atingidos pelo critério de idade e que devem ser contemplados."

O vice-almirante, que durante várias horas respondeu às questões dos deputados presentes na audição pedida pelo PSD, usou o exemplo dos jovens como argumento de que há grupos mais prioritários do que outros que reclamam ser considerados prioritários, como fisioterapeutas, docentes do ensino superior ou trabalhadores de serviços essenciais.

Da parte dos deputados não houve qualquer questão sobre a recomendação que a Organização Mundial da Saúde e o Centro Europeu de Controlo de Doenças para que profissionais de saúde e idosos com mais de 80 anos infetados há mais de 90 dias sejam vacinados. O argumento é o de que as pessoas que contraíram a doença no início da pandemia nesta altura podem já não ter anticorpos para evitar uma reinfeção. Este alerta foi também feito pela Ordem dos Médicos nesta semana, mas sobre o qual ainda não há decisão.

A boa notícia é que, se não houver mais contratempos, a 11 de abril deverá ficar completa a primeira fase da vacinação, mas ainda há a preocupação de identificar "40 mil pessoas que vivem acamadas ou isoladas no país e que devem ser vacinadas". Para esta missão, a task force conta com a ajuda das autarquias, das freguesias e da GNR.

Ainda há 300 mil pessoas para vacinar na primeira fase

No total, e de acordo com os dados disponibilizados ao DN na terça-feira pela task force, ainda faltam vacinar cerca de 300 mil pessoas da primeira fase. Gouveia e Melo reconheceu aos deputados que "o agendamento e a convocatória são uma elevada preocupação em termos organizativos", realçando contudo o trabalho que está a ser feito para "melhorar os dados" e a criação de alternativas, como o autoagendamento. Perante os parlamentares, o vice-almirante admitiu:

"As coisas não estavam preparadas. Se alguém pensa que estava tudo preparado, não estava. O país não estava preparado para dar 20 milhões de vacinas em cerca de seis meses. Há um conjunto de adaptações que estão a ser feitas em ritmo muito acelerado e também têm falhas e temos de viver com elas. Se alguém pensar que este processo vai ser isento de falhas está a pensar mal, de certeza, e a exigir coisas que são impossíveis de fazer."

A coordenar a task force desde a saída do ex-secretário de Estado da Saúde Francisco Ramos, o oficial da marinha assumiu que se está a "conseguir responder, com dificuldades e preocupações, mas há um forte empenhamento, quer do Ministério da Saúde quer dos profissionais no terreno. Não tenho de me queixar de nada."

Neste momento, diz, "estou preocupado em concretizar um plano que vacine 100 mil pessoas diariamente e que consiga ir até às 150 mil. Isto não é uma corrida de 100 metros e sim uma maratona". Sobre a contratação dos recursos humanos necessários para o reforço da operação no segundo trimestre - estimado em "cerca de 2500 enfermeiros, 400 médicos e 2300 assistentes" -, assegura que "há luz verde para a contratação" e realçou o caráter crítico deste processo para o país.

"Os recursos terão de aparecer e ser disponibilizados para fazer esta tarefa. Não me parece que vá haver um grande problema; claro que vai haver problemas de contratação, de preparação, de como vão ser os contratos, mas esse também é um problema com o qual não me posso preocupar neste momento. Desde que os recursos sejam disponibilizados, a minha grande preocupação é organizar esses recursos."

O DN errou no número de doses que estão previstas chegar na totalidade a Portugal. São 13,8 milhões de doses a mais e não 23 milhões como estava referido. Pelo lapso, as nossas desculpas aos leitores.

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