Portugal já ultrapassou o limite em todas as categorias ambientais

Gerações mais velhas têm um maior impacto ambiental per capita, mas foram elas que implementaram políticas que têm ajudado a reduzir esses mesmos impactos

Portugal já ultrapassou o limite em todas as categorias ambientais e a herança das gerações passadas tem um peso significativo nas alterações climáticas, mais do que as atuais. Estas são algumas das conclusões do estudo da Fundação Calouste Gulbenkian "Limites Ecológicos: O Impacto Intergeracional do Uso de Recursos Naturais", coordenado por Tiago Domingos e Ricardo da Silva Vieira, do Instituto Superior Técnico.

Entre as categorias em que Portugal já ultrapassou os limites ecológicos - alterações climáticas, poluição da água, consumo de água doce, produção e deposição de resíduos, poluição atmosférica, destruição da camada de ozono, pressão sobre os ecossistemas - são as três primeiras que oferecem uma maior preocupação, de acordo com o estudo. "A razão pela qual indicamos essas áreas como mais preocupantes é porque nestes indicadores verificámos pelo menos uma de duas situações: ou os indicadores apresentam uma maior ultrapassagem do limite para o último ano analisado (caso das alterações climáticas e da poluição da água por fósforo) ou os indicadores apresentam uma taxa de aumento bastante elevada (caso da poluição da água por fósforo e do uso de água doce)", explicam ao DN Tiago Domingos e Ricardo da Silva Vieira.

Foi ainda descoberto que as gerações mais velhas têm impactos ambientais per capita mais elevados do que as gerações mais jovens no que diz respeito a fatores como a poluição da água e a pressão sobre os ecossistemas. "O grande motivo para estas diferenças nas gerações deve-se ao facto destes indicadores ambientais estarem hoje com uma tendência decrescente, ou seja, estamos a ficar melhor nestes indicadores do que estávamos há 40 ou 50 anos. Isto significa que as gerações mais velhas tiveram um período nas suas vidas onde os impactos da pressão sobre os ecossistemas e poluição da água eram elevados e se encontravam a piorar. As gerações mais jovens, que vivem já num período onde estes impactos ambientais se encontram numa tendência decrescente, acabam por ter um balanço menos negativo nestes indicadores", adiantam os coordenadores do estudo.

Apesar de existir um ónus maior sobre as gerações mais velhas, todas as gerações têm ultrapassado os limites ecológicos. A única exceção é a Geração Z, porque são ainda muito novos - o estudo vai até 2016 na maioria das categorias de impacto ambiental, ano em que a média tem apenas 16 anos. "Todas as gerações ultrapassaram os limites ecológicos e todas as gerações apresentam um período de tempo nas suas vidas onde os seus impactos ambientais são superiores aos das restantes gerações quando comparamos a mesma idade. Por exemplo, no caso das alterações climáticas, as gerações nascidas em 1984-99 apresentam um impacto ambiental superior a qualquer outra geração quando tinham idades entre os 15-24 anos. Já as gerações nascidas em 1960-83 possuem maior impacto que qualquer outra geração nas idades entre os 25 e os 39 anos. Por outro lado, verificamos que as gerações mais jovens atingem um pico nos seus impactos ambientais numa idade cada vez mais jovem e este pico tem uma magnitude cada vez mais baixa. Ou seja, o pico do impacto ambiental das gerações nascidas entre 1924 e 1959 ocorre a partir dos seus 50 anos de idade e é mais elevado do que o pico de impacto ambiental verificado nas gerações nascidas entre 1960-1983 e 1984-1999. Nestas gerações mais jovens, o pico dos seus impactes ambientais ocorreu entre os 30-40 e 15-25 anos de idade, respetivamente, e a magnitude deste impacto é consideravelmente inferior à dos impactes das gerações procedentes", referem os professores do Instituto Superior Técnico.

A razão pela qual estes picos são cada vez menores deve-se ao facto de, precisamente as gerações mais velhas, terem começado a implementar políticas ambientais a partir dos anos 90. O mesmo acontece com as tecnologias, que foram pensadas, desenvolvidas, testadas e introduzidas no mercado pelas gerações mais velhas.

"Temos políticas como a eliminação do petróleo na produção elétrica, o investimento em renováveis, a introdução do gás natural, a promoção de veículos e combustíveis mais limpos, as políticas de valorização de resíduos, entre outras. Veja-se que em 1960 para produzirmos 1 MWh de eletricidade emitíamos 2,2 kg CO2, mas em 2016 emitíamos apenas 1,4 kg CO2 para a mesma quantidade de eletricidade. Isto significa que hoje podemos consumir mais pelo mesmo impacto ambiental. No âmbito das tecnologias, temos hoje disponíveis no mercado uma série de tecnologias mais limpas. Temos, por exemplo, o gás natural como alternativa ao gás butano, temos mais alternativas elétricas na nossa cozinha; temos lâmpadas mais eficientes; temos a opção de colocar o nosso lixo para reciclar. Hoje temos a alternativa da escolha, escolha essa que nas gerações mais velhas era mais limitada ou inexistente", explicam ao DN Tiago Domingos e Ricardo da Silva Vieira, que referem ainda a entrada de Portugal na União Europeia como um fator positivo.

Perante este cenário de as várias gerações passadas terem ultrapassado os limites de emissões, o estudo conclui que as gerações presentes e futuras em Portugal, para serem sustentáveis, terão disponíveis um limite de emissões de carbono 41% inferior ao que se verificava até aos anos 90. "O limite foi estimado tendo por base o quanto podemos emitir até ao fim do século, em termos de gases com efeito de estufa, garantindo que cumprimos o Acordo de Paris. Deste orçamento de emissões, dividimos este por ano para nos dar um orçamento anual. O que acontece com este valor é que, sempre que num dado ano emitimos mais do que o orçamento para esse ano, ficamos com menos disponível para os anos seguintes. Quando ultrapassamos o limite anual num dado ano, isso implica que ficamos com um limite anual mais baixo nos anos seguintes (para compensar a ultrapassagem nesse dado ano). Neste momento estamos num valor 41% inferior ao que tínhamos em 1990 por esse motivo", concluem os coordenadores do estudo.

ana.meireles@dn.pt

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