Porque é que os portugueses tomam tanta vitamina D?

Infarmed, Direção-Geral da Saúde e Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge vão investigar métodos de medição dos níveis de vitamina e racionalidade na prescrição

Num ano os portugueses gastaram 5,7 milhões de euros em medicamentos de vitamina D, dos quais 2,1 milhões foram comparticipados pelo Estado. Os dados de 2016 alarmaram as autoridades de saúde - Infarmed, Direção Geral da Saúde (DGS) e Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA) - já que 12 meses antes os gastos tinham sido quatro vezes inferiores. Para perceber "as razões que justificam este aumento anormal da utilização de medicamentos contendo vitamina D", estas três entidades abriram uma investigação "firme e rigorosa", indicou ontem o Infarmed, em comunicado.

Num país com tanto sol - sendo a exposição solar a principal fonte de vitamina D - como pode haver tanto défice que leva a este consumo? A discussão já se estendeu a outros países que apesar do sol, têm défice de vitamina D. Em causa pode estar a pouca exposição solar entre a população mais vulnerável como os idosos, que deveriam passar 15 a 20 minutos por dia na rua.

No entender do médico Rui Nogueira este aumento pode estar relacionado com "a evolução do conhecimento científico e o maior alerta para a importância da vitamina D". Por isso, o também presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF) aponta que não se deve pensar que estamos numa situação de sobre medicação. "É preciso perceber se estes valores são normais ou não. Mas não podemos esquecer que viemos de uma situação de sub-terapêutica e a medicina vai evoluindo. Não estamos a atuar como estávamos há 50 ou mesmo há 10 anos."

Rui Nogueira explica "num país do sul da Europa, a exposição solar que fazemos normalmente na nossa vida habitual é suficiente". Daí que os casos em que habitualmente há medicação são "os bebés com idades inferiores a seis meses, alimentados com leite materno, porque este é pobre em vitamina D, e os idosos que naturalmente na sua vida diária normal fazem uma exposição solar menor".

Com um aumento da consciência dos benefícios desta vitamina, aumentou a prescrição destes medicamentos. O desafio é "saber onde vamos situar o padrão", admite Rui Nogueira. "Se calhar essa devia ser a discussão do próximo ano", acrescenta.

De facto, existem, em Portugal, dois estudos sobre a deficiência de vitamina D na população que têm resultados muito diferentes, situação sublinhada pelo próprio Infarmed. Os dois foram feitos com as mesmas amostras, mas em anos diferentes (2012 e 2015) e com máquinas de medição diferentes. Para validar estes valores teria de ser realizado um teste padrão, que terá custos elevados, conforme foi referido pela reumatologista Ana Rodrigues, à SIC.

Como a medição dos níveis de vitamina D parece depender dos aparelhos em que são feitas as análises, a investigação das autoridades vai passar especificamente por esta área, com uma "avaliação profunda e esclarecedora". Uma vez que, aponta o Infarmed, as metodologias laboratoriais devem cumprir "as regras previstas na diretiva europeia dos dispositivos médicos e na legislação nacional" e estas mostraram valores discrepantes.

Além dos métodos usados nas análises, vão ser ainda investigadas a racionalidade clínica na prescrição destes medicamentos e as práticas promocionais deste tipo de medicamentos por parte das empresas farmacêuticas.

A questão surgiu quando o Infarmed percebeu que entre 2015 e 2016 tinham duplicado os encargos públicos com os medicamentos, passando de 779 mil para 2,1 milhões de euros. Enquanto os custos totais dos medicamentos com e sem comparticipação quintuplicou: de 1,1 para 5,7 milhões de euros.

A vitamina D é essencial para fortalecer os ossos, já que facilita a absorção do cálcio, os músculos e ajuda a controlar e prevenir a diabetes, além de proteger o coração. É também importante para o tratamento de doenças autoimunes como o lúpus ou a artrite reumatoide e está também associada à prevenção e tratamento de alguns cancros como o da mama e próstata.