Pôr turistas a dormir em Sintra com 55 milhões gastos em hotéis

No ano passado, Sintra foi visitada por mais de cinco milhões de turistas e embora as dormidas tenham aumentado 18%, a esmagadora maioria dos visitantes fica apenas meio-dia ou um dia

A temperatura não é a mais agradável para subir as encostas do centro histórico da vila de Sintra, mas ainda assim há alguns resistentes. "Sintra deixou de ser um destino para turistas de alguma idade e já se veem jovens. O que fez com que haja turistas o ano inteiro." A observação de Noémia Marques, da loja de lembranças Cintra Antiga, pode ser confirmada olhando para a estreita rua que passa em frente à loja.

O único problema é que estes turistas vão a Sintra e por regra não ficam aí alojados. Primeiro porque não havia muita oferta hoteleira: há 10 anos a oferta era de 2345 camas, agora já chega às 4549. E ao longo deste ano vai crescer ainda mais com a construção de seis hotéis - que representam um investimento privado de 55 milhões de euros. Entre os principais projetos destacam-se o hotel Netto, o Vila Galé e o da Gandarinha, estes três grandes hotéis vão oferecer mais 351 camas. Depois estão ainda em construção" outros mais pequenos, mas muito bons", como sublinha o presidente da autarquia Basílio Horta. Para quem o objetivo é ter "mais pessoas a ficar em Sintra". Aos grandes hotéis juntam-se também apartamentos de alojamento local e hostels. Garantida a oferta que permita aos turistas ficarem mais do que um dia na vila, falta apenas resolver o problema do estacionamento e da mobilidade no centro histórico.

Sintra vem em todos os guias, como confirmam os seus turistas. Por isso, quem está de visita a Lisboa acaba inevitavelmente por passar aí um dia. É o caso de Hans Wijnhof e da namorada. O casal holandês veio cinco dias a Lisboa e um deles foi passado em Sintra. "Chegámos há dez minutos [eram 12.00 de sexta-feira] e viemos pela história. Todos os guias falam que temos de visitar Sintra", conta Hans, enquanto a namorada está entretida a ver as lembranças de cortiça na loja de Noémia. Os dois estão a planear ir ao Palácio da Pena à tarde. Depois de percorrerem as ruas junto ao Palácio Nacional.

Quem faz negócio na vila, reconhece que houve um grande crescimento turístico. "Há mais hostels e logo há mais turistas a dormir por aqui. Mas são mais novos e gastam menos", justifica Noémia Marques. Porém, a comerciante aplica quase de imediato a filosofia portuguesa do podia ser pior para concluir a frase com um: "Compram menos, mas acabam sempre por levar uma pequena lembrança".

Em frente ao Palácio Nacional, um casal na faixa etária dos 30 aproveita o sol sentado nos bancos de pedra. "Voltamos hoje para Lisboa, mas vimos no guia que aconselhavam a visita", referem os londrinos, Nawreeta Mann e Zahaib Rafiq. Na viagem de três dias a Lisboa, os dois não quiseram deixar de ver a terra mágica descrita pelos guias. Os conselho foram seguidos não só na visita ao Palácio da Pena, ao centro da cidade, mas também no almoço no restaurante Pendôa, e na degustação do famoso travesseiro. Não tarda, começam a descer a rua junto ao Palácio Nacional para se dirigirem à estação, onde o comboio os vai trazer de regresso a Lisboa. "É muito bonito e calmo. Mas também se calhar é porque está frio", acrescenta Nawreeta Mann.

Na loja onde se compram os tradicionais travesseiros, a Piriquita os momentos de descanso são poucos. Quem aqui entra - na loja principal, há a Piriquita dois, mais acima também na Rua das Padarias - não pode deixar de notar a rapidez e quantidade de vezes que o sistema de senhas toca. Ora, se é verdade que "os últimos anos têm sido bons", também é certo que por aqui "a procura morre cedo", explica Ana ferreira, funcionária da loja.

Pintar a vila para cativar visitantes

Nas ruas é certo que raramente se ouve falar português, mas ainda assim está longe do movimento dos dias quentes de primavera e verão. "O mês de janeiro é sempre mais fraco", reconhece a funcionária da Piriquita.

Do outro lado do centro, junto à Câmara, a outra referência da doçaria tradicional - as Queijadas da Sapa - também está satisfeita com o crescimento turístico da vila. Embora admita que estar longe do centro acaba por prejudicar as vendas. "As pessoas passam aqui sempre cheias de pressa para ir para o comboio e como só vendemos aqui em Sintra somos menos conhecidos", conta Teresa Azevedo Coutinho, sócia-gerente da cafetaria onde se vendem as queijadas que são produzidas pela sogra. A receita tradicional, que é explorada pela mesma família desde 1756, é um ponto de paragem obrigatório à entrada ou à saída da vila. Quem aqui para são maioritariamente estrangeiros e este ano nem o inverno mostrou sinais de quebra nas visitas. "Novembro e dezembro foram meses em que houve mais gente do que noutros anos", refere a responsável pela cafetaria.

Teresa Azevedo Coutinho acredita que continua a atender mais os turistas de passagem porque "as outras infraestruturas não acompanham". Como é o caso do estacionamento e os transportes públicos dentro da vila. Um problema que a Câmara reconhece e garante que está a resolver (ver entrevista).

Até porque a realidade é que a maioria dos turistas se desloca de comboio e carro para Sintra. A maioria procura a beleza cultural, mas também há quem visite a vila pela gastronomia, vinhos e golfe. De acordo com os dados divulgados pela autarquia e retirados da utilização da rede de wi fi gratuita disponível em toda a vila, a maioria dos turistas são espanhóis. Seguidos dos brasileiros, americanos e italianos.

No ano passado, conectaram-se 169 mil turistas que usaram a internet e preencheram os dados que lhe são pedidos. Mais de 60 mil disseram que iam ficar apenas meio-dia, enquanto quase 80 mil iam ficar apenas um dia. Apenas 10 mil dormiam uma noite em Sintra. A maior parte dos utilizadores tinha entre 19 e 25 anos, seguidos da faixa etária entre os 31 e os 40 anos.

Rosa Mina é uma das pessoas que recebe muitos dos estrangeiros que querem conhecer a história e pontos de interesse da vila. É guia turística e está neste momento a explicar a um grupo de muçulmanos a herança árabe de Sintra e a convivência entre os árabes, os judeus e os católicos que reinou na vila. Em pleno Largo Rainha Dona Amélia, explica que o edifício atrás de si - o Palácio Nacional de Sintra - tem uma sala árabe e que poucos metros à sua frente se situa o antigo bairro árabe. "Aqui perto têm ainda o mais antigo hotel da Península Ibérica - o Lawrence - onde ficavam grandes figuras instaladas. Sintra tem também um Palácio (da Regaleira) que tem elementos inspirados na Divina Comédia de Dante." Num breve resumo, Rosa pinta "as coisas de uma forma que eles gostam e ficam interessados", descreve a própria.

Depois de libertar o grupo vindo do Magrebe - alguns seguiram para o bairro árabe, outros para o interior do Palácio e outros ainda aproveitaram para ir comprar queijadas e travesseiros -, Rosa Mina explica lamenta que o seu trabalho seja desvalorizado pelas entidades responsáveis. "Desregulamentaram a profissão de guia turística. Sou guia oficial e reconhecia, mas agora qualquer miúdo condutor de tuk tuk que saiba falar línguas é guia. Não há a preocupação da imagem que se passa. Eles não sabem história, dar contexto", lamenta.

Poucos metros abaixo, os tuk tuk estavam mesmo cheios de trabalho. Tanto que a sul-coreana Narae apressa-se a dizer "que só tem cinco minutos". Está de saída com uma amiga para ir conhecer o Cabo da Roca. Explica apenas que fica um dia e que veio "ver a paisagem".

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