Operação Lava-Jato. Suspeito escondeu-se em Portugal para evitar extradição

Raul Schmidt Felippe Jr. vivia há seis meses com a mulher e a filha num condomínio de luxo no bairro do Castelo

Um apartamento em condomínio de luxo avaliado em três milhões de euros, com vista para o rio Tejo, elevador interior e repleto de obras de arte. Era neste refúgio, localizado na rua de São Mamede, junto à Costa do Castelo, em Lisboa, que um dos principais suspeitos da operação Lava-Jato estava escondido quase há seis meses, desde outubro, quando o seu nome foi incluído na lista dos procurados da Interpol. Mas Raul Schmidt Felippe Junior foi detido ontem pela Polícia Judiciária às 07.15 em casa, onde se encontrava com a mulher e a filha, tendo sido apanhado de surpresa.

Foi a primeira operação internacional realizada no âmbito da Operação Lava-Jato - a maior investigação a atos de corrupção no Brasil, que envolve a empresa Petrobras, quadros da petrolífera, políticos e empresários da construção, tendo chegado à imprensa internacional com o envolvimento do ex-presidente Lula da Silva. A operação encontra-se na sua 25ª fase e entrou agora em Portugal, tendo sido batizada pela PJ como "Polimento", que ao deter Raul Schmidt deu cumprimento a um mandado de detenção internacional emitido em outubro.

O empresário, com dupla nacionalidade (brasileira e portuguesa), é suspeito de corrupção e branqueamento de capitais, por ter, alegadamente, pago subornos a ex-administradores da Petrobras. Deixou Londres para vir para Portugal, esperando assim evitar a extradição para o Brasil. Estava em Lisboa desde outubro e levava uma vida discreta, quase nunca saindo do apartamento na costa do Castelo, não usava cartões multibanco e teria colaboradores na Suíça e em Inglaterra que tratariam de movimentar as suas muitas contas bancárias, segundo apurou o DN.

No total, Schmidt terá 140 milhões de euros em vários depósitos bancários, de acordo com as suspeitas das autoridades brasileiras. Como pedido pela carta rogatória enviada em dezembro pela justiça brasileira, os valores monetários que se encontravam numa conta bancária do Banif em nome da sociedade offshore Kingstall Financial serão agora repatriados para o Brasil através do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) do Ministério Público português.

As obras de arte que o empresário tinha na casa de luxo da rua de São Mamede foram também confiscadas, bem como toda a documentação útil para o processo. Na operação de ontem participaram 14 elementos da Judiciária, um procurador da República, um juiz, um procurador da República do Ministério Público Federal brasileiro e dois elementos da Polícia Federal do Brasil.

Delegado que levou Lula em Lisboa

No domingo chegaram a Lisboa o delegado da Polícia Federal brasileira, que levou na semana passada Lula da Silva para interrogatório, Luciano Lima, e um dos procuradores da operação Lava-Jato, Diogo Castor. Segundo apurou o DN, os dois participaram em todas as diligências que levaram ontem à detenção de Raul Schmidt. Segundo a Procuradoria da República no Estado do Paraná, este suspeito da Operação Lava-Jato estava "foragido desde julho de 2015", quando foi constituído arguido, por subornos na Petrobras, onde trabalhou 17 anos, a Jorge Zelada, Renato de Souza Duque e Nestor Cerveró, todos ex-diretores da empresa. Os três estão detidos no Paraná. Schmidt, que estava fora do Brasil há dez anos, viveu em Londres, onde mantinha uma galeria de arte, mas mudou para Portugal "em virtude da dupla nacionalidade".

PJ procurou outra casa no Estoril

Na carta rogatória enviada em dezembro pelo Brasil ao DCIAP a solicitar a procura e detenção de Schmidt constava uma morada no Estoril, mas a PJ descobriu que o suspeito afinal não residia nesta. A residência do Estoril está também em seu nome, mas há seis meses que Schmidt se tinha mudado para o condomínio de luxo na zona histórica da capital. No Brasil, as autoridades já colocavam a hipótese de Schmidt estar antes a viver em Inglaterra ou na Suíça. Só há 15 dias é que os inspetores da Unidade Nacional de Combate à Corrupção (UNCC) da PJ tiveram a certeza de que ele estava mesmo em Portugal. A partir daí passaram a fazer vigilâncias e a seguir os passos discretos da mulher e da filha. No sábado passado, os investigadores viram Raul Schmidt na rua pela primeira vez.

Queriam extradição em 48 horas

O Brasil pediu a Portugal que a decisão sobre a data da extradição do luso-brasileiro Raul Schmidt Felippe Junior fosse tomada em dois dias. "Eles pediram que fosse decidido em 48 horas, como ele estava foragido, para que ele venha para o Brasil o quanto antes", disse à Lusa a assessoria do Ministério Público Federal de Curitiba. Mas o presidente do Tribunal da Relação de Lisboa, Vaz das Neves, assegurou ao DN que "cumprir esse prazo é impossível porque nem daria garantias de defesa ao arguido".

O expediente do processo de extradição foi recebido pelo Ministério Público (MP) da Relação pelas 17.00 de ontem. O MP vai determinar agora o andamento do processo e hoje o presidente Vaz das Neves deverá indicar um desembargador para ouvir o arguido. Schmidt poderá ser ouvido ainda hoje na Relação de Lisboa. "O juiz terá uma pergunta sacramental a fazer-lhe: se aceita ou se opõe à extradição", explica o presidente do Tribunal da Relação. "Se se opuser a sua defesa terá um prazo de cinco a dez dias para preparar a argumentação por escrito. Depois, o MP terá ainda dez dias para se pronunciar". Daí que o prazo de 48 horas "implicava uma diminuição total da garantia do extraditando no nosso sistema", sublinha Vaz das Neves. O processo nunca estará resolvido em menos de um mês. Raul Schmidt passou a noite de ontem no estabelecimento prisional anexo à sede da Polícia Judiciária, em Lisboa.

Em fuga desde julho de 2015

Esta 25ª fase da operação Lava-Jato é um desdobramento de uma fase chamada Conexão Mónaco. Em julho de 2015 o alvo principal foi Jorge Zelada, ex-diretor da área Internacional da Petrobras. Segundo relatava ontem o jornal O Globo, Raul Schmidt, sócio de Zelada, foi constituído arguido com sujeição a prisão preventiva. Schmidt vivia na Europa há anos e passou à condição de foragido à justiça brasileira. Ainda segundo a mesma notícia, desde agosto do ano passado que o empresário era monitorizado pela polícia brasileira, que suspeitava que ele tivesse vindo para Portugal. A fase anterior a "Polimento" foi a que levou Lula da Silva a depor.

Dinheiro congelado na Suíça

A Lava-Jato é a investigação com mais dinheiro congelado na história do sistema bancário da Suíça, segundo fonte judicial helvética. Vai em mais de mil contas congeladas, superando investigações históricas como as dos ex-presidente das Filipinas, Ferdinando Marcos, do líbio Muammar Kadafi; do ex-chefe de Estado egípcio Hosni Mubarak; da Federação Internacional de Futebol (FIFA) ou do presidente do Haiti, François Duvalier. Na semana em que completou dois anos, a operação Lava-Jato continua a ser a maior de todos os tempos no Brasil, estima-se que o valor desviado seja de 10 mil milhões de euros.

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