O degelo ao vivo e a cores

Artista visual, performer e navegadora, Bárbara Veiga não podia perder a oportunidade de despertar consciências em plena Conferência dos Oceanos. Fê-lo ao vivo, com a obra The Ocean.

Eu gosto de mostrar o que é bonito, mas também preciso de falar do que é caótico e nocivo", diz-nos Bárbara Veiga, artista visual e performer, pouco antes de apresentar a performance One Ocean frente ao Altice Arena, onde, ao longo de toda a semana, decorreu a 2.ª Conferência dos Oceanos. A partir de uma peça em constante mutação, feita de madeira queimada sob um grande cubo de gelo, Bárbara, nascida no Rio de Janeiro há 38 anos e a viver em Lisboa há dois, quis fazer uma reflexão sobre a relação entre o mar, a floresta e o ser humano. "O gelo é um elemento muito sensorial, sobretudo no verão, e essa capacidade pode ser a chave para despertar mais pessoas para o significado e consequências das alterações climáticas e o modo como estas afetam e ameaçam milhares de espécies animais e vegetais."

A paixão pelo mar surgiu-lhe cedo. Diz que em menina uma ida à praia despertara-lhe a curiosidade e a suspeita de que "sob a superfície havia muito mais para ser descoberto e explorado." Aos 14 anos começou a promover campanhas de limpeza de praia com os amigos e não mais parou. Seguiu-se o envolvimento em causas e movimentos ambientais e a realização de trabalhos artísticos com elementos marinhos.

Não tardou a deixar de navegar à vista de terra. Ao longo de sete anos, viajou a bordo do seu veleiro Papaia e visitou mais de 80 países: "Comprei um veleiro em segunda mão na Malásia, dei-lhe o nome de Papaia, restaurei-o entre a Malásia e a Tailândia e basicamente foi aí que vivi e realizei os meus trabalhos artísticos durante todos esses anos." Em cada porto não só procurava saber mais sobre a cultura de quem a acolhia, como sensibilizar para a importância de uma relação em harmonia com o mar. "Sou muito curiosa e a diversidade cultural de que a Humanidade é capaz fascina-me", admite.

A performance a solo apresentada no encerramento da Conferência dos Oceanos foi realizada com um grande cubo de gelo, com palavras esculpidas em madeira no interior. "O título One Ocean serve para lembrar que só temos um oceano. Este é o momento de pensarmos coletiva e globalmente e defender esse bioma. Conhecemos apenas 20% do que se passa no mar, é um universo quase tão desconhecido como o espaço", diz Bárbara, que, ao vivo, esculpiu o cubo de gelo com rebarbadora, escopro e martelo e usou um maçarico para o derreter. "Quis recriar, com ferramentas humanas e em pouco tempo, o efeito da emissão de gases e das pegadas de carbono tão prejudicais à nossa vida."

O figurino, concebido para a performance, é da autoria da estilista Roselyn Silva, em parceria com o seu marido, o artista Blackson. que desenvolveu um macacão com design apropriado à mobilidade e conforto para a performance, com um padrão que também é uma mensagem sobre o tema em causa.

Em maio, a artista tinha apresentado, também em Lisboa, no espaço Espelho de Água, a exposição Mundo Insular, resultado do seu trabalho a navegar pelos oceanos, bem como o livro, da sua autoria, Sete Anos em Sete Mares.

O principal objetivo de Bárbara foi usar o espaço da conferência com uma ação questionadora sobre o futuro a curto prazo, a década que, segundo alertam os especialistas, temos para inverter a marcha e mudar de rumo. "Falar de oceano é falar de humanidade. Porque temos um tempo curto aqui. A Terra vai continuar com ou sem o ser humano. Chamar a atenção para as questões ambientais é chamar a atenção para a nossa sobrevivência no planeta", diz.

Bárbara já apresentou performances artísticas, como Sea Woman, no Japão, Holanda, Bélgica, Espanha, Portugal, e O que eu preciso, no Brasil. Também fez exposições de fotografia ou multimédia na Islândia, França, Itália ou Austrália. Em 2021, apresentou Eternal Pelagus, uma exposição em Espanha, a convite do Festival Mar de Mares. Em maio deste ano, em Lisboa, a par da exposição Mundo Insular, apresentou uma performance com rede de pesca capturada em alto-mar, ao largo de Peniche. Neste caso, o foco incidia sobre a necessidade de "despertar o público para a crueldade do aprisionamento dos animais nas redes e para o mundo nocivo e tóxico que é a pesca ilegal".

A artista não se imagina a trabalhar sem um propósito social: "Tenho sempre o propósito de fazer com que as pessoas entendam mais sobre a importância de dizer mais sobre este tema. A arte tem o papel de despertar consciências de termos 10 anos para inverter esta realidade. É uma preocupação que tenho como cidadã consciente e como artista."

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